quarta-feira, 26 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«A Raiz de Mandioca da Viúva Monção», por João Ubaldo Ribeiro.

«A Raiz de Mandioca da Viúva Monção»
Conto de João Ubaldo Ribeiro

1056- «A RAIZ DE MANDIOCA DA VIÚVA MONÇÃO»

Todo mundo sabe que a terra aqui em Itaparica é fertilíssima, uma coisa que só vendo para acreditar. Bem verdade que costumava ser ainda mais fértil, mas isso era no tempo em que não havia televisão, de maneira que o pessoal contava histórias sobre proezas agrícolas e a coisa aumentava um pouco. Quase não temos mais bons mentirosos em Itaparica, a não ser do tipo desagradável existente em toda parte, o mentiroso político, o fariseu, essas personagens de rotina mesmo. Os outros, os bons, foram liquidados pela concorrência da tevê: hoje o pessoal fica em casa e, mentira por mentira, as dos comerciais do governo já satisfazem a quem quer dar umas risadinhas.

Lembro bem dos coentros de Lamartine. Isso foi no tempo em que Lamartine era rapazinho - e já estava velho quando o conheci, há mais de trinta e cinco anos, por aí vocês vêem quanto tempo que não faz. Os coentros de Lamartine, ele exagerou na adubagem, foi isso. Naquele tempo, não se podia exagerar na adubagem, porque a terra ainda estava muito impetuosa, muito moça, quase virgem, negócio mesmo de o sujeito se arriscar a ver raiz crescer no dedo, se enfiasse o dedo nela um tempinho. Mas ele exagerou no Salitre do Chile Especial e foi o que se viu: cada pé de coentro que dava para um homem se esconder atrás. Coisa que, aliás, ele chegou a fazer, numa certa oportunidade. Estava fugindo de dona Naninha, então noiva dele, por causa de uma transgressão da mocidade qualquer, e aí se escondeu dela atrás do pé de coentro. E ela não viu nada, sendo bem possível que tivesse pensado que errara de caminho e, em vez de à horta do noivo, tivesse chegado a um bananal.

Esse Salitre do Chile Especial, por sinal, nunca mais ele usou, porque as plantas ítaparicanas tratadas com ele eram um transtorno. Quem quer que já tenha tentado vender um molho de coentro com as folhas do tamanho de palhas de coqueiro compreenderá bem o problema de Lamartine. Se a natureza fez as folhas de coentro daquele tamaninho, é porque quis que elas fossem assim. Que fez então Lamartine? Pegou o resto do saco do salitre e jogou nos fundos de um quarto do quintal, cômodo abandonado que ele só usava para depositar umas tralhas velhas mesmo.

Mal lembrava ele que, neste nosso clima, as plantas muitas vezes crescem sem ajuda de ninguém. Há casos e mais casos de gente que enricou vendendo melancia do quintal sem nunca ter plantado melancia. Assim também são a abóbora, a flor que se chama boa-noite, a mamona, os capins e assim por diante. Pois muito bem, um belo dia Lamartine vai passando pelo quintal e nota que as paredes daquele quarto estão como que rachando, mostrando fendas para além do reboco. Que diabo seria aquilo?

A porta era dessas que abrem para dentro. Ele foi buscar a chave, girou-a, empurrou a porta e nada. Forçou com o ombro, deu pontapé e nada. Mandou chamar um caboclo forte que trabalhava com ele, o caboclo veio, meteu também o ombro na porta, a porta nada. Assim já era demais. Lamartine se aborreceu, mandou buscar um machado, tacou o machado no meio da porta. Uma machadada, duas machadadas, três machadadas e — zás! - sai uma lasca de madeira da porta, acompanhada de — adivinhem o quê? — Exatamente. De uma talhada de abóbora. A desgraçada da aboboreira que estava nascendo, toda encorucujadinha no canto do quarto, se cevou no adubo e aí deu uma abóbora que cresceu, cresceu, cresceu, até chegar àquele despropósito, quase destruindo o quarto todo e dando um prejuízo enorme.

Hoje em dia, não estamos mais como no tempo de Lamartine, mas a terra ainda é bastante fértil. E, felizmente, os praticantes da agricultura e do criatório, embora em pequeníssimo número, se comparado à pujança de outrora, de vez em quando nos surpreendem com novos feitos. Meu primo Zé de Neco mesmo, que não fuma, não bebe e só diz palavrão em último caso, pai de família apontado como exemplo em toda a cidade, merecia uma reportagem. Se o Nordeste não fosse discriminado, meu primo Zé de Neco teria uma bela reportagem. Uma não, duas pelo menos, pelo menos uns dois fantásticos da televisão. Como disse Armando de Lalá, num repentismo desses que vêm à cabeça dos poetas sem mais nem mais:

Fica os fantásticos filmando americano
E ninguém mais não admira o itaparicano!"

Zé cria galo de briga e não poupa sacrifícios para o aprimoramento genético de seu plantel. Para que o galo de briga tenha os baixos instintos indispensáveis ao exercício de sua profissão, é necessário que venha de linhagens inaceitáveis em qualquer família decente. Como, por exemplo, ser raceado com urubu. Pois Zé vai atrás do urubu, pega o urubu e força o casamento com as galinhas de briga dele. Como também força casamentos com mutuns, gaviões, o que pintar - o que interessa é um galo bom. Objetarão os que acham isto impossível, pelas leis da biologia. Respondo que tentem objetar a Zé pessoalmente, para ver se, apesar de já estar chegando aos 60, ele ainda não é bom de capoeira. Ele não aprecia ser chamado de mentiroso.

Tanto assim que lhes passo como verdade verdadeira o conselho que ele deu a todo proprietário de jardim ou areazinha onde possa plantar. O conselho é o seguinte: arranje uma manaíba, enfie lá e esqueça. Manaíba é o nome dado a uma raiz de mandioca que se usa para reprodução, uma espécie de muda, ou semente.

— Mas pra que é que eu quero um pé de mandioca no quintal, Zé?

 — O que é que eu falei? Eu disse "plante uma manaíba e esqueça". É pra esquecer.

 — Mas, se é pra esquecer, pior ainda.

— É porque você não sabe do caso da Viúva Monção.

— A Viúva Monção?

— Você não conheceu, não foi de seu tempo aqui. Mas a Viúva Monção plantou uma manaíba de aipim na horta dela, esqueceu e, quando foi limpar o terreno, tirou uma macaxera de sessenta e quatro quilos!

— Como é que foi, Zé?

— Um aipim de sessenta e quatro quilos! Sessenta e quatro quilos! Agora, imagine isso aí, jardim por jardim, quintal por quintal. Não havia mais o problema da fome.

— Não sei não, Zé. Se tirassem a patente dessa manaíba da Viúva Monção, iam fundar a Mandiocabrás, criar o imposto sobre produtos da manaíba e exportar a manaíba toda.

— Isso é verdade. E, porque gringo não come aipim, iam acabar não deixando ninguém plantar aipim. Não, esqueça. Nunca houve esse aipim de sessenta e quatro quilos, da Viúva Monção.

— Mas você falou...

— Isso é porque a pessoa esquece que existe governo e aí vai fantasiando umas bobagens. Mas depois lembra que existe governo e aí lembra que uma mandioca dessas havia de ser ilegal, visto a falta de comida até hoje ter sido o programa de governo do governo.

