sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

PATTI SMITH - «We Three»

Poet'anarquista

NÓS TRÊS

(Todos os domingos irei até ao bar
E lhe deixarei a guitarra).

Você diz que me quer.
Eu quero outro
Diz que sonha comigo.
Sonhe com seu irmão.
Oh, as estrelas brilham tão desconfiadamente
Para nós três.

Você disse que quando estava comigo nada o deixava alto.
Bebemos a noite toda juntos e você começou a chorar imprudentemente.
Querido, por favor, não tome esperança de mim.

Você diz que me quer.
Eu quero outro, querido.
Você diz que me deseja
Deseje para seu irmão.
Oh, os dados rolam tão ilusoriamente
Para nós três.

Foi só outro sábado
E tudo estava na chave do A.
E eu acendi um cigarro para o seu irmão.
E ele virou-se e ouviu-me dizer tão desesperadamente,
“Querido, por favor, não tome esperança de mim.”

Você diz que me quer.
Eu quero outro.
Você diz que ora por mim.
Ore por seu irmão.
Oh, do jeito que eu o vejo é a maneira que eu me vejo.
Então por favor, afaste-se agora e deixe o tempo dizer.
Oh, você não consegue ver que o tempo é a chave que abrirá o destino
De nós três?

Toda noite em estrelas separadas, antes de irmos dormir, rezamos tão ofegantemente.
Querido, por favor, não tome esperança de mim.

Patti Smith
Cantora e Compositora Norte-Americana

SÁTIRA...

Paz e Saúde
Sátira de Ano Novo

«PAZ E SAÚDE»

- Zé, o que vais pedir
Pra dois mil e dezassete?
- Que a fome não aperte…
Paz e saúde podem vir.
- Passas a vida a dormir…
Então não pedes dinheiro?
- Dessa fase só o cheiro…
A cor, nunca mais a vi!
- Homem, eu peço por ti…
Deixa de ser agoireiro!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Mania das Grandezas», conto poético por Joaquim Namorado.

«Mania das Grandezas»
Poema de Joaquim Namorado

944- «MANIA DAS GRANDEZAS»

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias
e descobriu a pólvora...
Acredite,
a estrela Sírius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-me meu tio-avô em testamento.
No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
— tudo por inspiração!

Que querem?
Sou poeta
e tenho a mania das grandezas...

Talvez ainda venha a ser Presidente da República...

Joaquim Namorado


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE MOODY BLUES - «Question»

Poet'anarquista

PERGUNTA

Por que nós nunca obtemos uma resposta
Quando estamos batendo na porta?
Com mil milhões de perguntas
Sobre o ódio a morte e a guerra.

Foi onde parámos para olhar à nossa volta
Não há nada que precisamos.
Num mundo de perseguições
Que está queimando com sua ganância.

Por que nós nunca obtemos uma resposta
Quando estamos batendo na porta?
Porque a verdade é difícil de engolir
É para isso que a parede de amor serve.

Não é a forma que você diz
Quando você faz essas coisas para mim.
É mais a forma como você quer dizer
Quando você me diz o que vai ser.

E quando você pára e pensa sobre isso
Você não vai acreditar que é verdade.
Que todo o amor que você está dando
Foi todo feito para você.

Estou procurando alguém para mudar a minha vida.
Estou à procura de um milagre na minha vida.
E se você pudesse ver o que foi feito de mim
Para perder o amor que eu conhecia
Poderia com segurança me guiar

Entre o silêncio das montanhas
E o bater do mar
Lá está uma terra em que eu vivi.
E ela está lá esperando por mim.

Mas no cinzento da manhã
Minha mente se confunde
Entre a morte e o sono
E a estrada que eu tenho que escolher.

Estou procurando alguém para mudar a minha vida.
Estou à procura de um milagre na minha vida.
E se você pudesse ver o que foi feito de mim
Para perder o amor que eu conhecia
Poderia com segurança me levar
Na terra que eu conhecia.
Para saber como nós nos tornamos velhos
Os segredos de nossas almas.

Não é a forma que você diz
Quando você faz essas coisas para mim.
É mais a forma como você quer dizer
Quando você me diz o que vai ser.

Por que nós nunca obtemos uma resposta
Quando estamos batendo na porta?
Com mil milhões de perguntas
Sobre o ódio a morte e a guerra.

Foi onde parámos para olhar à nossa volta
Não há nada que precisamos.
Num mundo de perseguições
Que está queimando com sua ganância.

Por que nós nunca obtemos uma resposta
Quando estamos batendo na porta?

The Moody Blues
Banda Britânica

SÁTIRA...

Não Há Desculpas
Sátira...

«NÃO HÁ DESCULPAS»

Silva, foste irracional…
Comparar racionais
Com irracionais
Na Concertação Social?...
Tu estás a bater mal!
Fica pois a saber
Que gado pra se entender,
Não precisa Concertação…
Vens agora pedir perdão
Do que disseste, não dizer?

POETA

OUTROS CONTOS

«Um Homem não é nenhum Moiro», por Alves Redol.

«Um Homem não é nenhum Moiro»
Conto de Alves Redol

943- «UM HOMEM NÃO É NENHUM MOIRO»

O velho caminhava à sua frente pelo carril do valado, gingando com o peso do reumático, que parecia desconjuntar-lhe o corpo magrizela. Acendera o cachimbo, antes de sair da palhoça, e lá ia a fumegar, contente como um gaio, com a cana de pesca ao ombro e a caixa pintada de verde pendurada na mão. O rapaz tocava a gaita de beiços, levando a sua cana segura pelo antebraço esquerdo, e fingia-se cansado, para que o ferrador ainda se julgasse o mesmo andarilho de outros tempos.

Na véspera tinham preparado em sociedade os remelhões das minhocas, que não faltavam mesmo à porta do barracão – era dar uma enxadada e agarrar não sei quantas. O velho ensinara-lhe a preparar os anzóis e contara-lhe das suas pescas noutros tempos, quando ainda morava em Vila Franca. Sempre que podia, escapava-se para ali. Gostava da Lezíria, tanto como se ali tivesse nascido, e acabara por arranjar aquele casebre para viver com a amante. Ela não era daqueles sítios. Não sabia a sua nação, nem isso importava. Era uma mulher que lhe servia e estava tudo dito.

