quarta-feira, 31 de agosto de 2016

POEMA DE CASTRO CALDAS

Matança do Tempo
Poema de Joaquim Castro Caldas

MATANÇA DO TEMPO

já não se mata o porco
só se parte o mealheiro
as patas são de barro
o sangue está infectado
nem o corpo é fumado
nem o amor é enchido
nem o fardo carregado

Castro Caldas

OUTROS CONTOS

«Tomaram...», conto poético por Marina Tsvetaeva.

«Tomaram»
Poema de Marina Tsvetaeva

862- «TOMARAM . . .»

“Os checos acercavam-se dos alemães e cuspiam.”
(Cf. jornais de Março de 1939)

Tomaram logo e com espaço:
Tomaram fontes e montanhas,
Tomaram o carvão e o aço,
Nosso cristal, nossas entranhas.

Tomaram trevos e campinas,
Tomaram o Norte e o Oeste,
Tomaram mel, tomaram minas,
Tomaram o Sul e o Leste.

Tomaram a Vary e a Tatry,
Tomaram o perto e o distante,
Tomaram mais que o horizonte:
A luta pela terra pátria.

Tomaram balas e espingardas,
Tomaram cal e gente viva.
Porém enquanto houver saliva
Todo o país está em armas.

Marina Tsvetaeva

SÁTIRA...

A Triste Figura
Sátira...

«A TRISTE FIGURA»

- Não dá pra ver
A figura ridícula
Que está a fazer?
Parece película…
- Gorda gotícula:
És mar de celulite,
Não aceito palpite
Que nasce torto…
Vindo d’aborto
É muito triste!

POETA

domingo, 28 de agosto de 2016

SOBRE OS POETAS

Sobre os Poetas
Poeta Português Fernando Pessoa

«SOBRE OS POETAS»

Há duas espécies de poetas — os que pensam o que sentem, e os que sentem o que pensam. 
A terceira espécie apenas pensa ou sente, e não escreve versos, sendo por isso que não existe. 
Aos poetas que pensam o que sentem chamamos românticos; 
aos poetas que sentem o que pensam chamamos clássicos. 
A definição inversa é igualmente aceitável. 

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

OUTROS CONTOS

«Almas no Jardim», conto de Marques Rebelo.

«Almas no Jardim»
Pintura de Jan Brueghel, o Velho

861- «ALMAS NO JARDIM»

Cercada por uma muralha de morros negros e tristes, silenciosa e limpa, a pequena praça fica num bairro distante, no fim de uma rua nova mas abandonada.  Tem dois mesquinhos repuxos ao gosto municipal, quatro tabuleiros ingleses de grama dum verde que o vento e o sol fustigam e queimam, e vários ficos, ostentando, tesos, figuras recortadas por tesouras de reduzida originalidade.  Tem duas pérgulas também, duas ridículas pérgulas de madeira pintada de branco, onde umas trepadeiras, que se abrem em agressivos cachos solferinos, se enroscam mais ou menos raquiticamente. Sob cada pérgula, um banco.  Não são incômodos, mas que fossem! não há bancos incômodos para os casais de namorados.

Nessa pequena praça, ouvindo a música medíocre dos repuxos , ora numa, ora noutra pérgula, diariamente, ao cair da tarde, eu me encontro com ela, com ela que é branca como uma açucena, que é mansa como uma sombra, que é doce como um favo, com ela cuja voz é uma fonte cantando e cujo olhar traz para mim o mesmo mistério do céu noturno.

Por esta hora, nesse bairro distante que o sol custa a deixar e cujo vento é qualquer coisa de extraordinariamente notável, a pequena praça é pouco frequentada. Raramente crianças vêm brincar nas retas ruazinhas de fino saibro, entre os quatro canteiros urbanos, em volta dos repuxos.  Para um casal apaixonado é uma solidão propícia, uma amável solidão.  Lá estamos todas as tardes, eu e ela, tecendo o delicado tecido das esperanças, frágil teia que não resiste ao menos sopro contrário.

– Você gosta de mim?

– Adoro!

– Se eu morresse…

– Bobo!

– Então eu não posso morrer?

– Não!

Sacudo os ombros:

– Pois morrerei.  Morrerás.  Morreremos.

Ela — que tem medo da morte! — treme:

– Não tem mais nada para dizer, não?

Tenho.  Tenho um mundo de coisas doces e ternas, ó miragens, ó sonhos, ó devaneios! E tenho um mundo de coisas graves também.  Coisas graves e sérias, mas que jamais sairão, jamais confessarei, ficarão para sempre dentro do meu peito inquieto, turbilhonantes, confusas — oh, extremamente dolorosamente confusas e opressoras! — porque tudo crestariam, pior que o vento da pequena praça, como um vento de fogo.

E ela talvez adivinhe as minhas coisas graves e sérias.  Põe em mim os olhos cheios de amor:

– Amo-te com todos os mistérios da tua vida.
E é melhor assim.

– Cai frequentes vezes, ela, num contemplativo mutismo, o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no meu ombro.

– Em que está pensando? — pergunto.

– Em você.

– Ora!… Fala.

– Gosto mais de te ouvir.

Abre o amável sorriso de claros dentes, responde numa moleza:

– Adoro!…

E o amor é isto: se está triste, amo sua tristeza, se está alegre, amo a sua alegria; e há palavras que parecem sem sentido, mas que caem fundo no coração; e há silêncios que valem por todas as palavras; e ora é um sorriso que nos leva para o céu, ora é um baixar de olhos que nos traz o céu com mil estrelas.

Além de nós, uma vez por outra, um outro casal ocupa a pérgula fronteira.  Olham para nós, sorriem, compreendendo, e como nós desenrolam a eterna história dos corações.  Mas são casais intermitentes.  Constantes, constantes como o vento, somos nós.  Nós, os pardais e Liró.

Os pardais são inumeráveis — ciscam, chilreiam, voam, brigam, amam…  O guarda é um polícia municipal que deve andar pelos quarenta anos, mas a quem se pode dar muito mais.  Tem o porte muito pouco marcial (o pagamento anda sempre atrasado) e o andar de quem já não tem mais pernas.  Com o seu cinzento capacete colonial, escondendo um rosto avermelhado, gretado e melancólico, faz olho morto e complacente aos nossos beijos, aos nossos abraços demasiados.  Já que o vento não consente na primavera dos canteiros, que ao menos nos nossos corações — deve pensar ele — haja flores e outras manifestações primaveris.  Atira pedrinhas aos esquivos peixinhos vermelhos no tanque, peixinhos japoneses cuja cauda tem a transparência das medusas, fica horas e horas numa contemplação, não sei se estúpida ou poética, dos repuxos que não se cansam na sua música monótona, medíocre, inútil.  Com uma continência conivente e frouxa, cumprimenta-nos quando chegamos às quatro e quando saímos às sete, mais ou menos, hora em que a pequena praça começa a sofrer  a noturna invasão dos namorados do bairro.