— Zé — disse eu —, você devia ser ministro.

— Deus me livre — disse ele. — Eu sou contra a fome.

João Ubaldo Ribeiro

terça-feira, 25 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«A Queda», conto poético por Manel d' Sousa.

«A Queda»
Décima

1055- «A QUEDA»

Caí da escada
Só parei no portão…
Foi grande trambolhão,
Mas não parti nada.
Braço e perna esfolada
E outras contusões,
Foram as lesões
Da queda despedida…
A ossada dorida,
E alguns arranhões.

Manel d’ Sousa

SÁTIRA...

A Conquista
Sátira...

«A CONQUISTA»

Conquistei o troféu
Da cidade de Guimarães...
Que se cuidem os Lampiões,
Foi só um pequeno pitéu!
O azul da cor do céu
Quer o Porto campeão,
Pra vencer a competição
Ao seu eterno rival…
Não me levem a mal,
Mas é ano do Dragão!!

POETA

segunda-feira, 24 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Aviso às Crianças», conto poético por Robert Graves.

«Aviso às Crianças»
A Grande Lousa/ Eduardo Luiz

1054- «AVISO ÀS CRIANÇAS»

Crianças, se tiverdes a coragem de
Pensar na minúscula grandeza, ou na rareza,
Ou na estranheza deste mundo
Precioso e único e infinito em que dizeis
Viver, pensai em coisas destas:
Blocos de ardósia envolvendo manchas
De cor verde e encarnada, envolvendo
Redes de um amarelo acastanhado,
Envolvendo um campo com ladrilhos
Dominós de branco e preto que se alternam
E no meio um perfeito embrulho em papel pardo
Que vos convida a puxar pelo baraço.
E no embrulho uma ilha pequena,
E na ilha uma árvore grande,
E na árvore um fruto de casca dura.
Parti a casca e abri o fruto:
No seu miolo vereis
Blocos de ardósia envolvendo manchas
De cor verde e encarnada, envolvendo
Redes de um amarelo acastanhado,
Envolvendo um campo com ladrilhos
Dominós de branco e preto que se alternam
Onde o mesmo embrulho em papel pardo –
Crianças, deixai o baraço em paz!
Porque quem se atreve a abrir o embrulho
Fica logo dentro dele,
Dentro da ilha, na árvore,
Blocos de ardósia envolvendo-lhe a cabeça,
E vê-se envolvido por manchas,
De cor verde e encarnada, envolvendo
Redes de um amarelo acastanhado,
Envolvendo um campo com ladrilhos
Dominós de branco e preto que se alternam
Com o mesmo embrulho em papel pardo
Ainda por abrir sobre os joelhos.
E se então tiver a coragem de
Pensar na estranheza, ou na rareza,
Ou na minúscula grandeza deste mundo
Precioso e único e infinito em que diz viver –
Então, puxará pelo baraço.

Robert Graves

SÁTIRA...

O Festim
Sátira...

«O FESTIM»

- Da ementa da semana,
Queres peito ou perna?
- Camarada, não alterna?...
Eu sou vegetariana!
- Outra como a Mariana,
Só engole vegetais…
- Coitados dos animais
Que servem d’alimento!
- Esta carne é sustento
De muitos irracionais!!

POETA

domingo, 23 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Gazetilha», conto poético por Álvaro de Campos.

«Gazetilha»
Heteronímia/ Fernando Pessoa

 1053- «GAZETILHA» 

Dos Lloyd Georges da Babilónia 
Não reza a história nada. 
Dos Briands da Assíria ou do Egipto, 
Dos Trotskys de qualquer colónia 
Grega ou romana já passada, 
O nome é morto, inda que escrito. 

Só o parvo dum poeta, ou um louco 
Que fazia filosofia, 
Ou um geómetra maduro, 
Sobrevive a esse tanto pouco 
Que está lá para trás no escuro 
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento! 
Ó grandes glórias a ferver 
De quem a obscuridade foge! 
Aproveitem sem pensamento! 
Tratem da fama e do comer, 
Que amanhã é dos loucos de hoje!

Álvaro de Campos

SÁTIRA...

Sem Palavras
Sátira...

«SEM PALAVRAS»

Nada me ocorre dizer (?...)
É ainda um passarinho,
Pra chegar a leãozinho
Tem muito que aprender!
O dedo, como podem ver,
Aponta pró dito anormal,
Precisa de trato mental
Esse Bruno de Carvalho…
Ele que vá pró caralho,
Espero não levem a mal (...?)

POETA

sábado, 22 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Certeza», conto poético por Fernando Sabino.

«Certeza»
O Poema da Noite/ Fernando Sabino

1052- «CERTEZA»

De tudo, ficaram três coisas: 
A certeza de que ele estava sempre começando... 
A certeza de que era preciso continuar... 
A certeza de que seria interrompido antes de terminar.... 
Fazer da interrupção um caminho novo ... 
Fazer da queda um passo de dança... 
Do medo, uma escada... 
Do sonho, uma ponte... 
Da procura, um encontro...

Fernando Sabino 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

SÁTIRA...

Aldrabices
Sátira...

«ALDRABICES»

- És lesado do Banif
Confiaste no sistema,
Entraste no esquema
Da maior aldrabice!
Eu bem te disse!!...
Agora podes sossegar,
O Tonho vai reparar
Teres sido prejudicado.
- Espero de pé ou sentado,
Ou estás-me a aldrabar?

POETA

OUTROS CONTOS

«Interior», conto poético por Hart Crane.

«Interior»
Quarto em Arles/ Vincent van Gogh

1051- «INTERIOR»

Espalha uma festa tímida
A lâmpada em nosso quarto.
Calma dourada e cinza, —
Silêncio e suave enfarto!

Longe do mundo, a hora roubada
Pedimos, quem saberia
Que o amor é uma flor atrasada
A abrir no que resta ao dia.

E se o mundo entrasse em cena
Com ciúmes e malícia,
Partiria com uma vénia
Levando pena e um sorriso

Hart Crane

quinta-feira, 20 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Inverno», conto poético por José Agostinho Baptista.

«Inverno»
Inverno/ Giuseppe Arcimboldo

1050- «INVERNO»

O medo está no inverno.
O medo bate nos olhos com as suas ferramentas negras e
depois anuncia a morte.
No inverno
penso na terra, no silêncio da terra e dos astros e
das rosas,
no teu grande silêncio, pai.
No inverno
volto-me para baixo, para os alicerces
do mundo.
No inverno
dizes de muito longe que não voltarás aqui.

José Agostinho Baptista

quarta-feira, 19 de julho de 2017

SÁTIRA...

A Clarificação
Sátira...

«A CLARIFICAÇÃO»

- Ó Pedro, vou desabafar…
O cigano é um parasita!
- Cavalgadura racista,
Vou deixar de te apoiar.
- O cigano não quer trabalhar,
Mas por ele tenho respeito (?)
- Assim a coisa leva jeito,
De novo conto contigo.
- Obrigado, cigano amigo,
Estou de coração desfeito!

POETA

segunda-feira, 17 de julho de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOHN COLTRANE - «CTA»

Poet'anarquista

John Coltrane
Saxofonista Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«Resgate», conto poético por José João Cochofel.

