quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Plágio», conto poético por Matias José.
«Plágio»
Décima por Matias José

699- «PLÁGIO»

Diz o poeta Armindo Loureiro:
«- BOM DIA… Sem plágios!»
Esses maus presságios
Não usam tinta no tinteiro.
Assim age o pantomineiro
Que nos pretende enganar,
Acaba sempre por se lixar
Cedo ou tarde é caçado…
Vive uma vida enganado
Quem só sabe plagiar! 

Matias José

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

SÁTIRA...

À Procura de um Líder
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HenriCartoon

«À PROCURA DE UM LÍDER»

Procura-se um substituto
Pró Tortas poder zarpar,
É difícil de encontrar
Um abutre tão astuto!
O CDS está de luto
Ficou órfão de pai,
Coisa boa não sai
Dos fundilhos do saco…
O rato abandona o barco,
E o CDS a pique cai!

POETA

OUTROS CONTOS

«Legenda para a Vida de um Vagabundo», conto poético por Joaquim Namorado.

«Legenda para a Vida de um Vagabundo»
O Vagabundo/ Charlie Chaplin

698- «LEGENDA PARA A VIDA DE UM VAGABUNDO»

Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.

Joaquim Namorado

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(30 de Dezembro de 2004, morre o clarinetista, compositor, director de orquestra de jazz e escritor, uma das mais ilustras figuras da era do «swing», Artie Shaw)

ARTIE SHAW
«Smoke Gets in Your Eyes»

Poet'anarquista

Artie Shaw
Clarinetista e Compositor Norte-Americano

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

SÁTIRA...

À Mãe não se Mente
HenriCartoon

«À MÃE NÃO SE MENTE»

De mãe pra filho: - meu querido,
É definitiva essa tua decisão
De não teres a mínima intenção
De te recandidatares ao partido?

- Ólarila, querida mãezinha!...
Está na hora, ala que se faz tarde!!
Ninguém acredita, mas é verdade
Que resolvi mudar de vidinha.

- Mentir à mãe é muito feio!…
Juras pelo ego solenemente
Que a outra jogada és alheio?

Como sou um filho instável,
Não afirmo definitivamente…
Digo apenas ser irrevogável.

POETA

SÁTIRA...

Para 2016 Eu Quero...
HenriCartoon

 «PARA 2016 EU QUERO…»

- Zé, já fizeste os pedidos
Para dois mil e dezasseis?...
Desejos não são proibidos,
Sonho que vamos ser Reis!

- Só preciso dum emprego
Com muita estabilidade,
Onde possa ter sossego
E futuro de prosperidade…

- Zé, estás a pensar emigrar?...
Esse desejo é um pecado,
Aqui não é permitido sonhar!

- Neste pobre país aprisionado,
Nada mais posso desejar…
Profissão... desempregado!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Um Falcão no Punho», por Maria Gabriela Llansol.

«Um Falcão no Punho»
Escritora Portuguesa

697- «UM FALCÃO NO PUNHO»

[Excerto]

Seguindo o meu olhar até aos lábios de Bach, há sempre um espaço subterrâneo, uma fala que perscruta a sua boca aberta.

Baixo os olhos sobre as claridades cintilantes, enamoradas, visualizo um volume que, na minha língua, deve ter um nome. Procuro então um outro volume para que não encontro palavras, ou superfície e imagem: água livre, nem de rio, nem de mar, nem de lago, nem de nevoeiro, água repleta de silêncio no momento do fogo, ou talvez clima vulcânico no centro das terras.

Designações sobrepostas de múltiplas línguas voltam à unidade, é a explosão do nascimento do tempo; é o seu princípio de fuga estelar no seio das criaturas; (levanta-se uma brisa, sua descrição é impensável para além de uma meditação de neblina).

É uma visão de deleite tão intenso que fios de água escorrem por entre o fogo, que é circundante e leve. Ali estão compreendidos os seres vivos desde o início dos séculos ao fim das carreiras mortais e, sobre eles, os seres mortos não se distinguem da palpitação consumitiva: meus companheiros vêem por mim, a quem eu cerro as pálpebras; acordo abrindo os olhos.

Maria Gabriela Llansol

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SÉRGIO GODINHO - «Eu Contigo»

Poet'anarquista

EU CONTIGO

Eu, contigo
eu consigo
fazer o que digo

Eu, contigo
eu não cobro
eu não pago
e eu não devo

Devo dizer-te ao ouvido
eu sem ti
não tem sentido
tem sido
(devo dizer-te ao ouvido)
bem bom
bem bom bem bom
bem mais
do que o que é bom
bem bom bem bom

Sérgio Godinho
Músico, cantor e compositor Português

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«O Paraíso», conto poético por Olavo Bilac.