Liró é o contraste do guarda.  Liró é alegre.  Liró  é brincalhão.  Liró é saltitante.  Mal apontamos, ele corre ao nosso encontro com os olhos transbordantes de simpatia.  Quando partimos, nos leva religiosamente até a esquina mais próxima.  Liró, sabemos, é realmente nosso amigo.  Tem o fraco difícil das verdadeiras e desinteressadas amizades.

– Hoje não vimos Liró ( o nome foi posto por nós no primeiro dia que viemos à pequena praça).  Perguntamos ao guarda por ele.  Com voz surda, voz gasta, voz sem dentes, respondeu que não sabia.  Sumira desde a véspera., pouco depois de nos termos ido embora.

Ficamos tristes, inquietos (os pardais chilreavam insensíveis).  Se tiver sido apanhado pela carrocinha, combinamos, irei resgatá-lo no depósito público. Se tiver sido vítima de um automóvel — e ela ficou com os olhos húmidos — não voltaremos à pequena praça.  Porque Liró é a vida da pequena praça, convence-mo-nos.  Toda a vida.

Marques Rebelo

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ELTON JOHN
«Goodbye Yellow Brick Road/ Álbum»

Poet'anarquista

ADEUS ESTRADA DOS TIJOLOS AMARELOS

Quando você vai descer?
Quando você vai aterrar?
Eu devia ter permanecido na fazenda,
Eu devia ter ouvido meu velho pai...

Você sabe que não pode me segurar eternamente,
Eu não assinei [contrato] com você.
Eu não sou um presente para seus amigos abrirem,
Este rapaz é jovem demais para estar cantando as tristezas.

Então adeus, estrada dos tijolos amarelos,
Onde os cães da sociedade uivam.
Você não pode me plantar na sua cobertura do apartamento,
Estou voltando para o meu arado.

De volta para a velha coruja que uiva na mata,
Caçando o sapo de dorso áspero.
Eu finalmente decidi que meu futuro jaz
Adiante da estrada dos tijolos amarelos.

O que você pensa que fará então?
Eu aposto que derrubará seu avião.
Você vai precisar de um pouco de vodka e tónico
Para te ajudar a se recuperar novamente...

Talvez você consiga um substituto,
Existem muitos como eu para serem encontrados,
Vira-latas que não têm um centavo,
Fuçando por petiscos como você pelo chão.

Elton John
Músico, Cantor e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Rajesh é Saudável», por Ahmed Faraz.

«Rajesh é Saudável»
Poema de Ahmed Faraz

860- «RAJESH É SAUDÁVEL»

Que seja angústia, venha ainda a atormentar o meu coração,
Vem, mesmo se me deixar novamente.
Se não fosse por nossa associação passada…
Veio para cumprir os rituais do mundo.
Quem mais deve explicar o motivo da separação,
Venha apesar de seu descontentamento, para continuar a cerimónia
E respeitar um pouco a profundidade do meu amor por você.
Venha um dia para me acalmar bem,
Também tenho sido privado do pacto de saudade,
Vem meu amor, só para me fazer chorar novamente.
Até agora, o meu coração sofre de alguma expectativa…
Venha para acender mesmo estas últimas velas de esperança!

Ahmed Faraz

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(Escolha musical da blogosfera)

MARIÂNGELA ZAN - «Encanto e Magia»

Poet'anarquista

ENCANTO E MAGIA

Água clara e tão cristalina
Molhando a terra e banhando a gente
Eu menino e você menina
Botões de rosas tão inocentes

Quando as cores do arco-íris
Pintavam o céu enfeitando o dia
Veio um vento não sei de onde
Daquele vento que assovia

Ai! ai! Doce encanto doce magia
Como as asas de um passarinho azulado
Que o pensamento cria

Ai! ai! A saudade vai me levando
Se eu pudesse eu traria o tempo de volta
Pra não ficar sonhando

Quando as flores da Primavera
Cobriam o campo com seu perfume
Vi o cravo brigar com a rosa
E ficar doente só de ciúme

Noite clara de Lua cheia
Viola e canto de violeiros
Eu crescido e você formosa
Querendo ser meu amor primeiro

Mariângela Zan
Música e Cantora Brasileira

OUTROS CONTOS

«Saudades», conto poético por D. Francisco Manuel de Melo.

«Saudades»
Soneto de D. Framcisco Manuel de Melo

859- «SAUDADES»

Serei eu alguma hora tão ditoso,
Que os cabelos, que amor laços fazia,
Por prémio de o esperar, veja algum dia
Soltos ao brando vento buliçoso?

Verei os olhos, donde o sol formoso
As portas da manhã mais cedo abria,
Mas, em chegando a vê-los, se partia
Ou cego, ou lisonjeiro, ou temeroso?

Verei a limpa testa, a quem a Aurora
Graça sempre pediu? E os brancos dentes,
por quem trocara as pérolas que chora?

Mas que espero de ver dias contentes,
Se para se pagar de gosto uma hora,
Não bastam mil idades diferentes?

D. Francisco Manuel de Melo

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sátira...

Muita Parra...
Sátira...

«MUITA PARRA…»

Muita parra… pouca sardinha,
Uva não puxa carroça…
Os sadinos fizeram moça
Ao empatar com a galinha.
Foi mesmo sem espinha
Que o Setúbal empatou,
A Águia emperrou
No vôo para o tetra…
Interpretando à letra:
O estado de graça acabou!

POETA

domingo, 21 de agosto de 2016

SÁTIRA...

Paredes de Coura
Sátira...

«PAREDES DE COURA»

Foi no Festival de Verão
Que tudo se passou…
O pessoal muito cagou,
Apanhou intoxicação!
Encontrar explicação
Parece ainda não haver,
Se a comer ou beber
É uma grande incógnita…
A organização está atónita
Sem saber o que dizer.

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE COUNT BASIE ORCHESTRA
«One O' Clock Jump»

Poet'anarquista

The Count Basie Orchestra
Orquestra de Jazz Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«Molas», conto proso-poético por Matias José.

«Molas»
Proso-Poética de Matias José

858- «MOLAS»

Tudo se passou no dia em que fez quatro meses... 

Estava o gato nas costas do sofá brincando com o meu cabelo, 
quando resolveu saltar para o parapeito da janela. Mediu mal o salto, 
e num repente encontrou-se no vazio a quatro metros do chão. 