«Resgate»
Poema de Cochofel

1049- «RESGATE»

Meus pés moídos na calçada,
minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,
e o vazio por dentro
a encher o tédio das horas sem nome.

Tudo isto
– moeda triste
que nem chega a pagar o sol da tardinha
e a poeira de feno que pontilhou de oiro
teu corpo entre trigais.

José João Cochofel

SÁTIRA...

O Homossexual
Sátira...

«O HOMOSSEXUAL»

- A homossexualidade
É uma anomalia…
Já meu pai me dizia:
Desvio de personalidade!...
Comparo esta realidade
Com o sadomasoquismo,
Ou mutilação do organismo.
- E qual a sua experiência
Sobre a demência?
- Só comparável ao idiotismo!!

POETA

domingo, 16 de julho de 2017

UNA BELLA ROMANA

Una Bella Romana
Décima de Manel d' Sousa

UNA BELLA ROMANA

Una bella romana
Il Castello di Alandroal,
E la bellezza originaria
Che emana da voi!
Ma è la parte umana
Ciò che più mette in evidenza,
Passeggiando tua grazia
In secoli di storia ...
Rimarrà nella memoria
Chi passa di qui.

Uma bela romana
No Castelo do Alandroal,
E a beleza original
Que de si emana!
Mas é a parte humana
O que mais realça,
Passeando a sua graça
Em séculos de história…
Vai ficar na memória
De quem por cá passa.

Manel d' Sousa

SÁTIRA...

O Sabichão Arrogante
Surrealismo/ Fredy Varela

O SABICHÃO ARROGANTE

O sabichão arrogante
Fala do que não entende,
A todos repreende
Por ser um ignorante.
Antes, depois e durante
Propaga-se a bactéria,
Vomita baba e léria
Crente na sua eficácia…
Especialista em falácia
Essa triste miséria!

Manel d' Sousa

OUTROS CONTOS

«Flor de Alfazema», conto poético por Manel d' Sousa.

«Flor de Alfazema»
Décimas por Manel d' Sousa
Mote/ Manguito

Sobre uma troca de mensagens no facebook…

1048- «FLOR DE ALFAZEMA»

Mote/ António Veladas (Manguito)

Criado com alfazema
Dizendo isto e aquilo
Dedica esse poema
Ao ex-presidente Grilo

Também dita Lavanda
De cor azul ou violeta,
Atrai a borboleta
Com o cheiro que manda.
É boa propaganda
Lá na horta, na estrema,
Um bom estratagema
Para afastar a praga…
Ali nada se estraga
Criado com Alfazema.

O odor do costume
Não traz nada de novo,
Assim se engana o povo
Com falso perfume.
Atrás de si o cardume
Surge em grande estilo,
A todos dá asilo
Pra chegar ao poder…
Quer-se convencer
Dizendo isto e aquilo.

Alvitra o Manguito
Em quadra singela,
Um toque na canela
Com mordaz gabarito.
Sobre o que está escrito
Versar não foi dilema,
Faz parte do sistema
Um bom mote seduzir…
O poeta a insistir:
- Dedica esse poema!

Segue dedicatória
Conforme foi pedido,
Faz todo o sentido
Escrever esta história.
Guardo na memória
Com algum sigilo,
Tempo intranquilo
Onde a paz não reinou…
O poema dedicou
Ao ex-presidente Grilo.

Poeta Popular/ Manel d’Sousa

sexta-feira, 14 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Solidão», conto poético por Fernanda de Castro.

«Solidão»
Solidão/ Emmanuel Nery

1047- «SOLIDÃO»

Eu tinha medo à solidão. Temia
encontrar-me comigo, frente a frente,
e resignar-me a viver contente
já que viver feliz eu não podia.

Queria à minha volta muita gente,
repartia em minutos o meu dia
procurando a ilusão duma alegria
que tanto desejara inutilmente.

Mas breve compreendi que a solidão
era não ter ninguém no coração,
e buscando outro fim para os meus passos,

eu fiz da vida um canto mais profundo
e, pouco a pouco, limitei o mundo
à reduzida curva dos meus braços.

Fernanda de Castro

terça-feira, 11 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«Os Prisioneiros de Longjumeau», por Léon Bloy.

«Os Prisioneiros de Longjumeau»
Conto de Léon Bloy

1046- «OS PRISIONEIROS DE LONGJUMEAU»

O Postilhão De Longjumeau anunciava ontem o fim deplorável dos dois Fourmi. Esse jornal, recomendado com justa razão pela abundância e qualidade de suas informações, perdia-se em conjecturas quanto às causas misteriosas do desespero que acaba de levar ao suicídio esses esposos que todos imaginavam felizes.

Casados quando muito jovens e há vinte anos em lua-de-mel, não haviam saído da cidade nem por um único dia.

Livres, pela previdência de seus criadores, de todas as preocupações com dinheiro capazes de envenenar a vida conjugal e, pelo contrário, amplamente supridos de todo o necessário para aparelhar um tipo de união sem dúvida legítima mas tão pouco conforme à necessidade de vicissitudes amorosas que em geral preocupa os instáveis humanos, eles realizam, aos olhos do mundo, o milagre da ternura perpétua.

Uma bela noite de maio, no dia seguinte à queda do sr. Thiers, o trem circular os havia trazido, juntamente com seus pais, que ali estavam para instalá-los na deliciosa propriedade que deveria abrigar sua alegria.

Os longjumelianos de coração puro contemplaram enternecidos aquele lindo casal que o veterinário sem hesitar comparou a Paulo e Virgínia.

Eles realmente estavam, naquele dia, muito bem e pareciam pálidos filhos da aristocracia.

Mestre Piécu, o tabelião mais importante do cantão, lhes comprara, às portas da cidade, um ninho de verdura que os mortos teriam invejado.

Pois é preciso admitir que o jardim fazia pensar num cemitério abandonado. Tal aspecto não lhes desagradou, sem dúvida, pois ali não introduziram, nos anos seguintes, qualquer modificação e deixaram crescer em liberdade os vegetais.

Para me servir de uma expressão por demais original do mestre Piécu, eles viveram nas nuvens, não recebendo praticamente ninguém, não por malícia ou desdém, mas simplesmente porque nunca pensaram nisso.

Além disso, teria sido preciso deixar de se abraçar por algumas horas ou alguns minutos, interromper o êxtase e, por Deus!, considerando a brevidade da vida, esses esposos extraordinários não tinham tal coragem.

Um dos maiores homens da Idade Média, mestre Jean Tauler, conta a história de um ermitão a quem um visitante inoportuno foi pedir um objecto que se encontrava em sua cela. O ermitão se viu no dever de entrar em casa para apanhar o objecto. Mas, ao entrar, esqueceu-se do que se tratava, pois a imagem das coisas exteriores não conseguia permanecer em seu espírito. Saiu então, e pediu ao visitante que lhe dissesse o que desejava. Este renovou o pedido. O ermitão voltou a entrar mas, antes de apanhar o tal objecto, a lembrança do mesmo o abandonou. Depois de diversas tentativas, foi obrigado a dizer ao inoportuno:

— Entre e procure o senhor mesmo aquilo de que precisa, pois não consigo guardar comigo a sua imagem tempo suficiente para fazer o que me pede.

O sr. e a sra. Fourmi muitas vezes me lembraram esse ermitão. Teriam dado de boa vontade tudo o que lhes fosse pedido, caso disso conseguissem se lembrar por um único instante.