«O Paraíso»
Pintura de Jean Leon Gerome

696- «O PARAÍSO»

A pálida Ramona
É uma formosa dona, 
Moça e cheia de encantos:
Tem a graça e a malícia do Demónio...
E, aos vinte anos, uniu-se em matrimónio
Ao Chilperico Santos.

Ornou-lhe a fronte de gentis galhadas...
E, quando ele, entre as gentes assustadas,
Passava assim, — que sustos e que espantos!
Por fim, morreu... foi pena!
- E a viúva, serena,
Casou de novo... com Silvério Santos.

Fez o mesmo ao segundo que ao primeiro,
E, louca, ao mundo inteiro
Andava namorando pelos cantos...
Ele morreu. E a pálida senhora,
Serena como outrora,
Casou... com Hermes Santos.

Fez ao terceiro o mesmo que ao segundo...
Depois dele, casou com Segismundo
Santos... Depois, sem lutos e sem prantos,
Sem se lembrar dos pobres falecidos,
Foi tendo por maridos
Uns onze ou doze Santos!

Ninguém jamais teve maridos tantos!
Mulher nenhuma teve menos siso!
E, por ter enganado a tantos Santos,
Quase, com seus encantos,
Converteu num curral o Paraíso...

Olavo Bilac

MÚSICAS DO MUNDO

E  a música de hoje é...

MAURICE RAVEL - «Bolero»

Poet'anarquista

Maurice Ravel
Compositor e Pianista Francês

domingo, 27 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«O Regresso», conto poético por Matias José.

No expresso Lisboa-Évora, com ligação a Beja, viajava um casal de idosos nos dois lugares à nossa frente. A coisa, mais ou menos, passou-se assim:

«O Regresso»
Conto de Natal

695- «O Regresso»

A voz alta, bem estridente,
 Qualquer orelha desperta:
- Acabou de sair a camioneta,
Chega a Beja a hora decente!

Eu bem avisei, ó Zé Mateus
Que não fizesses festas ao gato…
Cheio de pêlo tens todo o fato,
Até a boina, valha-te Deus!

Não serves de nada, homem,
A não ser pra dares trabalho…
Se eu contigo não ralho,
Nunca mais entras na ordem!

De passagem por Montemor
P’la vidraça curiosa espreita,
Mas não vê qualquer tabuleta…
- Antes sabia o caminho de cor!

- Évora, senhor passageiro,
Ouve-se no micro anunciar...
- Segue pra Beja sem tardar!
Fica a velha no apeadeiro....

Alguém resolve prestar auxílio,
Encaminha-a ao recepcionista…
Comunica então ao motorista
Que ficou uma velha no exílio.

- Parece mentira, diz a velha…
Então eu sou alguma gaiata?
Chegavam a Beja sem dar falta
Que tinham menos uma ovelha!

Matias José

sábado, 26 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(De regresso a casa, festejando o Natal de 26 de Dezembro de 2015)

QUEEN - «Thank God It's Christmas»

Poet'anarquista

GRAÇAS A DEUS, É NATAL
                             
Oh meu amor nós tivemos nossa parte de lágrimas
Oh meu amigos nós tivemos nossas esperanças e medos
Oh meus amigos esse foi um longo e árduo ano
Mas agora é Natal
Sim é Natal
Graças a Deus, é Natal

A lua e as estrelas parecem terrivelmente frias e brilhantes
Vamos esperar a neve fazer esse Natal verdadeiro
Meu amigo o mundo fará parte dessa noite especial
Porque é Natal
Sim é Natal
Graças a Deus, é Natal
Por uma noite

Graças a Deus, é Natal sim
Graças a Deus, é Natal
Graças a Deus, é Natal
Pode ser Natal?
Deixe ser Natal
Todo dia

Oh meu amor nós temos vivido em dias confusos
Oh meu amigo nós temos os caminhos mais estranhos
Todos os meus amigos nesse dia dos dias
Graças a Deus, é Natal
Sim é Natal
Graças a Deus, é Natal
Por um dia

Graças a Deus, é Natal
Sim é Natal
Graças a Deus, é Natal
OOh sim
Graças a Deus, é Natal
Sim sim sim sim é Natal
Graças a Deus, é Natal
Por um dia