Iam pescar sem destino, descansar da chateza daquela vida bruta. – Gostava d’ir até ao esteiro do Ruivo, mas é longe, as pernas já não me levam até lá, disse o velho.

– Mas anda que nem um rapaz!

– Lá vens tu... Troco as minhas com as tuas, valeu?

Passaram a uma aberta, o velho farejou de um lado para o outro e achou que podiam ficar ali mesmo. Perto havia um salgueiro de sombra larga, e entre o valado e o rio surgia uma nesga de terra coberta de mostarda e de lírios brancos.

A Mariana preparara-lhes o almoço, uns fritos de bacalhau e azeitonas, e Alcides bem percebera que ela ficara radiante por estar só todo o dia. Gostava de poder espreitá-la, sem que ela soubesse, e ser capaz de compreender o motivo daquela garridice ofensiva. Provocava os homens, passando perto deles e tocando-lhes com o corpo se os via distraídos; deixava-os prenderem-lhe as mãos e beliscarem-lhe os braços e as ancas, sorrindo sempre, com os olhos a entornarem doçura e maldade picante. Sabia que a sua voz os tocava de uma magia sensual, de tal maneira eles se transformavam quando ela falava. E não era bonita, não senhor.

Mas havia nela um misto de candura e de perversão, de frieza calculada e de inocência, que desvairava os homens. Tinha uma boca desmedida, sempre aberta, em sorrisos, talvez para mostrar uns dentes frescos, embora incertos; um nariz pontudo, de ventas sensíveis, como se fossem duas flores inquietas pelo jogo da luz e das sombras; uns olhos talvez feios, pequeninos e travessos, que tanto pareciam quentes, da cor do acaju do seu cabelo liso, como esverdeados e frios, talvez cínicos. E havia aquela covinha marota na fase esquerda, tão atrevida, tão provocadora, que sem ela a Mariana seria uma mulher vulgar, desajeitada mesmo, tamanha magreza se apossara do seu corpo esguio.

– Em que estás a pensar?, perguntou o Mula Brava.

– Em nada.

– Não falavas...

– E o Ti João? Também nada dizia.

– Na minha idade já custa a pensar. A cabeça embrulha-se...

Tinham-se sentado perto de uma seara de trigo já a chegar-se à foice; lutavam nela o verde-tenro e o amarelo da maturidade e ouviam-se as espigas estalar sob a brasa do sol.

– Que pensas tu da Mariana?

Alcides fingiu-se atento para a bóia da sua linha. A maré devia estar na enchente e tornava difícil o perceber se alguma enguia picara o anzol.

– Não ouves, Ruço?

Ele não respondera, convencido de que o velho se arrependeria de repetir a pergunta.

– Que dizes tu da Mariana?... Sim, que é que achas nela?...

– Que é sua amiga.

– Não foi isso que te quis perguntar. Se já viste alguma coisa de mal.

Sim, uma liberdade maior com algum deles. Vão lá tantos!

– Ela brinca com todos. Uma mulher nova precisa de se distrair.

– Que é nova já eu sei, disse o Mula Brava com a voz agressiva. Ela quando veio para a barraca já sabia que eu era velho. Mas fizemos uma jura. E há juras que não se quebram até ao fim.

Ruço de Má Pêlo levantou-se para puxar a cana e deu um grito de entusiasmo.

O velho começou a rir quando viu o anzol a dançar sem nada. O rapaz é que sabia porque premeditara aquela cena.

– As enguias não querem nada comigo, ‘stá visto. O Ti João já apanhou algumas quatro.

– Da primeira vez apanha-se sempre pouco. A gente quando é novato toma tudo a sério e as mãos tremem na cana. Eu tenho a certeza que as enguias lá em baixo sentem na água as nossas mãos a tremer. É como eu lá na barraca. Não vejo. Os olhos quase não me servem. Mas há coisas que tocam na pele da gente, que vêm no ar, assim como o vento e o cheiro da terra ou das flores. O amor é uma coisa assim mais ou menos. Tem cheiro. Cheira como a terra molhada com as primeiras chuvas. E bole nas nossas mãos como as aragens do sul, o vento palmelão, que transtorna o gado nas pastagens.

O rapaz começou a rir, num riso nervoso.

– Tu que te ris é porque sabes alguma coisa, Ruço.

O velho pôs a cana de lado e aproximou-se. Tacteou-lhe os cabelos com as mãos inquietas e puxou-o depois para si, obrigando-o também a levantar-se. A seguir chegou os seus olhos doentes e quase vazios para o rosto do rapaz.

– Tu sabes dalguma coisa, Ruço!, gritou-lhe o Mula Brava, sacudindo-o pela camisa.

– Já lhe disse que não sei, Ti João. E se acha que eu o engano, vou-me hoje mesmo embora. Não gosto de ser ferrador. Quando atravessei o Tejo, nunca pensei ficar ali.

– Hum! Então não gostas de ser ferrador... Porque disseste que sim?

– Tinha fome.

– Não te disse para nunca fazeres coisas de que não gostasses? Isso é pior que ter fome. Fazer o que se não gosta é mil vezes pior do que passar fome. Comias mostarda, comias erva, comias terra...

O velho voltou para junto da sua cana, mas nunca mais a agarrou. Parecia inquieto, voltado para as bandas do Cabo, onde tinha a taberna.

– Se quiseres, vai-te embora. Mas é pena. Eu já não posso viver muito tempo e podias ficar com a oficina. A Mariana é tua amiga... (Caiu um silêncio entre os dois). Não é?!

– Não sei.

– Gostas dela?

– Não, não gosto. Ela podia ser minha mãe. Mas se pensa que alguma vez eu lhe faltei ao respeito...

– Nunca pensei nisso. Mas ela não é a mesma. Mudou há coisa de duas semanas. Fala menos, já não gosta de brincar com os homens. O amor cheira, é o que te digo. Sabes quem é o Chico Malhado?

– Sei.

– Tu estavas a ferrar uma égua do patrão Jaquim. Aquela égua porcelana e desconfiada... Eu cheguei-me à taberna e parei cá fora da porta. Não se ouvia uma mosca. Como sabes, ela fala sempre. Nunca ‘stá quieta. É uma égua roaz. Julguei que os ia apanhar agarrados, mas pra mim foi o mesmo. Estavam longe um do outro, mas era como se as mãos dele fossem do canto da mesa, cá à entrada da porta, até ao balcão, onde ela estava. Eu disse bom dia, e a minha voz fez um eco danado. A minha voz nunca fez um eco daqueles. Ele respondeu-me e tudo ficou quieto. Quieto e pesado. Eu fui direito a ela e custou-me a andar. Parecia que atravessava uma tempestade. Julgo que ainda se não passou nada entre os dois, mas as coisas não vão ficar assim por muito tempo. Ela não é mulher pra isso!