Surgiu então a alcunha: — o gato parece que tem 'Molas'.

A aterragem foi perfeita!

Até ao quarto mês
O gato não tinha nome…
Surgiu então o cognome,
Ficou Molas de vez.
Uma grande insensatez
Pular do sofá prá rua,
Qual astronauta na lua
O felino amorteceu…
Uma vida já se venceu:
— Molas, que sorte a tua!

Matias José

sábado, 20 de agosto de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Q. STONE - «Open Door»

Poet'anarquista

Q. Stone
Banda Estadunidense

SÁTIRA...

O Contratempo
Sátira...

«O CONTRATEMPO»

- Meu Primeiro… sobre subsídio
De Natal em duodécimos,
Há contratempos péssimos…
Pagar por inteiro, é um suicídio!
- Essas medidas eu repúdio...
Mas que contratempo viste?
- O tempo quente persiste
Em não nos querer deixar…
Muito fácil de explicar:
O Pai Natal não existe!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Praia de Atalaia», conto poético por Mário Cabral.

«Praia de Atalaia»
Orla da Praia de Atalaia/ Aracaju

857- «PRAIA DE ATALAIA»

Essa praia... esse mar... esse céu que me enleia...
Essas dunas, sonhando, à carícia da aragem...
Essas ondas, rolando, em franjas pela areia...
Essas nuvens, passando, em rebanho selvagem...

Em seu quimão de prata a lua é uma sereia
Que me traz, pelo azul, a mais linda mensagem...
Uma vela perdida, alvacenta vagueia,
Como um lenço do adeus decorando a paisagem...

Coqueiros a acenar... Canções em murmúrio...
A beleza da vida em tudo exuberando
No suave esplendor dessa noite de estio...

A dúvida, porém, de súbito me invade...
E mudo triste, quedo, eu fico palpitando,
Entre o ser e o não ser, entre o amor e a saudade.

Mário Cabral

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DAVE MATTHEWS BAND
«Rhyme & Reason»

Poet'anarquista

RIMA E RAZÃO

Oh bem, oh bem, então aqui estamos
Mas estamos aqui por nada
Meu coração me chama em meu sono
Como posso atendê-lo
Porque estou amarrado neste
Lugar escuro
E eu não sei
Minha cabeça dói, confusa e amarrada
Preciso acabar com essa dor

Minha cabeça não deixará meus pensamentos sozinhos
E não acredito que ela deixará mesmo
Até que eu morra e parta daqui
Minha cabeça não deixará meus pensamentos sozinhos
E não acredito que ela deixará mesmo
Até que eu esteja a sete palmos

Quanto tempo estou amarrado
Minha mente em nós
Meu estômago revirando
Preocupado com o que eu possa fazer
Ou com o que eu já fiz
Me encontrei vivendo com medo
Bem, eu sei que estas vozes
Devem vir de minha alma
Já me cansei
Já me cansei de ficar sozinho
Não tenho para onde ir

A sete palmos
Na minha sepultura
Deitado e coberto, e quieto em minha sepultura
Me deixe aqui
Me deixe apodrecer aqui

Aqui estou, novamente, e tão jovem
Falando comigo mesmo
Uma TV anuncia
Oh cara
Como eu queria não ter fumado
Ou bebido para refrescar minha cabeça
Mas às vezes essa pequena confusão
Aumenta até que eu não mais possa aguentar
A agulha na veia
A agulha na veia
Meu amigo tire esta agulha de minha veia

Na minha sepultura
Deitado
Deitado, frio na minha sepultura
A razão, minha razão
Leva meus pensamentos para fora desse terror
O medo não irá voltar, não posso ver
Minha mente está limpa
A agulha
É a minha grande fuga
Pareço perdido no tempo
Minha mente me deixa para trás
O corpo cai gelado
E eu vejo o paraíso

Dave Matthews Band 
Banda Norte-Americana

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

OUTROS CONTOS

«Um Fado: Palavras Minhas», conto poético por Pedro Tamen.

«Um Fado: Palavras Minhas»
Poema de Pedro Tamen

856- «UM FADO: PALAVRAS MINHAS»

Palavras que disseste e já não dizes, 
palavras como um sol que me queimava, 
olhos loucos de um vento que soprava 
em olhos que eram meus, e mais felizes. 

Palavras que disseste e que diziam 
segredos que eram lentas madrugadas, 
promessas imperfeitas, murmuradas 
enquanto os nossos beijos permitiam. 

Palavras que dizias, sem sentido, 
sem as quereres, mas só porque eram elas 
que traziam a calma das estrelas 
à noite que assomava ao meu ouvido... 

Palavras que não dizes, nem são tuas, 
que morreram, que em ti já não existem 
— que são minhas, só minhas, pois persistem 
na memória que arrasto pelas ruas. 

Pedro Tamen

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

OUTROS CONTOS

«O Homem de Cabul», por Rabindranath Tagore.

«O Homem de Cabul»
Conto de Rabindranath Tagore

855- «O HOMEM DE CABUL»

Mini, minha filha de cinco anos, não pode viver sem tagarelar. Creio até que em toda a vida não passou um minuto em silêncio. Sua mãe irrita-se frequentemente com isso, e gostaria de conter-lhe a garrulice, porém eu sou de outra opinião. Para Mini, ficar sossegada é coisa contra a natureza, e eu não lhe suporto o silêncio por muito tempo. Assim vivemos mantendo uma conversa intensa.

Assim, certa manhã, quando eu me encontrava no meio do décimo sétimo capítulo do meu novo romance, minha pequena Mini entrou no quarto e, pondo sua mão na minha, disse-me:

– Papai, Ramdaial, o porteiro, chama um corvo um curvo. Ele é muito bobo, você não acha?

Antes que lhe pudesse explicar as diferenças entre uma língua e outra, ela já estava interessada noutro assunto:

– Papai, que é que você acha? Bhola diz que tem um elefante nas nuvens e, quando chove, é porque ele sopra a tromba.

E enquanto eu, calado, tentava encontrar uma resposta a essa pergunta, ela saiu-se com esta:

– Papai, que parente da mamãe é você?

Tentei dizer-lhe com cara séria:

– Vá brincar com Bhola, Mini. Papai está ocupado.

A janela do meu quarto olha para a estrada. A menina acomodou-se a meus pés perto da mesa, e brincava batucando baixinho nos joelhos. Eu estava mergulhando no meu décimo sétimo capítulo, em que o herói PratapShing tomava Canchanlata, a heroína, em seus braços, e ia escapar com ela do terceiro andar do castelo, quando de repente Mini abandonou a sua ocupação e correu à janela gritando:

– Um cabulense, um cabulense!