Queen
Banda Britânica

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JEFFERSON AIRPLANE - «White Rabbit»

Poet'anarquista

COELHO BRANCO

Uma pílula deixa você maior
E uma pílula deixa você pequeno
E as que sua mãe te dá
Não fazem efeito algum
Vá perguntar à Alice
Quando ela estiver com dez pés de altura

E se você for perseguir coelhos
E você souber que irá cair
Diga a eles que uma lagarta fumando narguilé
Lhe convocou
Chame Alice
Quando ela era apenas pequena

Quando os homens no tabuleiro de xadrez
Levantarem e te disserem para onde ir
E você acabou de comer um tipo de cogumelo
E sua mente está se movendo devagar
Vá perguntar à Alice
Eu acho que ela saberá

Quando lógica e proporção
Tiverem caído por terra
E o Cavaleiro Branco estiver falando ao contrário
E a Rainha Vermelha com o seu, "Cortem-lhe a cabeça!"
Lembre-se do que o rato silvestre disse
"Alimente sua mente
Alimente sua mente"

Jefferson Airplane
Banda Norte-Americana

OUTROS CONTOS

«O Senhor Palha», conto de William J. Bennett.

«O Senhor Palha»
Conto de William J. Bennett

694- «O SENHOR PALHA»

Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha. Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo. Ora o Senhor Palha não tinha sorte. Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha. Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.

Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia. Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:

— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna.

O Senhor Palha apanhou um susto. Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado e que o templo estava vazio. Mesmo assim, saiu a pensar: “Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?” Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte. Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra. Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão. Era um fio de palha.

“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas, se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”

E lá foi ele, com a palha na mão.

Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele. Tentou afastá-la, mas não adiantou. A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele. “Muito bem”, pensou ele. “Se não queres ir embora, fica comigo.” Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda. Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou a descer a rua com a libélula presa à palha. 

Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho pequenino, para vender as suas flores. Vinham de muito longe. O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar. Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.

— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!

“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte. Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente mais feliz com um pequeno presente.” E deu ao menino a libélula presa à palha.

— É muita bondade sua — disse a florista. — Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa. Aceita?

O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa. Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore, segurando a cabeça entre as mãos. Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido.

— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz. — Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.

— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha. — Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua.

O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.

— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem. — É só o que posso dar-lhe em troca.

O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas. Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça.

— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto. — Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta sede que acho que vou desmaiar. Preciso de um gole de água.

— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha. — Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.

O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:

— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.

E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho, com o rolo de seda debaixo do braço.

Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem. Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.

— Onde arranjou essa seda? — gritou ela. — É justamente aquilo de que estou à procura. Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.

— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda — disse o Senhor Palha.

A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.

— O senhor é muito generoso — disse sorrindo. — Por favor, aceite esta jóia em troca.

A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada e agora tenho uma jóia. Sinto-me contente.”

Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz. Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz. Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.

Mas a riqueza não o modificou. Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam. Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha, mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?

William J. Bennett

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

SÁTIRA...

O Activo Tóxico
HenriCartoon

«O ATIVO TÓXICO»

O Banif não esqueceu
A minha prenda de Natal,
Uma máscara especial
Nesta quadra… julgo eu (?)
A vergonha já morreu…
Vale tudo sem ela,
Mazela, atrás de mazela
Estamos na ruína…
Tal não é a nossa sina,
Pagam todos por tabela!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

PROCOL HARUM - «Grand Hotel»

Poet'anarquista

GRANDE HOTEL

Esta noite dormimos em folhas de seda
Nós bebemos um bom vinho e comemos carnes raras
No jogo do carrossel e jogos de azar
Nossa velocidade e fortunas dissipam.
É à luz de velas e candelabros,
É placa de prata e cristal transparente.
As noites ficamos no Grande Hotel

Hoje à noite jantamos no Hotel Ritz.
(Um prato de ouro com todos os desejos).
É paredes espelhadas, e cortinas de veludo,
Champagne seco e uvas estourando.
Dover sole e Oeufs Mornay,
Profiteroles e Peach Flambe,
A dança garçons na ponta dos dedos
As noites que jantar no Hotel Ritz

Mais um brinde para saudar o amanhecer
O jantar e beber vinho e ter dançado até o amanhecer
Onde está minha noiva Continental?
Vamos Continental escorregar e deslizar
Pitada de manhã cedo e morder -
(Essas meninas francesas sempre gostam de lutar)
É serenata e Sarabande,
As noites ficamos no Grande Hotel
As noite que passamos no Hotel Grande.