Suas distracções eram famosas, falava-se delas até em Corbeil. Os dois, entretanto, não aparentavam sofrer por causa delas e a “funesta” resolução que lhes terminou a existência por todos invejada deve parecer inexplicável.

***

Uma carta já antiga desse infeliz Fourmi, que conheci antes de seu casamento, permitiu-me reconstituir, por dedução, toda a sua lamentável história.

Aqui está a carta. Veremos, talvez, que meu amigo não era nem louco nem imbecil.

“…Pela décima ou vigésima vez, caro amigo, nós te faltamos com a palavra, de forma absurda. Por maior que seja a tua paciência, imagino que devas estar cansado de nos convidar. A verdade é que desta última vez, como das anteriores, minha mulher e eu não temos desculpas. Tínhamos dito por escrito que poderias contar connosco e não tínhamos absolutamente nada para fazer Entretanto, perdemos o trem, como sempre.

Há 15 anos perdemos todos os trens e todas as conduções públicas, por mais que tentemos. É infinitamente idiota, é de um ridículo atroz, mas começo a acreditar que o mal não tem remédio. É uma espécie de fatalidade grotesca da qual somos vítimas. Não há o que fazer Já nos aconteceu de nos levantarmos às três horas da manhã ou mesmo de passar a noite sem dormir para não perder o trem das oito, por exemplo. Pois bem, meu caro, a lareira se incendiava no último instante, eu torcia o tornozelo no meio do caminho, o vestido de Julieta ficava preso em algum arbusto, nós adormecíamos no sofá da sala de espera, sem que a chegada do trem ou o chamado do encarregado nos acordasse a tempo, etc., etc. Da última vez, eu havia esquecido a carteira.

Enfim, repito, há 15 anos isso dura e sinto que aí está nosso princípio de morte. Por causa disso, como não ignoras, falhei em tudo, briguei com todo mundo, passei por um monstro de egoísmo, e minha pobre Julieta foi naturalmente envolvida nas mesmas queixas. Desde nossa chegada neste lugar maldito, faltei a 74 enterros, 12 casamentos, trinta baptismos, um milhão de visitas ou actividades indispensáveis. Deixei morrer minha sogra sem tê-la revisto uma só vez, embora ela tenha estado doente quase um ano, o que nos valeu sermos privados de três quartos de sua herança, que ela furiosa nos tirou na véspera de sua morte, por um codicilo.

Eu não terminaria se me dedicasse a enumerar as faltas e desventuras ocasionadas por essa inacreditável circunstância de nunca termos conseguido nos afastar de Longjumeau. Para resumir numa palavra, somos prisioneiros, para sempre privados de esperança, e vemos se aproximar o momento em que essa condição de encarcerados deixará de nos ser suportável…”

Suprimo o resto, onde meu triste amigo me confiava coisas por demais íntimas para que eu as possa publicar. Mas dou a minha palavra de honra que não se tratava de um homem vulgar, que ele foi digno da admiração de sua mulher e que esses dois seres mereciam algo melhor do que acabar da forma estúpida e sórdida como acabaram.

Determinadas particularidades que peço permissão de guardar para mim me fazem pensar que o desafortunado casal era realmente vítima de uma maquinação tenebrosa do Inimigo dos homens que os conduziu, pela mão de um tabelião evidentemente infernal, àquele maléfico rincão de Longjumeau do qual nada foi capaz de arrancá-los.

Acredito realmente que eles não conseguiam fugir, que havia, em volta de sua casa, um cordão de tropas invisíveis escolhidas com cuidado para atacá- los e contra as quais nenhuma energia poderia prevalecer.

***

O sinal, para mim, de uma influência diabólica, era que os Fourmi viviam devorados pela paixão das viagens. Aqueles prisioneiros eram, por natureza, essencialmente migradores.

Antes de se unirem, tiveram sede de correr o mundo. Quando eram ainda apenas noivos, haviam sido vistos em Enghien, em Choisy-le-Roi, em Meudon, em Clamart, em Montretout. Um dia, chegaram mesmo a se aventurar até Saint-Germain.

Em Longjumeau, que lhes parecia uma ilha da Oceânia, essa fúria de explorações audaciosas, de aventuras por terra e por mar, só fizera se exasperar.

Sua casa era atulhada de globos e planetários, possuíam Atlas ingleses e Atlas germânicos. Tinham até mesmo um mapa da lua publicado em Gotha sob a direcção de um pedante chamado Justus Perthes.

Quando não faziam amor, liam juntos histórias de navegadores famosos que eram o conteúdo exclusivo de sua biblioteca e não havia um diário de viagens, uma Volta do Mundo ou um Boletim de sociedade geográfica do qual não fossem assinantes. Horários de estradas de ferro e prospectos de agências marítimas choviam sem cessar sobre sua casa.

Coisa que ninguém acreditará, suas malas estavam sempre prontas. Estiveram sempre prontos para partir, fazer uma interminável viagem aos países mais distantes, mais perigosos ou mais inexplorados.

Recebi quarenta avisos anunciando sua partida iminente para Bornéu. Terra do Fogo. Nova Zelândia ou Gronelândia.

Por diversas vezes, na verdade, faltou muito pouco para que partissem. Mas afinal não partiam, nunca partiram, porque não podiam e não deviam partir. Os átomos e as moléculas se aliavam para puxá-los para trás.

Um dia , no entanto, há uns dez anos, eles decididamente acreditaram poder fugir. Haviam conseguido, contra toda esperança, se atirar num vagão de primeira classe que deveria levá-los a Versailles. Liberdade! Agora, sem dúvida, o círculo mágico se romperia.

O trem começou a andar, mas eles não se moveram. Tinham, é claro, entrado num vagão destinado a ficar na estação. Era preciso recomeçar tudo.

A única viagem à qual não faltariam era evidentemente a que acabam de fazer, coitados!… e seu temperamento que bem conheci me leva a crer que para ela se prepararam bem trémulos.

Léon Bloy

domingo, 9 de julho de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E as música de hoje são...

Water Festival
Ecrã d'Água

PINK FLOYD 
«Shine On You Crazy Diamond»

Poet'anarquista

BRILHE, DIAMANTE LOUCO

Lembra quando você era jovem?
Você brilhou como o sol
Brilhe, diamante louco
Agora há um olhar em seus olhos
Como buracos negros no céu
Brilhe, diamante louco
Você foi surpreendido pelo fogo cruzado
Da infância e do estrelato
Fundido na brisa de aço
Venha em seu alvo alvo
De risos distantes
Venha, seu desconhecido, sua lenda
seu mártir, e brilhe!

Você alcançou o segredo
Cedo demais
Você chorou para a lua
Brilhe, diamante louco
Ameaçado pelas sombras da noite
E exposto a luz
Brilhe, diamante louco
Bem, você desgastou suas boas vindas
Com precisão aleatória
Cavalgou na brisa de aço
Venha sonhador, você visionário
Venha pintor, em você flautista
prisioneiro, e brilhe!

Ninguém sabe onde você está
Quão perto ou longe
Brilhe, diamante louco
Empilhe muito
Mais camadas
E eu vou juntar-me a você lá
Brilhe, diamante louco
E vamos nos regozijar à sombra
Dos triunfos passados
E navegar pela brisa de aço
Venha, seu garoto, seu vencedor e perdedor
Venha mineiro da verdade e da ilusão
E brilhe!