– Talvez não...

João Mula Brava casquinou de troça – talvez troçasse dele.

– Nunca gostei que tivessem pena de mim, Ruço de Má Pêlo! Nem o meu filho.

Foi por causa dela que perdi a sua amizade e nunca me arrependerei disso. Pareço andar aqui por arames, tão magro estou, e velho, e cansado, mas este arame é de aço. Não torce, quebra-se. E quando se quebrar é por uma vez. Pra que diabo preciso eu de uma mulher com esta idade? Não é o que tu perguntas? É o que todos perguntam, eu sei. Tu dormes ao lado da gente e naquela casa é o mesmo que dormires na nossa cama. És capaz de guardar um segredo?

– Pode falar à sua vontade, Ti João. E se quiser, eu ponho-me à tesa com ela, porque enquanto eu estiver à sua beira ninguém fará pouco de si.

– Não, não é isso. Eu ainda sou capaz de me defender. Não tenho medo da morte. E aquela espingarda que lá tenho serve para queimar os miolos a quem calhar. Entendes? Pois é assim mesmo.

O atropelo das palavras tinha-o cansado e ele arfava. Deitou-se sobre a erva com os olhos fechados e continuou a falar.

– Encontrei-a no Porto Alto e achei-lhe graça. Eu vinha numa carrocita que tinha nesse tempo, já lá vão três anos, e parara ali para matar a sede e dar dois dedos de conversa com o meu compadre. Ela guizalhava como é seu costume e queria uma boleia para ir apanhar o comboio. Ofereci-lhe um lugar na carroça, metemo-nos de conversa e combinámos tudo. Eu precisava de uma mulher para companhia, talvez só pra me lembrar de todas que tive. E perguntei-lhe se ela queria viver comigo. «E o que me dá vossemecê?», respondeu ela. Gostei daquela franqueza. Uma mulher nova quando se obriga a ficar ao pé de um homem como eu tem sempre alguma coisa em mira. É melhor jogo franco: pão pão, queijo queijo. Eu disse-lhe: ponho uma taberna em teu nome, trabalho de ferrador, e quando morrer é tudo pra ti. Mas nunca m’enganarás, é só o que te peço. Brinca, conversa e ri, mas nunca m’enganes. E ela jurou-me. Acho que me jurou plas cinco chagas de Cristo. Não sei bem o que ela me disse, mas só interessa a combinação feita. Eu ainda não faltei a coisa nenhuma.

O cão sentara-se entre os dois e lambia as mãos do velho.

– Agora, já vai pra dois anos que não tenho nada com ela. Dormimos juntos e tu sabes bem: já não somos homem e mulher. Tens ficado muitas noites a ouvir.

É ou não verdade? Fala à vontade, Ruço! Já és um homem... e podes dizer essas coisas que não te ficam mal.

– É verdade.

João Mula Brava abriu os olhos e sorriu para o rapaz.

– Mas agora as coisas vão complicar-se. Ela mudou. O Chico Malhado deu-lhe volta à cabeça. Eu sei que é só pra ter a mulher e mais nada. Há muitos a gabarem-se, mas nunca nenhum a teve. Ele julga que dou pasto à eguazinha, mas engana-se. Se a quiser, leva-a com ele e nunca mais me passa à porta. Ou talvez não a leve, porque sou capaz de o baldear antes que isso suceda. Não vou agora em velho deixar algum gajo rir-se de mim. Viste como ela ficou contente por sairmos?

Ela ficou contente, eu sei. Vai tremer sempre com receio que eu lhe apareça de um momento para o outro e nada fará. Mas quer falar com ele, e saber o que ele pensa, e perguntar-lhe...

– Ele é novo, Ti João. Ela talvez não lhe pergunte nada.

– Tens razão.

Levantou-se apressado. Pegou no chapéu e enfiou-o na cabeça.

– É isso o que tu dizes, Ruço. Ele é novo e quem sabe o que lá vai a esta hora.

Tenho passado noites inteiras sem dormir, agarrando-a, porque às vezes penso que se adormeço ela me pode vir cá pra fora... Está agora a aproximar-se o tempo danado pra isso. As noites de Verão. Os dias de Verão. Quando eu era moço, eu desvairava sempre por esta altura.

Pegou na cana e pô-la sobre o ombro; foi buscar a caixa verde, onde tinha as enguias, e deixou-a ao pé do rapaz.

– Fica-te aí, toma banho no Tejo, se quiseres, que eu volto. Já agora peço-te...

– O quê, Ti João?

– Nada. Nunca gostei de pedir coisa nenhuma. Faz o que quiseres. O mundo pra ti é livre. Até logo.

E abalou apressado com o cão atrás de si. Alcides ficou no mesmo sítio até o velho desaparecer na curva do valado e foi depois para a margem do Tejo, à sombra do salgueiro. O calor começava a apertar. Tirou a camisa, estendeu-se na erva e tentou adormecer. Mas as palavras do ferrador tinham-se-lhe agarrado ao sangue. Ele nunca vira a Mariana como naquele momento. Para si ela não era uma mulher. E agora sentia-lhe as mãos.

«O amor cheira», dissera o velho.

Alves Redol

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

OUTROS CONTOS

«Velhas Árvores», conto poético por Olavo Bilac.

«Velhas Árvores»
Soneto de Olavo Bilac

942- «VELHAS ÁRVORES»

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o insecto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

SÁTIRA...

Tanto Luxo para Quê?
Sátira...

«TANTO LUXO PARA QUÊ?»

- O meu governo risonho
Vai erradicar a pobreza!
- Mentes com firmeza…
Mas que exagero, Tonho!
Eu até não me oponho
Morar num T0,
Ao relento não quero
Provoca-me calafrios…
Quartos muito frios,
Gelados, pra ser sincero.

POETA

sábado, 24 de dezembro de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

OSCAR PETERSON TRIO
«Oscar's Boogie»

Poet'anarquista

Oscar Peterson Trio
Pianista Canadiano

OUTROS CONTOS

«A Canção de Marchar», por Herta Muller.