E, de fato, na rua em baixo via-se um homem de Cabul andando devagar. Vestia o traje frouxo e manchado de seu povo e um turbante grande, e carregava um saco às costas e caixas de uvas nas mãos.

Não sei dizer o que minha filha sentiu ao avistar o homem; em todo o caso, pôs-se a chamá-lo em altos brados.

– Ai! – pensei com os meus botões. – O homem vai entrar, e nunca mais eu termino o meu capítulo 17.

Nesse mesmo instante, o homem de Cabul virou-se e olhou para a menina, o que a deixou trêmula de medo. Ela desapareceu e foi procurar, correndo, a proteção da mãe. Devia pensar que no saco grande que o homem carregava às costas podia haver duas ou três crianças como ela. Entretanto o mascate entrou pela porta e cumprimentou-me com um sorriso.

A situação de meu herói e da minha heroína estava tão precária que preferi interromper o trabalho para comprar alguma coisa, visto que Mini chamara o homem para nossa casa. Fiz algumas comprinhas e entramos a falar de AbdurRahman, os russos, os ingleses e a política de fronteiras.

Antes de sair, perguntou-me:

– Onde está a menina?

Aí, julgando que Mini já se livrara do seu acesso de medo, mandei-a chamar.

Ela ficou em pé junto à minha cadeira, olhando para o homem de Cabul e o seu saco. Ele ofereceu-lhe uvas e nozes, porém ela não se deixava tentar: foi apertar-se a mim, com todas as dúvidas confirmadas.

Foi esse o primeiro encontro dos dois.

Alguns dias depois, no entanto, ao sair de casa fiquei surpreendido: avistei Mini sentada num banco perto do portão, dando grandes risadas e batendo papo com o grande cabulense. Tinha-se a impressão de que em toda a sua vida a minha filha não havia encontrado ouvinte tão paciente, a não ser na pessoa do pai. E logo a aba de seu pequeno sári ficou cheia de amêndoas e de uvas, presentes da visita.

– Por que deu tudo isso à menina? – perguntei, oferecendo-lhe uma moeda de oito anás.

Ele aceitou o dinheiro sem hesitar, e o embolsou.

Porém ao regressar, uma hora depois, percebi que a desgraçada moeda causara confusão duas vezes maior que todo o seu valor. Com efeito, o cabulense deu-a a Mini, e a mãe desta, notando o brilhante objeto redondo, caiu em cima da criança com estas palavras:

– Onde foi que você pegou moeda de oito anás?

– Foi o homem de Cabul quem me deu – respondeu Mini com prazer.

– Foi o homem de Cabul quem te deu! – exclamou a mãe escandalizada. – Oh, Mini! Como é que você pôde aceitá-la?

Entrei nesse momento e, salvando minha filha da catástrofe iminente, fui proceder a um inquérito.

Achei que os dois não se tinham encontrado nem pela primeira nem pela segunda vez. O cabulense vencera o primeiro medo da criança subornando-a pela oferta oportuna de nozes e de amêndoas, e agora eles eram grandes amigos.

Tinham umas brincadeiras estranhas, que os divertiam sobremaneira. Mini sentava-se em frente do homem, esquadrinhava-o em todo o seu tamanho do alto de sua minúscula dignidade e perguntava-lhe com o rosto crispado pelo riso:

– Olá, cabulense, cabulense! Que é que você tem no saco?

Ao que ele respondia com acento nasalado da gente montanhesa:

– Um elefante!

Não havia nisso motivo nenhum para alegria, mas como os dois apreciavam aquela brincadeira! Para mim, aquele bate-papo infantil com uma pessoa adulta sempre tinha algo estranhamente aliciante.

Então o homem de Cabul, para não ficar atrás, perguntava, por sua vez:

– E você, pequerrucha, quando vai à sua casa do seu sogro?

Toda meninazinha de Bengala já ouviu falar da casa do sogro; mas nós éramos algo progressista e não falávamos dessas coisas diante dela, de sorte que a pergunta devia deixá-la um tanto perplexa. Mas não o demonstrava e perguntou com muito jeito:

– E você, tem ido lá?

Ora, entre pessoas da classe do cabulense é bem sabido que “a casa do sogro” tem duplo sentido. Essas palavras designam, por eufemismo, a prisão, lugar onde os outros cuidam de nós sem despendermos nada. O robusto mascate entendia a pergunta de minha filha neste sentido.

– Ora – dizia ameaçando com o punho um guarda invisível –, eu vou dar uma boa surra no meu sogro!

Ouvindo essas palavras e imaginando o pobre parente moído de pancadas, Mini dava gargalhadas, no que era imitada pelo seu ilustre amigo.

Eram manhãs de outono, o período do ano em que os reis de outrora saíam em busca de conquistas. Sem mexer-me do meu cantinho de Calcutá, deixava o espírito vaguear pelo mundo. Ao ouvir o nome de outro país qualquer, o meu coração ia visitá-lo, e ao avistar um forasteiro nas ruas eu tecia toda uma série de sonhos sobre os montes, os vales e as florestas de sua pátria distante, com sua casinha no meio, sua vida livre e independente, seus animais em redor. Cenas de viagem surgiam diante de mim, e passavam e repassavam pela minha imaginação muito mais vívida, talvez por eu levar vida tão semelhante à de um vegetal; um convite para viajar teria caído sobre mim que nem um raio. Na presença daquele homem de Cabul eu era imediatamente transportado a pé de suas montanhas áridas, com pequenos desfiladeiros entre seus cumes altaneiros. Podia ver a fila de camelos transportando mercadorias e o grupo de comerciantes de turbante na cabeça, alguns carregando velhas armas de fogo e outras lanças, enveredando rumo à planície. Mas em tais momentos a mãe de Mini intervinha e implorava-me que “olhasse aquele homem”.

Infelizmente a mãe de Mini é muito impressionável. Basta-lhe ouvir um barulho na rua ou ver pessoas dirigirem-se a nossa casa para chegar à inevitável conclusão de que são ladrões ou bêbados, ou cobras, ou tigres, ou malária ou baratas ou lagartas. Mesmo depois de tantos anos de experiência é incapaz de dominar os seus temores. Assim, estava cheia de dúvidas a respeito do homem de Cabul e costumava pedir-me que não deixasse de olhar para ele.

Quando eu, com um riso, tentava dissipar-lhe o medo, lançava olhares solenes em volta e me perguntava em tom grave:

“- Não havia casos de sequestros de crianças?”

“- Não era verdade que em Cabul ainda havia escravidão?”

“- Era tão absurdo supor que um gigante daqueles podia raptar uma criancinha?”