PINK FLOYD
«The Great Gig In The Sky»

Poet'anarquista

SÁTIRA...

Directo ao Assunto
Sátira...

«DIRETO AO ASSUNTO»

- Tonho, precisas apurar
Tudo o que se passou,
E por isso aqui estou
De férias pra te lembrar.
- Escusas vir a Martelar
Essa conversa ordinária,
A verdade é secundária
Sobre Tancos ou Pedrógão…
Mas talvez tenhas razão
Se o assunto for culinária!

POETA

sexta-feira, 7 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«A Bela e a Cobra», por José Leite de Vasconcelos.

«A Bela e a Cobra»
(Contos Populares e Lendas)

1045- «A BELA E A COBRA»

Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre. Um dia foi fazer uma viagem; antes porém perguntou às filhas o que queriam que ele lhes trouxesse.

– Eu, disse a mais velha, quero um vestido e um chapéu de seda.

– Eu, disse a do meio, quero um guarda-sol de cetim. 

– E tu que queres? – perguntou ele à mais nova. 

– Uma rosa tão linda como eu, respondeu ela. 

– Pois sim, disse ele. E partiu. Passado algum tempo trouxe as prendas de suas filhas, disse à mais nova: 

– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!

Bela ficou muito preocupada e perguntou ao pai por que é que lhe tinha dito aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez, que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrou uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era; que ele lhe respondeu que era para a sua filha mais nova e ela lhe disse que lha havia de levar, se não que era morto. Depois disse ela: 

– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.

Assim foi. Logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois foi-se embora. Bela, quando ficou só, foi a uma sala e viu a cobra. Ia deitar-se quando começaram a ajudá-la a despir. Estava ela na cama quando sentiu uma coisa fria; deu um grito e disse-lhe uma voz: 

– Não tenhas medo.

Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe uma cobra. 

Ela, a princípio,assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não viu ninguém; a noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo, até que um dia foi visitar o pai; mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe disse: 

– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.

Ia a continuar o seu caminho e já se esquecia do que a voz lhe tinha dito. Chegou a casa do pai. Passaram três dias quando se lembrou que tinha de tornar; despediu-se de toda a sua família e partiu a galope; chegou lá à noite, foi-se deitar, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não foi a sua admiração vendo-o no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo chorando; mas, quando chorava, caiu-lhe uma lágrima no peito da cobra; assim que a lágrima lhe caiu a cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse: 

– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e, se tu não chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais.

O príncipe gostou tanto dela que casou com ela e lá viveram durante muitos anos.

José Leite de Vasconcelos

quinta-feira, 6 de julho de 2017

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

LOUIS ARMSTRONG
«It Don't Mean a Thing»/ If It Ain't Got That Swing

Poet'anarquista

NÃO SIGNIFICA NADA
(Se ele não tem esse balanço)

Não quero dizer uma coisa, se ele não tem esse balanço
Não quero dizer uma coisa, tudo o que você tem a fazer é cantar
Não faz diferença se é doce ou quente
Basta dar ritmo a tudo que você tem
Não quero dizer uma coisa, se ele não tem esse balanço

Louis Armstrong
Trompetista e Cantor Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«Um Idiota», por Claude Simon.

«Um Idiota»
Excerto de 'O Vento'/ Claude Simon
1044- «UM IDIOTA»

Um idiota. É tudo. Não mais do que isso. E tudo o que se contou ou inventou, ou procurou deduzir ou explicar, tudo isso só confirma o que, quem quer que fosse, poderia observar à primeira vista. 

Apenas um idiota. Simplesmente com o direito de se passear em liberdade, de falar às pessoas, de assinar documentos e de desencadear catástrofes. 

Porque parece que os médicos classificam estes tipos como inofensivos. Muito bem. É lá com eles. (…)

Claude Simon

quarta-feira, 5 de julho de 2017

SÁTIRA...

Assim é Difícil
Sátira...

«ASSIM É DIFÍCIL»

- Está difícil, Presidente,
Vou adiar convocatória…
O nosso passado de glória,
E este relvado deprimente…
Treinar assim, é indecente!
- Mas que se passa, amigo…
Queres desabafar comigo?
- São os meus jogadores
Com lesões nos adutores…
Os e-mails são um perigo!!

POETA

SÁTIRA...

Em Cima do Acontecimento
Sátira...

«EM CIMA DO ACONTECIMENTO»

Vou juntar os órgãos
De segurança do Estado…
O assunto é complicado,
Queridos concidadãos.
Em Tancos uns vilãos
Foram ao paiol principal,
Gamaram do arsenal
Várias granadas de mão…
Eis o ponto da situação
No Quartel-General.

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE BAND - «The Last Waltz»
(Álbum Completo)

Poet'anarquista

The Band
Banda Canadense

OUTROS CONTOS

«O Pacote Vermelho», por Jean Cocteau.

«O Pacote Vermelho»
Pintura a Sangue e Urina/
Vinicius Quesada

1044- «O PACOTE VERMELHO»

O meu sangue transformou-se em tinta. Era preciso impedir a todo o custo essa nojeira. Estou envenenado até aos ossos. Cantava no escuro, e agora é o canto o que me mete medo. Mais ainda: estou leproso. Sabem daquelas manchas de humidade que parecem um perfil? Não sei que encanto da lepra engana o mundo e o autoriza a beijar-me. Pior para ele! As consequências não me dizem respeito. Nunca exibi senão chagas. Fala-se de graciosa fantasia: a culpa é minha. É loucura alguém exibir-se inutilmente.

A minha desordem empilha-se até ao céu. Os que eu amei existiam pendurados do céu por um elástico. Voltasse eu a cabeça... e já lá não estavam.

De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia......, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.

Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos.

Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade.

Jean Cocteau

terça-feira, 4 de julho de 2017

OUTROS CONTOS

«A Experiência do Doutor Heidegger», por Nathaniel Hawthorne.

«A Experiência do Doutor Heidegger»
Conto de Nathaniel Hawthorne

1043- «A EXPERIÊNCIA DO DOUTOR HEIDEGGER»
                  
Aquele homem estranho, o velho Dr. Heidegger, convidou certa vez quatro respeitáveis amigos a fazerem uma visita ao seu laboratório. Eram três cavalheiros de barbas brancas – o Sr. Medbourne, o coronel Killigrew, o Sr. Gascoigne e uma velha dama conhecida por a viúva Wycherly – todos criaturas idosas e melancólicas que haviam sido infelizes na vida e cujo maior infortúnio era o de não repousarem há já muito nos seus túmulos. O Sr. Medbourne, em tempos um próspero negociante, tudo perdera numa especulação arriscada, e agora quase não passava de um mendigo. O coronel Killigrew consumira os melhores anos da sua vida, bem como a sua saúde e a sua fortuna, na busca de prazeres pecaminosos, que haviam dado origem a uma série de doenças, tais como a gota e diversos outros tormentos do espírito e do corpo. O Sr. Gascoigne, um político arruinado, gozara de péssima reputação, pelo menos até que o tempo o fez apagar da memória, e para a actual geração, em vez de um infame, se tornou um desconhecido. Quanto à viúva Wycherly, a tradição dizia que fora uma grande beleza na juventude; mas desde há muito que vivia na mais completa reclusão devido a certas histórias escandalosas que a haviam prejudicado no conceito das pessoas da cidade. Merece menção especial o fato de estes três cavalheiros – o Sr. Medbourne, o coronel Killigrew e o Sr. Gascoigne terem sido todos amantes da viúva Wycherly e quase se haverem matado uns aos outros por sua causa. E, antes de prosseguir, apenas referirei que tanto o Dr. Heidegger como os seus quatro convidados eram, por vezes, considerados um pouco extravagantes — como acontece frequentemente com as pessoas idosas, quando preocupadas com os seus males presentes ou recordações amargas.