«A Canção de Marchar»
Conto de Herta Muller

941- «A CANÇÃO DE MACHAR»

Sempre que o domingo, conforme dizia papá, chegava ao céu, papá encontrava esses estilhaços na sopa. Papá, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papá tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papá.

Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papá, e papá não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papá punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papá e ela serviu uma sopa rala. Papá mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papá engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. As mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papá seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: "E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim".

Quando estava anoitecendo, papá se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos húmidos.

Na terceira estrofe papá se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papá e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitava sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.

No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papá e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papá cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca.

Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papá estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.

O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.

Herta Muller

OUTROS CONTOS

«Os Amigos», conto poético por Manel d' Sousa.

«Os Amigos»
Bomer e Molas

940- «OS AMIGOS»

Os amigos são assim,
Cão e gato, pois então…
Um negro como carvão,
Outro da cor do marfim.
Ambos gostam de mim
E eu deles, ainda mais,
Dois fiéis animais
Em que posso confiar…
Afirmo, sem hesitar,
Que prefiro irracionais!

Manel d’ Sousa

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

SÁTIRA...

Os Abstinentes
Sátira...

«OS ABSTINENTES»

- A juventude do CDS
Quer no ensino em Portugal,
A abstinência sexual
Como a escola merece.
- Pois a mim não me parece
Boa matéria pra estudar,
Deviam era ensinar
Que não se deve abster…
Dá saúde e faz crescer,
E é bom de praticar!

POETA 

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

GIACOMO PUCCINI - «Un Bel Di Vedremo»
Cantora Erudita e Soprano/ Maria Callas

Poet'anarquista

Puccini e Callas
Compositor Italiano e Soprano Grega

OUTROS CONTOS

«Uma Gota de Sangue», por José Régio.

«Uma Gota de Sangue»
Conto de José Régio

939- «UMA GOTA DE SANGUE»

O gigantesco desenho da ponte se lhe debuxava agora à esquerda, com o seu arco imenso meio afogado no nevoeiro, que adensara. O vento caíra. E como o crescente da lua se desvanecia no céu brumaceiro, de luar não havia senão uma frialdade semiluminosa, muito vaga, esparsa. Na grande mancha negra, lodosa, que era agora o Douro, retorciam-se como longos parafusos em brasa as luzes de Vila Nova de Gaia. Reflectiam outras luzes espalhadas aqui, ali, além, pequeninas, ao mesmo tempo esfumadas e nimbadas pela névoa. Junto ao cais, quase aos pés de Lélito, mais se adivinhava do que distinguia na facha tenebrosa uma complicação de vultos de barcos. Mas havia aí lume, vozes abafadas, ele vez em quando um gorgolejo ou chape-chape de água.

Depois das vielas por onde se encafuara, já tudo isto daria a Lélito uma quase favorável impressão de largueza, companhia, (pois não havia gente nesses barcos? não era o que ainda o reanimava, sentir a proximidade humana de vez em quando?) se a dupla inquietação de se achar afastado do centro da cidade, e sem ver onde poderia esperar a manhã, o não enchesse de cruéis incertezas. Como se encaminhara, sequer, tão naturalmente, para estes lugares pouco tranquilizadores?

Não poderia ter ido parar às vias mais concorridas? Decerto haveria aí algum café aberto, qualquer lugar onde ficasse. Dir-se-ia que um obscuro desígnio do destino (ou uma impulsão secreta) não só aqui o atraíra, a tais paragens, mas até nelas o retinha; e que, não obstante os seus terrores, uma curiosidade ansiosa, doentia, e um desespero e um desleixo de todo o ser – o guiavam nesta inútil e inesperada peregrinação. Lélito suspeitou que se lhe revelava o gosto das aventuras perigosas, e que era uma expectativa delas que o dirigia...

Ao cabo de uns momentos verificara não ser o único vadiando à margem do rio. Um ou outro pequeno grupo se demorava, ainda, nas sombras daquelas portas escondidas sob antigos arcos; umas abaixo do empedrado negro, ao fundo de quaisquer degraus, outras rasgadas numa espécie de muralha sobre que se erguiam prédios estreitos como torres, com varandas de velhas madeiras, ou casarões imundos e sólidos. Não obstante a amplidão do horizonte em frente, um cheiro igualmente nauseabundo envolvia todas essas portas, penetrara para sempre essas pedras; mas aqui cheirava ainda a frutas podres (que iam ficando do mercado diário), pó de carvão, águas chocas e comidas azedas. Eram, decerto, moradores ou frequentadores retardatários destes antros, os raros vultos que ainda por ali.

Demoravam.

Ora enquanto, perante estas misérias que pela primeira vez se lhe revelavam tão completamente, sentia um acre gosto de humilhação atraí-lo aos seus semelhantes mais infelizes, (aliás nem a sua infelicidade se lhe revelara ainda, ele é que a estava imaginando) muito bem sentia Lélito que uma particularidade qualquer nos seus modos, no seu andar, no seu ar – qualquer coisa que, tanto por temor como por solidariedade com a miséria, procurava agora esconder – irremediavelmente o apontaria à desconfiança, à hostilidade, ao sarcasmo desses miseráveis.

Com efeito, um vulto que de repente apareceu a seu lado deu-lhe um encontrão. Era um homem gordo, com olhos agudos que procuraram os seus de perto, como a perguntarem-lhe o efeito de tal familiaridade. Parecia ter surgido de qualquer alçapão.

– Desculpe! – disse com uma espécie de insolência na voz rouca.

– Não faz mal... – balbuciou Lélito involuntariamente.

E logo o outro, estendendo a mão para o seu braço:

– Escute lá...

Mas Lélito desandara; acabara por desatar a correr como uma criança apavorada e perseguida. Quando parou, reconheceu que não pensara em escolher caminho. De novo metera por uma dessas ruas infaustas que bem quisera evitar. Com um alvoroço, lembrou-se de levar a mão ao bolso em que tinha toda a sua fortuna.

«Meu Deus!» apelou do fundo de si. Mas a sua fortuna lá estava: duas notas miúdas, alguns trocos. «Obrigado!» bradou em pensamento. Nestas situações, (posto nunca Lélito se houvesse achado em nenhuma idêntica) logo entre ele e o seu Deus mais familiar se estabelecia uma rápida comunicação: pedidos, agradecimentos, queixas, acusações... Era ridículo, com as suas dúvidas e as suas pretensões filosóficas! Era ridículo! era ridículo.