Eu respondia que, embora isso não fosse impossível, parecia muito pouco provável. Essa objeção, porém, não vencia a sua apreensão. Como, porém, estas fossem vagas demais, não achava justo proibir a entrada do homem e a intimidade dos dois continuava no mesmo pé.

Uma vez por ano, em meados de janeiro, Rahman, o cabulense, costumava voltar à sua terra, e, quando o momento se aproximava, tornava-se muito atarefado, indo de casa em casa cobrando o que lhe deviam. Esse ano, no entanto, sempre encontrou tempo para visitar Mini. Um estranho poderia pensar que houvesse alguma conspiração entre os dois, pois, quando não podia vir de manhã, vinha à tardinha.

Eu mesmo espantava-me, de vez em quando, de encontrar aquele gigante de trajes folgados, carregado de embrulhos, num canto escuro do quarto; porém, quando Mini entrava a correr, toda sorrisos, aos gritos de “Cabulense, ô cabulense!”, e os dois amigos, tão afastados em idade, se entregavam às velhas brincadeiras e às risadas de sempre, sossegava por completo.

Certa manhã, antes que ele tivesse decidido a partida, lá estava eu corrigindo provas tipográficas no escritório. Os raios do Sol chegavam-me aos pés através da janela, causando-me agradável sensação de calor. Eram quase oito horas. Transeuntes voltavam para casa, de cabeça coberta. De repente ouvi um rebuliço na rua e vi Rahman de mãos acorrentadas escoltado por dois policiais, seguido por uma turma de meninos excitados. Havia manchas de sangue em suas roupas, e um dos policiais segurava uma faca. Saí às pressas e, detendo o grupo, indaguei o que aquilo queria dizer. Pelo que ouvi de uns e de outros, um vizinho devia ao mascate o preço de um xale de Rampuri, mas recusava-se a pagá-lo e no calor da discussão levara uma facada de Rahman. Nesse momento o prisioneiro no auge da excitação, entrou a chamar seu inimigo de nomes diversos, quando repentinamente na varanda da nossa casa apontou a pequena Mini com sua exclamação habitual:

– Ô cabulense, cabulense!

O rosto de Rahman aclarou-se quando ele se virou para a menina. Ele não estava carregando o saco de sempre, de modo que não podia falar do elefante com ela. Assim, ela passou logo para a segunda questão:

– Você vai à casa de seu sogro?

Rahman respondeu rindo:

– É lá que estou indo mesmo, pequerrucha!

E, vendo que a resposta não fez rir a criança, levantou as mãos acorrentadas.

– Ah! – disse – eu ia dar uma sova nesse velho, mas estou de mãos atadas.

Acusado de tentativa de morte, Rahman foi condenado a vários anos de prisão.

Passou-se algum tempo, e ele foi esquecido. Continuamos vivendo como sempre, no lugar de sempre, e só raramente, ou nunca, pensamos no montanhês outrora livre que estava purgando a sua pena na prisão. Até a minha Mini, de coração despreocupado, esqueceu o velho amigo, lamento dizê-lo. Novos companheiros vieram encher-lhe o tempo. À medida que ficava mais velha, passava mais horas com outras meninas… A tal ponto que já não vinha, como outrora, para o quarto do pai, e raramente eu tinha a oportunidade de falar com ela.

Passaram anos. Mas uma vez o outono tinha chegado e nós estávamos fazendo preparativos para o casamento de nossa Mini, que ia realizar-se. Como Durgas voltando a Kailas , a luz da nossa casa também ia partir para a casa do esposo, deixando o pai na sombra.

A manhã estava radiosa. Depois das chuvas, o ar parecia lavado num repente, e os raios do Sol eram como que de ouro puro. Estavam tão brilhantes que faziam resplandecer mesmo as feias paredes de tijolo de nossas ruelas. As flautas núpcias tocavam desde o amanhecer, e o coração batia mais forte a cada explosão de som. Os queixumes da música bhairavi pareciam intensificar a mágoa que eu sentia com a aproximação da nossa despedida. Mini ia casar-se nessa noite.

Desde cedo a casa fora tomada de algazarra a azáfama. No pátio, o baldaquim esperava para ser suspenso em estacas de bambu; candelabros estavam sendo postos tinindo em cada quarto e na varanda. A presa e a excitação não tinham fim. Eu me achava sentado no escritório verificando contas, quando alguém entrou com uma saudação respeitosa e se postou á minha frente. Era Rahman, o cabulense. Não o reconheci de pronto: estava sem o saco, tinha os cabelos cortados rente, e já não demonstrava o antigo vigor. Mas reconheci-o pelo seu sorriso.

– Quando foi que você chegou, Rahman? – perguntei-lhe.

– Ontem à noite – respondeu. – Fui solto da prisão.

Essas palavras soavam ásperas aos meus ouvidos. Nunca antes havia conversado com alguém que tivesse ferido um semelhante, e senti o coração encolher-se quando me dei conta disso; ocorreu-me, com efeito, que o dia teria sido melhor se ele não houvesse reaparecido.

– Está havendo uma festa em casa – disse-lhe – e estou ocupado. Será que você poderia voltar outro dia?

Ele virou-se imediatamente e se dirigiu para a saída; mas ao chegar à porta perguntou com hesitação:

– Não poderia ver a meninazinha um instante, por favor?

Pensava que Mini continuava a mesma; imaginava que ela vinha correndo saudá-lo como sempre fazia, aos gritos de “Ô cabulense! Cabulense!” Imaginava também que iam conversar e soltar risadas juntos, como dantes. Com efeito: como lembrança dos dias antigos, trouxe, cuidadosamente embrulhados num papel, umas nozes e uns cachos de uvas que devia ter obtido de algum patrício, porque o pouco dinheiro que possuía acabou-se.

Repeti:

– Está havendo uma festa em casa, e você não poderá ver ninguém hoje.

Seu rosto manifestou decepção. Encarou-me sôfrego por um momento.

– Até amanhã – disse, e foi-se.

Fiquei um pouco triste, e ia chamá-lo de volta, mas o vi retornar espontaneamente. Aproximou-se de mim para oferecer seus presentes.

– Trouxe estas coisinhas, doutor, para a pequerrucha. Quer entregá-las a ela?

Peguei-as, e ia pagá-las, mas o homem me deteve a mão:

– O senhor é bom demais. Não me ofereça dinheiro: quero que ela guarde boa lembrança de mim. O senhor tem uma filhinha. Eu também tenho uma como ela em casa. Estou pensando nela e trago estas frutinhas para a sua menina; mas não para ganhar dinheiro.