— Meus queridos e velhos amigos — começou o Dr. Heidegger, convidando-os a sentarem-se — , preciso do vosso auxílio para uma daquelas pequenas experiências com que me costumo entreter, aqui, no meu laboratório.

Se o que se contava era verdade, o laboratório do Dr. Heidegger devia ser um lugar deveras curioso. Tratava-se de um compartimento escuro e antiquado, engrinaldado de teias de aranha e coberto de pó. Nas paredes havia várias estantes de carvalho, cujas prateleiras inferiores estavam carregadas com rimas de in-fólios gigantescos e in-quartos em letra gótica, e as superiores, de pequenos in-duodécimos encadernados em pergaminho. Sobre a estante central havia um busto de bronze de Hipócrates, ao qual, segundo algumas pessoas dignas de crédito, o doutor costumava pedir conselho em todos os casos difíceis do seu mister. No canto mais escuro do compartimento existia um armário estreito e alto, de carvalho, com a porta entreaberta, dentro do qual dificilmente se distinguia um esqueleto. Entre duas estantes estava pendurado um espelho, alto e empoeirado, dentro de uma moldura dourada, com algumas manchas. Entre as muitas histórias maravilhosas que se contavam acerca desse espelho, corria uma, segundo a qual os espíritos de todos os defuntos pacientes do médico habitavam no seu interior e costumavam fitar-lhe o rosto, sempre que ele olhava para lá. A parede oposta do compartimento estava ornamentada com o retrato de uma jovem, em tamanho natural, magnificente vestida de seda, cetim e brocado, já desbotados, e de rosto tão desbotado como o vestuário. Há mais de meio século, o Dr. Heidegger estivera para casar com esta jovem; porém, acometida por uma indisposição ligeira, ela tinha tomado uma das receitas do seu apaixonado e morrera na noite de núpcias. Mas a curiosidade mais interessante do laboratório não foi ainda mencionada: trata-se de um pesado volume, encadernado em pele negra e com fechos de prata maciça. Não tinha letras na capa, e ninguém sabia qual o seu título. Era, contudo, crença geral que se tratava de um livro de magia; e, quando certa vez uma criada o levantara, apenas para lhe limpar o pó, o esqueleto remexera-se no armário, o retrato da jovem dera um passo para o chão, e vários rostos pálidos haviam espreitado de dentro do espelho, enquanto a cabeça bronzeada de Hipócrates franzia as sobrancelhas, exclamando:

— Pára!

Era assim o laboratório do Dr. Heidegger. Naquela tarde de Verão em que decorre a nossa história, no centro do quarto via-se uma pequena mesa redonda, negra como o ébano, sobre a qual se encontrava um vaso de vidro lapidado, de rara beleza. O sol penetrava pela janela, através das pesadas grinaldas de duas cortinas de damasco desbotadas, e incidia directamente sobre o vaso, de tal maneira que nos rostos pálidos das cinco pessoas sentadas em derredor se reflectia uma luz suave. Em cima da mesa havia também quatro taças de cristal.

— Meus queridos e velhos amigos — repetiu o Dr. Heidegger — posso contar com a vossa ajuda para realizar uma experiência extremamente curiosa?

Ora o Dr. Heidegger era um velho muito estranho, cujas excentricidades haviam dado azo a mil histórias fantásticas. Algumas delas, confesso-o, poder-me-ão ser atribuídas e, se certas passagens da que estou a narrar espantarem a credulidade do leitor, terei de me conformar em ser apodado de inventor de fantasias.

Quando os quatro convidados do médico o ouviram referir-se à experiência que se propunha realizar, imaginaram que se trataria de qualquer coisa como o assassínio: o de um rato numa máquina pneumática, ou da observação de uma teia de aranha ao microscópio, ou de qualquer outro disparate deste género, com que tinha por hábito causticar os seus íntimos. Mas, sem esperar por resposta, o Dr. Heidegger atravessou o quarto, coxeando, e voltou com o tal livro volumoso, encadernado em pele negra, que os espíritos mais fracos acreditavam ser um livro de magia. Abrindo os fechos de prata, folheou o volume donde tirou uma rosa, ou melhor, o que fora em tempos uma rosa, embora as folhas verdes e as pétalas rubras tivessem adquirido uma tonalidade acastanhada e a flor velha parecesse prestes a desfazer-se em pó nas mãos do médico.

— Esta rosa — disse o Dr. Heidegger, soltando um suspiro — esta flor seca e a desfazer-se em pó tem cinquenta e cinco anos. Deu-me Silvia Ward, cujo retrato está pendurado além. Tencionava usá-la na lapela, no dia do nosso casamento. Guardei-a religiosamente, durante cinquenta e cinco anos, entre as folhas deste velho livro. Acaso acreditais que esta rosa, com meio século de existência, possa florir de novo?

— Que tolice! — exclamou a viúva Wycherly, sacudindo impacientemente a cabeça. — É o mesmo que perguntar se o rosto enrugado de uma mulher velha poderia alguma vez rejuvenescer.

— Então vede! — respondeu o Dr. Heidegger.

Abriu o frasco e lançou a rosa murcha dentro da água que ele continha. A princípio a flor flutuou, parecendo não absorver humidade alguma. Em breve, contudo, começou a tornar-se perceptível uma modificação singular. As pétalas secas e murchas agitaram-se e adquiriram uma tonalidade mais viva, como se a flor ressuscitasse de um sono que se diria eterno; a haste delgada e os rebentos da folhagem tornaram-se verdes; e eis que a rosa envelhecida após meio século aparecia tão fresca como no dia em que Silvia Ward a dera ao noivo. Ainda não estava inteiramente desabrochada, porque algumas das suas delicadas pétalas encarnadas se enrolavam modestamente em volta da corola húmida, dentro da qual brilhavam duas ou três gotas de orvalho.

— Não há dúvida que se trata de uma tramóia muito hábil — comentaram os amigos do médico. Disseram-no, porém, despreocupadamente, pois já haviam presenciado milagres maiores feitos por prestidigitadores de feiras. — Explique-nos como se realiza.

— Nunca ouviram falar na Fonte da Juventude? — perguntou o Dr. Heidegger. — Aquela que Ponce De León, o famoso aventureiro espanhol, foi procurar há dois ou três séculos?

— Mas ele chegou a encontrá-la? — inquiriu a viúva Wycherly.

— Não — respondeu o Dr. Heidegger — , porque nunca a procurou onde devia. A famosa Fonte da Juventude, se na verdade estou bem informado, encontra-se na parte sul da península da Florida, não longe do Lago Macaco. A nascente está tapada por algumas magnólias gigantes que, embora seculares, se conservam viçosas como violetas, graças às virtudes desta água maravilhosa. Um conhecido meu, sabendo da minha curiosidade por tais assuntos, enviou-me a água que vêem neste vaso.