Embora semelhante às outras na desoladora aparência das casas, no empedrado primitivo, a rua em que se achava tinha a vantagem de ser um pouco mais larga; também a de ser uma ladeira. Lélito sabia que, subindo, se aproximaria do centro da cidade. Chegou a um terreiro com aspecto arcaico e a fachada, ao fundo, de uma igreja em ruínas. À primeira vista, era um pequeno largo sem saída. Julgando que seria obrigado a retroceder, Lélito sobressaltou-se. Avançou, porém, em direcção à igreja, cuja fachada se erguia na penumbra como um cenário fantástico; tanto mais que, propriamente, ela quase não tinha senão fachada. Descobriu ao lado quaisquer escadinhas estreitas que subiam.

Uma figura de mulher, embrulhada num xale, se despegou, então, direita a ele, da parede da igreja. Tinha qualquer coisa de espectral ou fatal, como se ali o estivera esperando há anos! há séculos; ou, então, como se pertencera àquelas mesmas pedras, ou delas nascera. Galgando as escadinhas íngremes, Lélito ainda pôde perceber que o fantasma o chamava...

Era tempo! era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido.

Os seus nervos começavam a desafinar; a sua imaginação a trabalhar em excesso; de modo que já nele se manifestava com uma intensidade premente, ameaçadora, aquele senso do estranho que torna medonhas e secretas as próprias coisas mais triviais. Qualquer ser, ou até um simples objecto, uma árvore, um pormenor de paisagem, – poderiam nesses momentos apavorar Lélito, revelando o seu segredo.

Isto é: revelando-se, fulgurantemente, misteriosos. Então, as pessoas tomavam a seus olhos um doairo de aparições (seria real, por exemplo, a mulher que se despegara da igreja arruinada?) e, o que não era menos perturbante, as próprias coisas manifestavam fragmentos de seres vivos e desconhecidos, como se nelas ofegassem pequenos monstros forcejando por se libertarem...

Bem era tempo de chegar a qualquer ponto mais ou menos conhecido!

Felizmente, Lélito acabava de reconhecer a velha Sé naquela grande massa pesada, escura, diante de que viera ter. Para lá do muro, lá em baixo, muito vagamente nascia do nevoeiro e da noite um baralhado casario da cidade salpicado de halos luminosos. Lélito não ignorava que, descendo pelo lado oposto ao que o trouxera, se aproximaria das ruas mais concorridas, mais modernas... Assim se valia agora de algumas deambulações empreendidas quando faltava às aulas, enganando a vigilância do senhor Bento Adalberto. Mas, ao cabo de ter hesitado uns passos, aflitivamente se agarrou à primeira haste de candeeiro. É que tivera a impressão de que o chão desatara a correr, e se despenhava sob os seus pés.

Sentiu, então, uma infinita moleza nas pernas, e um arrepio que lhe corria o corpo, e recomeçava, se multiplicava em pequenos arrepios consequentes como breves, repetidas ondulações...

Fora sua intenção chegar à larga praça onde estava o homem de bronze, a cavalo, (não lhe lembrava agora o nome, – um nome tão conhecido!) e que lhe era o centro mais familiar do Porto. Aí descansaria um pouco, e poderia tomar uma decisão. Talvez ainda encontrasse qualquer café aberto, ou lhe valesse a pena procurar uma pensão, um hotel... Até já pensara em alugar um automóvel (mas encontrar automóveis, a esta hora?!) que o levasse a Azurara. Afinal, em breve poderia estar diante de casa. Bateria, acordaria os que há muito dormiam no profundo aconchego dos velhos quartos familiares; e deixar-se-ia cair de joelhos no pátio de entrada, (oh, o que ele tinha era vontade de se deixar cair!) quando o pai, alarmado, viesse descendo as escadas de pedra... O pai não havia de o pôr fora; – e sem dúvida pagaria ao motorista. De momento, é que nem forças tinha para chegar à praça da estátua equestre, que aliás nem sabia se era longe.

E ali estava amparado àquele candeeiro, como um bêbedo, e outra vez gritando aflitivamente do fundo de si: «Meu Deus! meu Deus!» Em razão, talvez, não tanto do seu estado como da inquietação que lhe ele inspirava, tinha um vazio pesado na cabeça, uma dor ao fundo da órbita direita, enquanto o angustiava a sensação agónica de ir vomitar a cada instante. Sobretudo o aterrava a perspectiva de ali cair, nessa rua deserta, onde só o pudesse encontrar um polícia, um vadio nocturno, ou um desses desgraçados que andam varrendo ruas a desoras...

Fechara os olhos por segundos, a testa contra o candeeiro. Foi quando ouviu a seu lado:

– Boa noite, amorzinho.

Vagamente reconheceu aqueles olhos vidrados, grandes, como de quem tem febre, naquela face muito chupada e vermelha de tintas. Era a mulher do vestido claro, que já o saudara com a mesma fórmula.

Relanceou, então, à roda, pela rua deserta, pelos velhos prédios, os olhos enevoados. Compreendeu que já passara naquela rua; diria ele que há muitas horas! Mas essa mulher de vestido claro, leve, numa noite assim fria, lá continuava no seu passeio profissional: Ainda não seduzira ninguém; ou já seduzira, e recomeçara a tentar a sorte. A complexa impressão que da primeira vez lhe produzira – receio do desconhecido, pudor da virgindade tentada, repulsa física por tal género de mulheres, curiosidade e atracção precursoras do desejo – a complexa impressão que da primeira vez lhe produzira, e de que nem ele chegara bem a dar conta, é que já lha não podia produzir: Agora, Lélito estava simplesmente esgotado; exausto! Precisava de uma cama e do socorro, ao menos da companhia, de qualquer ser humano; até daquele.

– Bebeste... – disse a mulher, inclinando-se um pouco a examiná-lo. Como ele nada dizia, limitando-se a olhá-la com os mesmos olhos enevoados e tristes, acrescentou:

– Sei de um quarto aqui perto, muito em conta...

– ...Perto? muito em conta...? – repetiu Lélito inconscientemente, como num eco.

– São dois passos – respondeu ela, animando-se imediatamente. E logo lhe pousou a mão no braço, apertando-lho de leve, num movimento quase natural de carinho. A esperança de ganhar a noite vibrara na sua voz um pouco rouca.