Dizendo isto, meteu a mão na roupa frouxa e retirou de lá um pedacinho de papel sujo. Desdobrando-o com muito cuidado, passou a alisá-lo com as duas mãos sobre a mesa. O papel trazia a impressão de uma pequena mão. Não uma fotografia, nem sequer um desenho; apenas a impressão de uma mão besuntada de tinta e apoiada no papel. Esse toque da mão da filhinha, carregava-o sempre perto do coração, quando de ano em ano voltava a Calcutá para vender sua mercadoria nas ruas.

Lágrimas molharam-me os olhos. Esqueci que ele era um pobre fruteiro de Cabul, enquanto eu… Mas não, que é que eu tinha a mais que ele? Ele também era pai.

A impressão da mãozinha da sua pequena Parvati em suas montanhas distantes me fez lembrar a minha pequena Mini.

De um dos quartos internos mandei chamá-la imediatamente. Levantaram-se objeções, mas afastei-as todas. Metida em seu vestido nupcial de seda vermelha com um ornato de sândalo na fronte e enfeitada como costumam ser as jovens noivas, Mini veio e se deteve modesta na minha frente.

O homem de Cabul ficou espantado com a aparição. Não sabia como reavivar a antiga amizade dos dois. Porém acabou sorrindo e perguntou:

– Menininha, está indo à casa do sogro?

Mas Mini, agora entendia o sentido da expressão e não pôde responder como outrora. Ouvindo a pergunta, corou, e manteve-se cabisbaixa nos seus trajes de noiva em frente do homem.

Lembrei-me do dia em que Mini e o cabulense se encontraram pela primeira vez, e fiquei triste. Quando ela se foi, Rahman soltou um suspiro profundo e fitou o assoalho. Deve lhe ter ocorrido de súbito que a própria filha cresceu enquanto ele ficou tanto tempo ausente, e que teria de reconquistar a amizade dela também. Seguramente não a ia encontrar como a tinha deixado. De mais a mais, quanta coisa podia lhe ter acontecido durante aqueles oito anos!

As flautas núpcias voltaram a tocar, e a luz do Sol caía suave sobre nós. Rahman, porém, sentado na ruela de Calcutá, via ante si as montanhas áridas do Afeganistão.

Saquei uma cédula da carteira e a ele a entreguei dizendo:

– Vá, volte à filha, Rahman, em sua terra, e que o nosso feliz reencontro possa trazer boa sorte à minha menina.

Àquele presente obrigou-me a cortar alguns acessórios da festa: não pude ter a iluminação eléctrica com que contava, nem a banda militar, e as senhoras da casa ficaram desapontadas. Porém, para mim a festa só fez ficar mais brilhante quando lembrava que um pai perdido desde muito tempo ia reencontrar a única filha.

Rabindranath Tagore

terça-feira, 16 de agosto de 2016

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ELVIS PRESLEY - «Polk Salad Annie»

Poet'anarquista

ANNIE DA SALADA POLK

Alguns de vocês nunca foram muito para o sul
Eu vou contar uma historinha
Pra vocês entenderem do que eu estou falando
Lá em baixo temos uma planta
Que cresce na floresta e nos campos
E que parece um nabo verde

Todo mundo chama de salada Polk
Isso é salada Polk
Eu conhecia uma garota que morava lá
E ela saía durante a noite
Para colher um maço
Levar pra casa e fazer na janta
Porque era só isso que eles tinham pra comer
Mas eles se deram bem

Lá em Louisiana
Onde os crocodilos ficam tão malvados
Morava uma menina que juro
Fazia os crocodilos parecerem dóceis

Annie da salada Polk
Os crocodilos comeram a sua vovozinha
Todos disseram que foi uma pena
Pois mamãe trabalhava com correntes nos pés
Que mulher má, cruel

Todo dia antes da janta
Ela ia até a estradinha
E pegava um maço de Salada Polk
E levava pra casa numa sacola

Annie da salada Polk
Os crocodilos comeram a sua vovozinha
Todos disseram que foi uma pena
Pois mamãe trabalhava com correntes nos pés
Ooh que mulher mais miserável, malévola, durona, aproveitadora
Deus tenha piedade

Empurre um pouco de salada Polk pra ele
É, quer saber, é, é

Mas papai era preguiçoso e só café-com-leite
Dizia ter dores nas costas
Todos os seus irmãos estavam em boa forma
Para roubar melancias do meu camião

Uma vez a Annie da salada Polk
Os crocodilos comeram a sua vovozinha
Todos disseram que foi uma pena
Pois mamãe trabalhava com correntes nos pés

Empurre um pouco de salada Polk pra ele
Você sabe o que é uma boa intenção
Você empurra um pouco
Ei, ei, ei, é, é

Chic a bon, chic a bon, chic a bon bon bon bon
Chic a bon, chic a bon, chic a bon bon bon bon
Empurre um pouco de salada Polk pra ele
Você sabe o que é uma boa intenção
Empurre um pouco de salada Polk pra ele
Você sabe o que é uma boa intenção

Elvis Presley
Músico e Cantor Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«Uma Garota de Lindas Pernas», por Charles Bukowski.

«Uma Garota de Lindas Pernas»
BD/ Milo Manara

854- «UMA GAROTA DE LINDAS PERNAS»

A primeira vez que a vi foi num bar na rua Alvarado. Lisa era o nome. Na época eu tinha 24 anos e ela aparentava uns 35. Ela estava lá sentada no centro do bar e os dois bancos ao seu redor estavam vazios. Achei um tanto estranho não haver nenhum cara lhe penteando, tentando conseguir uma boa trepada.

Comparada com a maioria das mulheres que frequentavam  aquele antro, ela realmente bonita. Seu rosto era meio arredondado e seu cabelo aparentemente nada tinha de excepcional, mas havia uma espécie de quietude e paz no modo como se sentava. Algo confortante que só as pessoas em paz conseguem passar. Sentia também um pouco de tristeza e timidez no seu jeito de olhar.

Levantei de meu banco para ir ao banheiro e tanto na ida como na volta passei ao seu lado; dei uma boa olhada nela. Era pequena, miúda, um pouco atarracada, mas com ancas perfeitas, bem formadas. No entanto a parte mais exuberante de seu corpo eram as pernas: tornozelos roliços, barrigas de pernas perfeitas, joelhos que imploravam para serem tocados, quase gritando, e coxas maravilhosamente torneadas.

Era como se aquela parte de seu corpo não tivesse sentido o peso do tempo, enquanto o resto dele se definhara.