— Ah! — troçou o coronel Killigrew, que não acreditara numa só palavra da história do médico.

— E qual será o efeito deste fluído no corpo humano?

— Poderá avaliá-lo o senhor mesmo, meu caro coronel — respondeu o Dr. Heidegger — e a todos vós, respeitáveis amigos, vos convido a servir-vos deste líquido prodigioso, tanto quanto precisardes para rejuvenescerdes. Por mim, como me foi difícil atingir esta idade, não tenho pressa em rejuvenescer. Com a vossa permissão, portanto, limitar-me-ei a observar a marcha da experiência.

Enquanto falava, o Dr. Heidegger enchera as quatro taças com a água da Fonte da Juventude. Estava impregnada, aparentemente, de um gás efervescente, pois bolhas pequenas subiam continuamente à superfície, formando aí uma espuma prateada. Como o líquido exalava um perfume agradável, os velhos não duvidavam que ele possuía propriedades estimulantes e reconfortantes. E, embora extremamente cépticos quanto ao seu poder de rejuvenescimento, estavam decididos a bebê-lo imediatamente. O Dr. Heidegger, porém, rogou-lhes que esperassem um momento.

— Antes de beberdes, meus velhos amigos — disse — seria bom que, com a experiência de uma vida para vos orientar, estabelecêsseis umas quantas regras gerais para vos guiardes, ao passar uma segunda vez pelos perigos da juventude. Pensai que vergonhoso pecado seria se, com essa vantagem, não vos tornásseis modelos de virtude e sabedoria aos olhos de todos os jovens!

Os quatro veneráveis amigos do médico responderam apenas com uma gargalhada fraca e trémula, tão ridícula acharam a ideia de que, sabendo quão de perto o arrependimento se segue aos erros cometidos, poderiam extraviar-se de novo.

— Bebam, então — convidou o médico, fazendo uma vénia. — Regozijo-me por tê-los escolhido para a minha experiência.

Eles levaram as taças aos lábios com as mãos trémulas. O líquido, se de fato possuía as propriedades que o Dr. Heidegger lhe atribuía, não poderia ter sido aplicado em quatro seres humanos mais necessitados. Parecia não terem jamais conhecido o que fosse a juventude ou o prazer, e serem antes um resultado de um erro da natureza e sempre haverem sido criaturas encanecidas, decrépitas, secas e miseráveis, que ali estavam sentadas, todas curvadas, à volta da mesa do médico, já sem ânimo suficiente, no corpo e no espírito, nem sequer para cobrarem alento com a perspectiva de rejuvenescerem. Beberam a água e tornaram a colocar as taças sobre a mesa.

Houve, sem dúvida, uma melhoria quase imediata no aspecto do grupo – não diferente da que teria produzido um copo de vinho generoso – juntamente com um súbito rubor de excitação, que lhes fez resplandecer o rosto. Espalhou-se por suas faces uma tonalidade saudável, substituindo o tom da cinza que lhes dava um aspecto cadavérico. Fitaram-se uns aos outros e acreditaram que, realmente, um estranho poder mágico começara a apagar os traços profundos e tristes que o Tempo há muito lhes vinha gravando no rosto. A viúva Wycherly compôs a touca, como se de novo se sentisse quase uma jovem.

— Dê-nos mais um pouco desta água maravilhosa! — gritaram ansiosamente. — Estamos mais novos, mas ainda demasiado velhos. Depressa, dê-nos mais.

— Calma, calma! — aconselhou o Dr. Heidegger que, sentado, observava a experiência com tranquilidade filosófica. — Demorastes tanto tempo a envelhecer que vos devíeis sentir satisfeitos por rejuvenescerdes em meia hora! Mas a água está à vossa disposição.
Tornou a encher-lhes as taças com o líquido da juventude, e no vaso ainda sobrou o suficiente para fazer voltar à idade dos seus netos metade da gente da velha cidade. O líquido borbulhava ainda à superfície e já os quatro convidados do médico arrebatavam os copos de cima da mesa, despejando-os de um trago. Seria ilusão? Apenas lhes escorria pela garganta, e parecia ter já operado uma modificação em todo o organismo. Os olhos tornaram-se mais claros e brilhantes; entre os cabelos prateados apareceu um tom mais escuro; sentados à volta da mesa estavam três cavalheiros de meia-idade e uma mulher pouco para além da primavera da vida.

— Minha querida, está encantadora! — gritou o coronel Killigrew, cujos olhos se haviam fixado no rosto da dama, enquanto as sombras da idade nele se desvaneciam, qual escuridão cedendo ao rubor do amanhecer.

A bela viúva sabia, desde há muito, que os galanteios do coronel Killigrew nem sempre correspondiam à verdade; por isso, ergueu-se e correu para o espelho, temendo ir ainda deparar com o rosto de uma velha. Entretanto os três homens comportavam-se de maneira a provar que a água da Fonte da Juventude possuía propriedades inebriantes; a não ser que, na verdade, a sua jovialidade de espírito fosse apenas uma vertigem ligeira, causada pela emoção do súbito rejuvenescimento. O espírito do Sr. Gascoigne parecia divagar sobre assuntos políticos, mas não se poderia determinar facilmente se se referiam ao passado, ao presente ou ao futuro, visto nos últimos cinquenta anos terem estado em voga as mesmas ideias e frases. Compunha frases inflamadas acerca do patriotismo, da glória nacional e dos direitos do povo; em seguida, comentava qualquer assunto perigoso, num cochichar astuto e ambíguo, tão cautelosamente, que até mesmo à sua própria consciência parecia não revelar o segredo; depois, começava a falar de novo com inflexões pausadas e num tom de deferência profunda, como se ouvidos reais estivessem a escutar os seus períodos bem construídos. Durante todo este tempo, o coronel Killigrew cantarolava uma canção jovial, fazendo tilintar a taça em compasso com a música, enquanto os olhos se lhe desviavam na direcção da figura jovem da viúva Wycherly. No outro lado da mesa, o Sr. Medbourne estava embrenhado em cálculos de dólares e centavos, que entremeava curiosamente com um projecto para fornecer gelo à Índia, atrelando uma parelha de baleias aos icebergues polares.

Quanto à viúva Wycherly, essa permanecia em frente do espelho, namorando a sua própria imagem, para a qual sorria tolamente, saudando-a como ao amigo que mais amasse no mundo. Por vezes aproximava-se mais do espelho para verificar se uma ou outra ruga ou pé-de-galinha, muito seus conhecidos, tinham realmente desaparecido. Certificou-se, também, de que a neve dos seus cabelos já se derretera totalmente, podendo assim retirar sem perigo a touca respeitável. Por fim, afastando-se rapidamente, aproximou-se da mesa em passo saltitante.

— Caro doutor — gritou — , por favor, dê-me mais uma taça!

— Pois não, querida senhora, pois não! — retorquiu amavelmente o médico. — Veja! Já tinha enchido outra vez as taças.