Decerto ainda não seduzira ninguém.

Com um esforço para se desencostar do candeeiro, Lélito murmurou, à laia de desculpa:

– Senti-me mal... estou doente...

– Ora! – fez ela - sei o que isso é: bebeste.

Depois de hesitar um segundo, perguntou:

– Tens dinheiro?

– Algum... – balbuciou ele baixando ainda a voz, de modo que mal se ouvia; e dir-se-ia que, na verdade, receava ser ouvido. – Mas tenho de seguir para Azurara.

Preciso de guardar para o comboio... o comboio parte cedo... de madrugada...

– Bem! o comboio pouco é. E há necessidade de ires assim tão cedo? Simpatizo contigo, palavrinha. Gosto de um rapazinho novo como tu. Quem te mandou beber de mais? Não deves estar muito habituado... Que idade tens? Mas vais ver que sei tratar de ti! Sou boa rapariga, acredita; não julgues lá que por andar nisto...

Isto é um modo de a gente viver!

Agarrara-se-lhe ao braço, era ela quem o ia levando. Lélito deixava-se levar. E era-lhe agradável não só descansar o corpo sobre o dela, mas também sentir-lhe na voz um pouco rouca e áspera, de tísica, inflexões quase maternais.

José Régio

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

SÁTIRA...

Tudo em Família
Sátira...

«TUDO EM FAMÍLIA»

- O António disse o seguinte:
“Pago aos lesados do BES,
Sem trocar as mãos plos pés
E ir ao bolso do contribuinte.”
- Coitado do pedinte…
Onde vai ele buscar a nota
Pra descalçar essa bota?
- À nossa algibeira…
Pagamos d’igual maneira,
Mas desta vez ao TOTTA!

POETA

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SÁTIRA...

O Figurão
Sátira...

«O FIGURÃO»

- Prepara a cela carcereiro,
Vem aí um figurão
Atolado em corrupção!
- Quem será o prisioneiro
Neste dia domingueiro?
- O ex-presidente do INEM,
Foi ele o homem do leme
Na emergência nacional…
Com o plasma deu-se mal,
E hoje até o sangue teme!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Os Reis Magos», por Vitorino Nemésio.

«Os Reis Magos»
Conto de Natal/ Vitorino Nemésio

938- «OS REIS MAGOS»

"[...] Pois se comeres as sopas, conto-te... Foi o que disse a Avó. E, porque as comi todas, até chorar por mais, e não deixei nada na tigela, e fui muito bonito para ser ainda mais gordo, sempre contou.

Contou que, noutros tempos (ainda os burros falavam!), lá por uma estrada fora iam andando três senhores. 

Cada qual o de mais teres, logo os vereis! — não eram pimpões nem soberbões. Trajavam de imperadores, com grandes mantos de pelúcia, cheios de anéis de pedras finas e de coroas à cabeça. Tinha cada um seu ceptro com que espertava a mula (pois iam escanchados), e na ponta de cada um daqueles pauzinhos de prata uma pomba poisava o pé leve, cortado no puro oiro.

Só te digo que em riqueza ninguém lhes passava a perna — pois só visto aquele asseio e tenteado ao pé pelo Sr. Matos (que é um ourives dos primeiros) se podia dizer quanto valiam. Mas nem por terem tantos cabedais e aquelas honras todas (o seu dá-se a seu dono) aqueles grandes figuros eram toleirões. Não! Eles, que tanto podiam, e tinham baraço e cutelo, e às portas de palácio árvores de galho rijo para enforcar os salteadores; eles, que eram abaixo de Deus, e, assim, podiam matar e ferir sem apelação nem agravo, e intimarem os pobres a porem para ali o seu dinheiro, a novidade e a honra das virgens (hein?!...), pelo contrário, eram mansos, e tinham falas de mansos.

Nas noites frias de gelo em que os telhados voavam, se punham pingando as borralheiras e um vento forte sacudia as arcas do pão sem migalha, desciam os três Reis de seus tronos, talhados na pedra-mármore, e lá iam de rota batida... A lama enlameava os seus saiotes guarnecidos. A chuva, basta e impertinente, dava-lhes bofetadas na cara. Atrás, pingando, iam os serventes carregados. E então, parando às portas dos ceguinhos, dos rotos, dos que tiravam uma esmola, e dos cavadores que tinham a enxada e o alvião desencavados, faziam as reais mesuras dando boa-noite a todos:

— Deus esteja e Deus venha!

— Deus esteja nesta casa!

Um dia, um aleijado atrevido, uma espécie de Tintaleis, respondeu com uma graçola:

— ... E o Diabo em casa dos frades! (pois já nesse tempo havia frades).

Então os criados, que marchavam à cernelha das mulas, aliviavam-se dos presentes e enxugavam o suor debaixo dos barretes. Tiravam as colchas de seda de riba dos cestos e a verdura dos alguidares. E, por suas próprias mãos, os Reis davam bodo de brindeiras e repartiam cobertores à pobreza.

Isto enchia a casa ao prove como um pegão de vento enche o portal da Matriz. E era um regalo! Era como se, duma caixa fechada, muitas pombas juntas levantassem voo à uma e ficassem poisadas nos tirantes... Até parecia que os céus também gostavam daquilo! Ao longe fugiam as nuvens como latas de água às costas duma fiada de papões, e a armação do céu punha o seu toldo azul, todo pregado de estrelinhas.

Era debaixo deste pálio que os Reis tornavam a palácio, cansados da caminhada. Cada passada real atirava um respingo ao real manto. E em grande estadão, com uma procissão de velhinhas atrás, entravam por aqueles portões de ouro, que se abriam de par em par enquanto um criado ia acordar o sineiro da capela para repicar dobrado.

Estas coisas sucediam em Oriente, que era o reino dos Reis. Ora um dia (por tal sinal, uma noite em que chovia a potes), os três Reis encontraram-se num grande salão com paredes que nem muralhas. De roda havia tamboretes de coiro e de pregaria amarela, como o cadeirão carunchoso em que o mestre Francisco da Cadeia bate sola e põe tacões. Somente os do palácio real eram tão lindos, tão lindos, que pareciam pregados para os assentos celestes das Potestades e dos Anjos!