Seu queixo era redondo como uma rosca e seu rosto bastante fofo. Parecia estar bêbada.
Ela usava sapatos de salto alto, pretos e brilhantes; em seu braço esquerdo havia três pulseiras de ouro falsificado e vagabundo e um pouco acima do pulso uma escura pele de toupeira, ou outra porra qualquer morta. Fumava um cigarro comprido e seu olhar estava fixo no copo de bebida. Parecia estar tomando whisky junto com uma garrafa de cerveja pra suavizar o baque.

Voltei par ao meu banco, acabei com meu whisky e pedi outro ao barman. Quando ele trouxe a bebida eu perguntei-lhe sobre as lindas pernas.

— Oh! — Exclamou ele — é a Lisa.

— Ela é bem bonita, —  comentei —  por que nenhum dos homens se senta ao seu lado? 

— Isso é simples, — ele respondeu. — Ela é louca.

Depois disso retirou-se. Peguei o meu copo e fui até Lisa. Sentei-me no banco à sua esquerda, acendi um cigarro e tomei um gole da minha bebida. Eu já estava parcialmente bêbado. Peguei meu whisky e virei-o de uma só vez. Chamei o barman de novo:

— Repita a dose pra nós dois, e traga também duas cervejas.

Ao ouvir isso, Lisa acabou com sua bebida.

Quando as novas chegaram, cada um de nós tomou um gole do seu. Em seguida ficamos ambos olhando para o infinito.

Acho que alguns segundos se passaram até que ela disse:

— Não gosto das pessoas, e você?

— Também não.

Ela secou sua bebida e tomou um gole de cerveja. Fiz o mesmo.

— Sou louca — disse ela.

— Você é louco? Perguntou.

— Sim.

Chamei o barman.

— Eu pagarei a próxima — ela disse.

Encomendou as bebidas como se aquele acto fosse a coisa mais quotidiana em sua vida, como se fosse tudo que ela havia feito nos últimos dez anos ou quinze anos. Quando elas chegaram eu disse:

— Obrigado Lisa.

— É um prazer... Qual o seu nome?

— Hank.

— É um prazer, Hank.

— Tomou um gole e olhou pra mim de um jeito estranho.

— Você é louco o bastante pra quebrar o espelho de um bar?

— Acho que já fiz isso.

— Onde foi?

— O Orchoid Room.

— O Orchoid Room é um lugar estúpido e bobo.

— Não o frequento mais.

Em seguida, Lisa, num só gole, bebeu quase toda a garrafa e suspirou.

— Cara, eu vou quebrar o espelho deste bar.

— Vá em frente — eu sugeri.

Acabou com a bebida levantou-se e pegou a garrafa de cerveja vazia. Levantou-se e colocou-a atrás da cabeça.

Num impulso repentino eu saltei tentando segurar seu braço, mas foi tarde demais.

A garrafa de cerveja, em trajectória de arco, voou até o espelho enquanto minha mente disse rapidamente:

— Não, não, merda!

Houve um aguçado estrondo de coisas se partindo, e estilhaços de vidros voaram como gigantes pingentes de gelo. Por alguma razão estranha as luzes se apagaram.

Foi assustador, mágico e lindo.

Acabei com meu whisky.

No escuro vi algo branco se aproximar. Era o barman que se reduzira a camisa e avental. Estava se mexendo rapidamente.

— Sua puta louca! — ele gritou.

— Vou te matar!

Posicionei Lisa atrás de mim. Tacteei no escuro e achei a minha garrafa de cerveja. Quando o barman se aproximou dei sorte de acertá-lo na têmpora esquerda. No entanto, o desgraçado não caiu, ficou ali de pé no escuro com aquela roupa branca. Parecendo um desses porteiros de hotel chique esperando um táxi.

Passei a garrafa para minha mão esquerda e acho que pude sentir fracturar sua têmpora direita. Caiu em direcção ao balcão, mas se segurou com ambas as mãos em um dos cantos.

Ficou assim por alguns instantes para em seguida tombar em direcção à rua Alvarado.
Quando alcançou o chão as luzes se acenderam. Um sincronismo estranho, realmente.
Por um segundo parecia que todos no bar estavam congelados: os bêbados, eu, Lisa e o barman.

Em seguida eu berrei:

— “Vamos embora!”.

Agarrei Lisa pelo braço e a arrastei em direcção à saída. No instante seguinte estávamos num beco. Eu a puxava.

— Venha, venha rápido!

— Não consigo correr com estes horríveis saltos.

— Então tira essa porra — eu disse.

Ela parou, arrancou-os dos pés, passou-me um, ficou com o outro, e corremos atravessando o beco. Quando chegamos ao outro lado, olhei para trás. Não estávamos sendo perseguidos.

— Tudo certo. Coloque os sapatos.

Assim fez. Enfiou o primeiro, apoiou-se no meu ombro e enfiou o segundo. Ficou em pé balançando aquele rabo divino.

— Pronto, vamos!

— Pra onde? Ela perguntou.

— Pra minha casa.

— Estávamos no final do beco, perto de uma esquina. Vi um ónibus, ergui meu braço e fiz sinal: puxei Lisa. O motorista já havia fechado a porta, mas parecia ser um cara legal, e a reabriu. Entrei empurrando Lisa e paguei as passagens. Tentei fazer com que se sentasse mas não consegui, ela ficou de pé segurando no encosto do banco.

Olhou-me bruscamente. Através de seus olhos verdes percebi uma enorme irritação. Ela disse:

— Merda! Quero um táxi. Sou uma dama. Não ando nesta bosta de transporte.

Lisa parecia uma linda gazela bêbada e sua maravilhosa bunda balançava com o sacolejar do ónibus.

— Eu quero um táxi. Sou uma senhora. Que foda é essa?

— Bem, são só quatro quadras.

— Merda! — ela berrava — merda!

O próximo ponto era o nosso. Dei o sinal de parada. Na verdade apenas puxei aquela porra de fio. O ónibus parou. Peguei a mão de Lisa, passei meu braço pela sua cintura e ajudei-a a descer. Através da porta ainda aberta o motorista me olhou e disse:

—  Boa sorte cara. Vai precisar dela.

— Vá se foder, você está com inveja! — respondi.

Ele riu, fechou a porta e sumiu com o ónibus na escuridão da noite. Eu gostei dele, parecia ser um cara comum, apenas estava dirigindo aquela merda de lata velha tentando mudar a sorte. Simplesmente não dava, e algum dia iria desistir de tudo, assim como eu também.

Lisa aparentava estar cada vez mais bêbada, e eu também não estava nada bem. Eu lhe ajudava a andar com um dos meus braços em volta de sua cintura, e o outro segurando seu braço direito ao redor de meu pescoço. Suas lindas pernas estavam desistindo e se entregando.

— Você não tem uma porra de carro?