De facto lá estavam as quatro taças, cheias até às bordas dessa água maravilhosa cuja espuma delicada, fervendo à superfície, tinha o brilho trémulo dos diamantes. Entretanto, como a noite se aproximava, ficava a pouco e pouco mais escuro do que nunca; mas um resplendor suave e parecido com o luar que cintilava no interior do vaso envolvia os quatro convidados e a figura venerável do médico. Este estava sentado numa cadeira de braços, de espaldar alto e artisticamente esculpida, com respeitável dignidade, que quadraria bem até ao próprio Pai Tempo, cujo poder jamais foi discutido, a não ser por este grupo afortunado. Mesmo enquanto engoliam o terceiro copo de água da Fonte da Juventude se sentiam quase aterrados pela expressão misteriosa do seu rosto.

Momento depois, contudo, a torrente alegre da juventude percorreu-lhe as veias. Estavam agora nos dias felizes da mocidade. A idade, com a sua série triste de cuidados, mágoas e doenças, era recordada apenas como um pesadelo de que o haviam despertado alegremente. A frescura da alma, tão cedo perdida, e sem a qual as sucessivas mutações da vida não passavam de uma sucessão de cenas descoloridas, lançou de novo o seu encanto sobre todas as suas perspectivas. Sentiam-se como seres recém-criados, num mundo recém-criado.

— Somos jovens! Somos jovens! — gritaram exultantes.

A juventude, do mesmo modo que a idade provecta, apagara as características profundamente vincadas da meia-idade, e a todos da mesma forma. Formavam um grupo de jovens alegres, quase enlouquecidos pelo júbilo exuberante próprio dos seus anos. A consequência mais curiosa da sua jovialidade era o impulso para troçarem da enfermidade e decrepitude de que haviam sido vítimas. Riam alto dos fatos antiquados, dos casacos largos e dos coletes escorridos que usavam os três jovens, e da touca e do vestido, já em desuso, da viçosa moça. Um deles simulou manquejar pelo quarto como um avô artrítico, outro equilibrou um par de óculos no nariz e fingiu esquadrinhar as páginas de letras negras do livro de magia; o terceiro sentou-se numa cadeira de braços e procurou imitar a dignidade respeitável do Dr. Heidegger. Todos gritaram alegremente e começaram a pular pelo quarto. A viúva Wycherly — se a uma jovial donzela assim se pode chamar — encaminhou-se para a cadeira do médico, com uma expressão alegremente maliciosa na face rosada.

— Doutor, meu querido amigo — exclamou — , levante-se e venha dançar comigo! — E os quatro jovens riram então mais alto do que nunca ao pensarem na figura ridícula que o pobre velho médico faria.

— Peço-lhe que me desculpe — respondeu o médico calmamente. — Sou velho e reumático, e os meus dias de dançarino terminaram há muito. Creio, porém, que qualquer destes jovens cavalheiros se sentirá feliz com um par tão adorável.

— Dance comigo, Clara! — pediu o coronel Killigrew.

— Não, não, eu é que serei o seu par! — gritou o Sr. Gascoigne.

— Ela prometeu casar-se comigo há cinquenta anos! — exclamou o Sr. Medbourne.
Juntaram-se todos à sua volta. Um deles tomou-lhe as mãos apaixonadamente; outro passou-lhe o braço à volta da cintura; e o terceiro afundou as mãos entre as ondas de cabelo brilhante que se amontoavam sob a touca. Corando, arquejando, lutando, ralhando, rindo, com o seu hálito quente bafejando-lhes os rostos, alternadamente, ela procurou libertar-se, permanecendo contudo entre o triplo abraço. Formavam o mais encantador dos quadros de rivalidade juvenil, cujo prémio fosse uma beleza feiticeira. Todavia, por uma ilusão estranha devida à escuridão do compartimento e aos trajes antiquados que continuavam a usar, dir-se-ia que o espelho reflectia as figuras de três velhos cavaleiros, enrugados e de cabelos brancos, disputando ridiculamente por causa de uma feia dama, esquelética e cheia de rugas.

Mas eles eram jovens: assim lhe provavam as suas paixões avassaladoras. Inflamados até à loucura pela garridice da jovem viúva, que nem concedia nem negava por completo os seus favores, os três rivais começaram a trocar olhares de ameaça. Não deixando de segurar a sua bela presa, agarraram ferozmente os pescoços uns dos outros. Ao lutarem de um lado para o outro, derrubaram a mesa, e o vaso partiu-se em mil pedaços. A preciosa água da Fonte da Juventude correu pelo chão, num rio cintilante, umedecendo as asas de uma borboleta, que, já velha, tinha ali pousado para morrer. O inseto esvoaçou levemente pelo quarto e foi pousar nos alvos cabelos do Dr. Heidegger.

— Então, então, cavalheiros! Então, Sr.a Wycherly! — protestou o médico. — A que se deve toda esta algazarra?

Eles aquietaram-se, estremecendo: parecia que o Tempo os chamava da sua juventude radiante bem para o fundo do vale da vida, escuro e gelado. Olharam para o Dr. Heidegger, sentado na sua cadeira de braços, segurando na mão a rosa velha de meio século, que ele salvara dentre os fragmentos do vaso despedaçado. Fez um sinal com a mão e os quatro desordeiros retomaram os seus lugares, sem pressas, porque o exercício violento cansara-os, embora fossem jovens.

— Pobre rosa da minha querida Sílvia! — murmurou o Dr. Heidegger, segurando-a contra a luz do entardecer. — Parece que vai murchar de novo.

E era verdade. Enquanto o grupo a fitava, a flor continuava a murchar, até que ficou tão seca e frágil como quando o médico a colocara pela primeira vez dentro do vaso. Então, o Dr. Heidegger sacudiu umas gotas de água que tinham ficado agarradas às pétalas.

— Gosto tanto dela assim! É como se estivesse viçosa! — observou, apertando a rosa murcha contra os lábios ressequidos. Enquanto falava, a borboleta veio cair-lhe na cabeça, tombando a seguir sobre o soalho.

Os convidados estremeceram de novo. Um frio estranho, que eles não sabiam dizer se provinha do corpo ou da alma, apossava-se gradualmente deles. Olhavam-se uns aos outros e imaginavam que cada minuto que passava lhes arrebatava um encanto, deixando uma ruga profunda onde anteriormente não existia nenhuma. Seria ilusão? Seria possível que as alterações do Tempo se produzissem em tão curto espaço? Seriam eles agora quatro velhos, sentados ao pé do seu velho amigo Dr. Heidegger?

— Ficamos velhos, outra vez, tão depressa? — gritaram tristemente.

Na realidade, assim acontecera. A Água da Juventude possuía apenas um poder ainda mais passageiro do que o do vinho. A euforia que provocara desvanecera-se. Sim! Eram outra vez velhos. Num impulso trémulo, que provava que era ainda mulher, a viúva cobriu a cara com as mãos descarnadas e desejou que a tampa do caixão lha escondesse imediatamente, pois jamais voltaria a ser bela.

— Sim, meus amigos, sois velhos outra vez. — confirmou o Dr. Heidegger. — E vede! A Água da Juventude está toda derramada no chão. Bem, não o lamento, porque, embora a fonte corresse à minha porta, não me debruçaria para molhar os lábios. Não, ainda que o seu efeito durasse anos e não momentos. Foi esta a lição que aprendi convosco.

Mas a lição não aproveitou aos quatro amigos do médico. Resolveram imediatamente fazer uma peregrinação à Florida e beber na Fonte da Juventude, de manhã, à tarde e à noite.

Nathaniel Hawthorne