Nestes bancos se assentavam os Reis e a corte de seus senhores. Os Reis tinham artes e mandingas, por isso lhes chamavam Magos. Senhoras lindas como o sol bordavam-lhes os xairéis das muares. Tocadores de muita fama repenicavam-lhes nas violas. Cantadores, de garganta tratada a gema de ovo, cantavam-lhes trovas ao despique. E uns afilhados que eles tinham, filhos de gente pobre mas vestidos de «infantes suavíssimos», brincavam com piões de marfim, atados com fieiras de seda. (Podiam jogar à vontade, que o chão era de pedra: não lhe faziam furos).

A parede-mestra da sala tinha uma parte em falso, defumada das cozeduras, onde os clarões das labaredas dançavam a chamarrita acompanhados de estalinhos. Aquilo dava ali um santo sabor, minado de cepos e de achas cobertos de flocos de resina como tetas de cabra ordenhada. Todos gostavam muito daquele borralho brando e estavam para ali quietinhos, a esfregar as mãos de contentes.

Eis senão quando, começam a repenicar as toeiras das violas e um dos reis põe-se a pé e vai espairecer à janela. Era um janelão cortado na parede, funda de um metro e meio, com duas copeiras enfeitadas de rosmaninho e de alfazema. Um grande alegra-campos arregalava o olho vermelho como besugo. E o Rei, arredando os cortinados e abrindo uma gretinha, meteu a cabeça coroada da sua coroa de bicos como a de São Luís, Rei de França. Era o próprio Melchior. Outro chamava-se Gaspar, dono duma ladeira... O outro, negrenho de todo, assinava-se — Baltasar.

Então, abrindo muito os olhos, vivos e azuis como o céu, parando um pouco, depois recuando um bocado como se achasse uma prenda ou visse, chinchinho, um brinquedo, El-Rei Melchior pôs as mãos, abriu-as devagar e ficou como o padre a meio da missa, com os olhos muito abertos.

Lá dentro, as violas repicavam. Cá fora, estiara um poucochinho. Da tapada, toda coberta de arvoredo, começaram a sair e a cantarolar os tentilhões namoradeiros, os canarinhos afitados, mais «o ladrão do melro preto onde foi fazer o ninho»... Um quarto de lua, doce, como uma foice de roçar, estava estampado a primor na página azul do firmamento. E, no sobredito, a tremer, a luzir e a arrefiar como um olho, uma estrela pingava, qual brinco numa orelha de menina.

El-Rei Melchior ficou o que se chama palrísto! Pois que logo, estendendo de lá seu braço de oiro, a estrela escreveu, mesmo sem pauta, as seis palavras seguintes nos vidros suados da janela:

Eu sou a estrela de Deus.

Melchior curvou a cabeça e entendeu o resto, que era simples: 

Segue-me como um cão!

Gaspar acompanhou-o, e o outro também. Partiram os três em três mulas, levando três cofres e três pajens, direitinhos por aí fora. E então, até que chegassem a um sítio chamado Jerusalém, apanharam, coitados, a geada e o frio todo deste mundo!

A pé e calados, os pajens carregavam com os cofres onde iam as prendas de valia. Como naquele tempo não havia estradas — nem sequer para reis! — os caminhos eram regos abertos e acalcados entre as terras. A beira deles debruçavam-se as árvores chocalheiras. Como as canadas de Santo António, os atalhos tinham relheiras onde as mulinhas entalavam as suas fracas ferraduras. Mas, mesmo assim, no meio de tantos tormentos e trabalhos, Suas Majestades caridosas escorregavam dos albardões para escancharem caminhantes. Uns eram velhos sem poderem; outros, capengas, como o Francisco Cambadinho. Uma tia torta, outra cambada, outra cega, sem orelhas, abalaram a trote, repimpadas, nem que fossem rainhas!

Até que Jerusalém, lá longe, se avistou. Aí, os Reis disseram a Herodes — que era da igualha deles, Rei de Espadas e de Oiros! — queriam saber onde estava o Rei dos judeus que era nascido. E, como Herodes não sabia de nada, chamou a si os escreventes do seu povo e os príncipes dos seus sacerdotes. Esta gente usava a barba toda (uns mais rala, outros mais basta), e guardavam, em arcas encoiradas, medas e medas de livros cheios de traça e de sabença. Molhando o dedinho, os escribas iam virando aquelas folhas amareladas — quando um deles, lá do canto, muito invernizadinho e de óculos quadrados, levantou o dedo ao ar, feito bicho saltão. Parecia mesmo empregado na Conservatória! Um pândego!

Enfim, tinha achado! Ele cá estava! Um profeta escrevera a folhas tantas, verso, do Livro da Nova e do Destino, que em Belém de Judá viria ao mundo o Cristo Nosso Senhor. Ora, isto foi tal qual como deitar o bando para se achar um tesoiro... Os Reis Magos então disseram adeus a Herodes, que lhes pediu que mandassem a direcção do Deus Menino. E, nas três mulas, que já suavam em bica amarradas às argolas e estraçoando farelada e luzerna, alçaram as pernas e partiram.

Então a estrela dependurou-se-lhes na dianteira como um pobre lampião, e guiou-os. Pôs-se a chover outra vez. Seguiam por valados e por hortas, encharcados até às virilhas. De vez em quando encontravam peregrinos enregelados que diziam mal da vida; e Gaspar, que era velhote e gebo, gemia do alto do albardão para Baltasar ou o outro:

— Faltará muito, seu Melchior?!...

El-Rei Melchior olhava, coitado, para a estrela, que luzia sempre e ia baixando pouco a pouco, como o ponteiro dum relógio todo cravejado a safiras. Mas vinha um dos pajens, forte moço, com um alento de gigante, e dava uma arroxadinha nas ancas da mula de Gaspar com o seu pingalim de espadana. Eles, tontos de sono, despertavam. E assim calados, tuca, tuca, foram indo...

Mas já as bocas do céu ao pé da terra, a que alguns chamam horizontes, se iam abrindo devagar para engolir a noite e se tornavam cor-de-rosa. Devagar, sobre silvados em flor, passarinhos sem medo daqueles piques punham seus pés mimosos. As poças de chuva espalhadas, que tinham espelhado as estrelas, agora clareavam, clareavam como quem vai acender-se. Urzes, giestas e roseiras esgalhavam os seus ramos cheios de flores pelas pontas. Rompia a madrugada.