— Não.

— Você é um cuzão.

— Sim.

Aos poucos chegávamos perto de meu apartamento.

— Tem alguma coisa para beber lá em cima? Se não tiver eu não vou entrar nesse lugar.

— Muitas garrafas de vinho... as melhores.

— Estou doente — disse ela, e se inclinou para a esquerda.

Eu estava tão bêbado que não consegui segurá-la. Caímos. A sorte foi que havia uma cerca do nosso lado, despencamos em cima dela. Caí na folhagem, rolei para trás e acabei deitado de costas na calçada. Levantei e olhei para baixo. Lá estava Lisa, deitada ao luar; metade de seu corpo na cerca e a outra metade na calçada. Sua saia estava levantada expondo as pernas mais lindas do planeta. As pernas brilhavam pra mim. Fiquei pasmo como que se não acreditando no que via. Quase gozei. No entanto, logo voltei à realidade.

— Lisa! — eu disse —Lisa, por favor levanta,  acorda!

— Annh?

— A polícia vem vindo.

Consegui levantá-la e chegar à porta da frente do prédio. Fomos directamente para o elevador que já estava lá. Entramos. Enquanto a segurava, apertei o botão do meu andar. O troço fez um barulho e começou a subir.

— Sinto falta de meu filho. Quero meu bebé.

— É lógico que quer, — retorqui.

Tirei-a de lá e quando abri a porta do apartamento ambos caímos de novo.
Lisa se levantou, deu uma sacudida, arrumou sua saia, apanhou a bolsa e atravessou a sala para sentar numa cadeira.

Começou a fuçar ali dentro, digo, da bolsa, à procura de seus cigarros. De lá de fora, o néon mais vermelho de Los Angeles penetrava pela janela.

Abri uma garrafa de vinho para ela e a servi; ao som discreto e sedutor do esfregar de nylon, ela cruzou as pernas.

Na poltrona à sua frente, eu tinha outra garrafa. Já havia enchido meu copo. Esvaziei-o e tornei a enchê-lo.

Lisa olhou pra mim. Seus olhos foram ficando cada vez maiores. Parecia estar ficando doida, maluca. Então disse:

— Você pensa que é grande merda? Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?

Eu já estava de roupa íntima, cueca manchada e rasgada como sempre. Levantei. Dei um pulo e bati nas minhas coxas.

— Ei, você pensa que tem boas pernas? Olhe para estas.

Voltei para a poltrona e bebi mais meio copo. Ela simplesmente continuou olhando para mim daquela maneira. Seus olhos iam ficando maiores e maiores. Imensos.

— Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?

— Claro!

Ela se inclinou para pegar a garrafa de vinho, que já havia tampado e, enquanto me olhava com seus imensos olhos selvagens, elevou a garrafa até a cabeça. Aquela louca se preparava para atirar a porra da garrafa em mim. Berrei:

— Espere aí!

Ela ficou imóvel com o braço erguido. Tentei pensar rápido. Eu disse:

— Se você quiser atirar essa filha-da-puta, você pode, mas se você fizer isso é bom que me desmaie, caso contrário eu vou devolvê-la arrancando sua cabeça.

Colocou a garrafa no chão com aquele olhar louco. Suspirei aliviado. Fui até lá, destampei a garrafa, e enchi meu copo; depois fiz o mesmo com o seu. Voltei para a minha poltrona e me sentei. Sentia-me estranhamente bem.

— Agora quero que levante sua saia um pouco mais, sua puta.

Fiquei surpreso quando ela o fez. A saia estava agora duas polegadas acima de seu joelho.

— Agora me dá mais uma polegada. Nada mais do que isso.

Ela o fez.

Levantei-me e fiquei à sua frente. Cada curva e reentrância de seu corpo era estupendo. Eu morria de tesão. Seus sapatos reluziam.

— Torça seu tornozelo. Erga a perna um pouco, meu bem.

Lisa obedeceu.

— Agora pare aí!  — ela parou.

— Agora quero mais uma polegada, vamos!

Lisa levantou a sai mais um pouco.

— Aah!, assim, assim está bem!

Virei um bicho sedento, ajoelhei-me e acariciei suas pernas, enfiei a mão por entre as coxas e desci até aos joelho. Ela me olhou maliciosamente:

— Você é um estúpido fudido. Um maluco.

Peguei seu pé e beijei seu sapato de salto alto. Em seguida fui subindo até ao tornozelo.

— Você não é um assassino, é? — ela perguntou.

— Uma de minhas amigas foi amarrada por um cara aos pés de sua cama e o veado a esfaqueou. O cara ia retalhar ela todinha, mas ela gritou tão alto que os “ratos” ouviram e a salvaram. Você não é...

— Cala a boca!

Levantei e coloquei o pau para fora. Cuspi na palma da mão e comecei a massageá-lo.

— Você é uma puta fudida! — Eu disse.

Continuei a me esfregar com naturalidade. Não tinha nada a perder.

— Outra polegada, mostre-me outra polegada!

Continuei esfregando.

— Mais, mostre-me mais, mais!

Era o segredo e o truque e a penetração. A amplitude dos sentidos.

— Ahhh, meu Deus, consegui!

A substância branca e pastosa jorrou; era o alívio de anos de frustração e solidão. À medida que eu expelia aquela gosma branca sobre suas pernas de nylon, parecia sentir em cada gota a angústia dos excluídos, dos esquecidos e do triste ser que eu era.

Ela berrou e deu um pulo.

— Seu porco! Seu porco fudido, idiota!

Lisa correu até o banheiro. Peguei a ponta de minha camisa e me limpei com ela. Voltei para a poltrona, enchi um copo e acendi um cigarro. As coisas pareciam ter algum sentido agora.

Lisa voltou do banheiro, sentou-se e se serviu de um copo. Acendeu um cigarro, e deu um trago profundo nele. Soltou a fumaça devagar. Sua voz sobressaiu-se por detrás da nuvem branca.

—  Seu pobre miserável fudido!

— Eu te amo, sua puta! — Eu disse.

Ela virou o rosto para  a parede.

Mal eu sabia que era o começo dos dois anos mais miseráveis e fortalecedores de minha vida.

— Esta é a única bebida que tem aí para oferecer? Este vinho fudido e barato?

— Não é tão ruim assim, Lisa. O que eu faço quando bebo é pensar em algo bem agradável como cachoeiras, ou uma conta bancária de quinhentos dólares. Ou às vezes eu imagino que estou num castelo com um fosso em volta. Ou ainda, finjo ser o dono de uma casa de bebidas finas.

— Você é louco, cara! — Ela disse.

E estava absolutamente certa.

Charles Bukowski