O pajem de Melchior (que ou eu estou enganada ou era o da naveta de incenso) ia a fumar o seu cigarro quando empeçou numa cancela de pinho, ao pé dum molho de palha. A tampa da naveta abriu-se, caiu-lhe uma brasa dentro, e foi preciso borrifar o incenso com água, senão ardia tudo. (Como vês, meu menino, iam todos seis cheirosos). Depois, com o subir da manhã, começaram a topar muita gente.

— Gaspar! Vês aquilo acolá, aqueles pontinhos, ali? — A Gaspar pareciam mexer. Melchior tornava:

— Será gente que ali vai, Gaspar?

O velho encolhia os ombros, fartinho de cavalgar. Mas era. Foram-se aproximando e viram que era verdade. Eram pastores com cordeiros escarranchados ao pescoço; velhas, como a Jaleca, com cestas de ovos grossos, de pata marreca e de galinha; raparigas frescas mociças com rosquilhas enfiadas nos braços. Um homem calvo e negrinho, que nem o Manuel de Borba, tocava um guexo lavrado que revirava o focinho e berrava como quem se despede deste mundo. Tinham-no tirado da tetinha da mãe, coitadinho! Agora, em lugar de leite, tinha que mamar num molho de erva da casta que o velho levava de braçado!

Mais adiante, um pescador, que parecia o Manuel Vesgante, ia todo prezado com duas ricas bocas-negras enfiadinhas num junco. E, numa bandeja forrada de rendas e de mimo-de-estudante, um pequeno que nem o da Segunda levava um serviço de alfenim, todo de pombas de açúcar com olhos de grão de ervilhaca.

Todo aquele povaredo ia saltando de contente pelos caminhos fora. E, topando-os, a passo, El-Rei Melchior, mais traseiro que os outros, perguntou a um cabreiro:

— Sempre quero que me digais aonde ides com essa pressa e com tanta recolaria...

— A Belém! A Belém de Judá! Ver o Infante!

— Eia pois, que é nascido?

— Entre as bestas, vós o dizeis! — respondeu o criador do bezerro.

E gritaram em coro:

— A Belém! Ao Deus Menino!

Então um cego como o Pacheco tirou a rabeca do sovaco; Jé António enroscou o clarinete; Jé Cardoso Patinho escorreu o cuspo dos pistons, e, levando o bocal do cornetim ao bigode, armaram ali logo um Pezinho que nem o do bodo das Tronqueiras. Uma rapariga, que levava um açafate de pão alvo e tinha uma garganta de prata, botou a sua cantiga:

— Ó meu Menino Jesus, 

Que é da vossa camisinha?

— Ficou-me lá em Belém 

No colo duma freirinha.

Melchior, Gaspar e o outro rei puxaram das suas patronas e atiraram punhados de dinheirama em prata e em cobre ao povo. Os pastores bradaram, à uma:

— Vivam Suas Majestades! A Belém! A Belém!

Estavam já todos no presépio. Ali parou a estrela e derreteu-se no céu azul, azul que eu sei cá!... Da banda de fora do portão as três mulas roíam erva, com os estribos encruzados nos albardões, dando ao rabo. Quando, muito contentinhos, os Reis começaram a bailar como quem se despede deste mundo. Já tinham dado os presentes: o oiro, o incenso e a mirra. Os pastores já tinham entregado as suas ofertas. E todos, de joelhos, tinham adorado o Menino com tanto fervor, tão de dentro, cheios de tanta alegria, que a vaca e a burrinha em Tabernáculo largaram-se a berrar e a zurrar de puro contentamento.

Os velhos Reis dançavam, dançavam!... Era um bater de sapatilhas — taquetã! taquetã — que... ai! ricas solas da minha alma! iam-se os pontos e as palmilhas... Os mantos régios caíam para trás das costas, rasgados. As coroas ficaram de banda; e mesmo uma delas, a do velho Gaspar da Ladeira, rolou para o pé da bezerra, que a enfiou nos galhinhos, a inocente!

Desempenados e altos, de trunfas nas traves do tecto, os Reis manobravam de ceptro com toda a delicadeza.

(Eu: — E depois? E depois?!

A Avó: — Espera, homem! Lá vamos...)

Tangia cada um no seu tacho (coisa, talvez, da vizinhança...) com um rebate de gozo que zoava muito longe e se sumia como o eco que tu tiras a gritar à porta da cisterna. E assim estiveram os três reis dançando e fazendo matinada, sem maldade nem sacrilégio, que nem os foliões da Serra em dia de coroação.

Nisto, o homem que levava a cambada de peixe ao Menino, e que parecia ali o nosso Vesgante, vai, atreve-se e diz:

— Saberão Vossas Reais Majestades que uma coisa assim, nunca eu vi! Em panelas velhas tocarem os Reis!... O quê...!?

Melchior, Baltasar e o nosso Gaspar da Ladeira fizeram-se muito vermelhos, todos de pé no ar. Então, por milagre de Jesus Infante, cada tatarino daqueles se tornou numa campainha de oiro, a badalar, a badalar... E os Reis voltaram de rota batida a suas terras e palácios, furtando a volta a Herodes Antipas, o grandessíssimo carrasco, que queria degolar o Menino Jesus para nos não salvar!

Quando a Avó se calou, fiquei escoroçoado:

— E o resto, Avó? E o resto?...

— Acabou-se o que era doce e o que era mel derramou-se... — disse ela apanhando a tigela das sopas vazia. Saltei-lhe do colo e fui para a rua. Os meus amigalhaços jogavam o eixo-rebaldeixo. Iam nas cinco» («— Na rua da Palha perdi um brinco»}.

— Ala às seis! — gritou Tiàzé saltando o costado a... Ala Branco.

Aproveitei a deixa e lá me estanhei também, glosando:

— Panelas velhas não tocam os Reis![...]"

Vitorino Nemésio

sábado, 17 de dezembro de 2016

OUTROS CONTOS

«Contratempo», conto poético por Manel d' Sousa.

«Contratempo»
Décima de Manel d' Sousa

937- «CONTRATEMPO»

Aguento-me bem sozinho
Se estou na mó-de-baixo…
Todo mal que encaixo,
Recebo como um carinho.
Aqui ao lado, meu vizinho
Diz-me então pra suportar,
Outro tempo há de chegar
Pra me puxar pra cima…
É assim que ele me anima
Quando estou a vacilar.

Manel d’ Sousa