Procol Harum
Banda Britânica

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Seres Humanos», conto poético por Adrian Mitchell.

«Seres Humanos»
Salão de Dança em Arles/ Van Gogh

693- «SERES HUMANOS»

olha para as tuas mãos
bonitas e úteis as tuas mãos
não és um macaco
não és um papagaio
não és um paulatino lóris
nem um míssil inteligente
tu és humano

não britânico
não americano
não israelita
não palestiniano
tu és humano

não católico
não protestante
não muçulmano
não hindu
tu és humano

todos começamos humanos
e acabamos humanos
humanos no princípio
humanos no fim
somos humanos
ou não somos nada

nada senão bombas
e gás venenoso
nada senão armas
e torturadores
nada senão escravos
da Ganância e da Guerra
se não formos humanos

olha para o teu corpo
com os seus assombrosos sistemas
de redes de nervos e canais de sangue
pensa na tua mente
que pode pensar em si própria
e em todo o universo

olha para o teu rosto
que pode tolher-se de pavor
ou derreter-se de amor
olha para toda essa vida
toda essa beleza
tu és humano
eles são humanos
somos humanos
vamos tentar ser humanos

dançar!

Adrian Mitchell

domingo, 20 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(20 de Dezembro de 1980, morre o compositor e intérprete da guitarra portuguesa, 
Artur Paredes)

ARTUR PAREDES - «Balada de Coimbra»

Poet'anarquista

Artur Paredes
Grande Mestre da Guitarra Portuguesa

SÁTIRA...

Distribuição de Fruta
HenriCartoon

«DISTRIBUIÇÃO DE FRUTA»

Nas eleições em Espanha
As sondagens são proibidas
Na última semana de campanha,
Mas nas redes sociais admitidas

Se os partidos e os políticos
Forem trocados por peças de fruta…
Assim toda a malta disfruta
Dos resultados contabilísticos.

Quais seriam as alternativas
Das frutas com representação
Nas nossas últimas legislativas?

 Os da esquerda fruta à descrição
Que é bom prás papilas gustativas…
Os da direita, um enorme melão!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Embuste», conto poético por Matias José.

«O Embuste»
Décima de Matias José

692- «O EMBUSTE»

Ouve bem, amigo...
Vou ser presidente,
Engano muita gente,
Sou eu que o digo.
Mas se não consigo
Regresso logo à TV,
Vá-se lá saber porquê
Chamam-me Martelo...
Fui amigo do Marcelo,
Então não se vê?

Matias José

sábado, 19 de dezembro de 2015

SÁTIRA...

Zé vai ao Psicólogo
HenriCartoon

«ZÉ VAI AO PSICÓLOGO»

- Doutor, ando preocupado
Com a minha saúde mental,
Uma reação pouco habitual
Quando fico emocionado…

O governo anuncia pacote
E oferece prosperidade…
Uma Justiça de verdade,
Parece estar dado o mote!

E eu, em vez de ficar feliz,
Vivo com esta preocupação
De puder voltar a ser infeliz.

- O caso é de difícil solução…
Mas qualquer coisa me diz
Que não deixa de ter razão.

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE POGUES - «Fairytale of New York»

Poet'anarquista

CONTO DE FADAS DE NOVA YORK

Era véspera de Natal babe
Estava dentro do tanque embriagado
E um velho homem me disse: para não olhar pra outra pessoa
E em seguida cantou uma música
A montanha orvalhada, velha e antiga
Eu virei o rosto
E sonhei com você

Tem adiante muita sorte
Veio as dezoito pra uma
Eu tenho um pressentimento
Este ano para mim e para você
Então, feliz Natal
Eu amo você, querida
Eu posso enxergar um tempo melhor
Quando todos nossos sonhos se tornaram verdade

Eles tem limusines com bares
Eles tem rios de ouro
Mas o vento vai para a direita através de você
E não há lugar velho
Quando você pegou minha mão
Numa noite fria de natal
Você me prometeu
Broadway estava esperando por mim

Você estava elegante
Vocês foram atraentes
Rainha da Cidade de Nova Iorque
Quando a banda termina de tocar
Eles uivavam por mais
Sinatra estava balançando
Todos os bêbados estavam cantando
Nós nos beijamos na esquina
Depois dançamos pela noite

Os meninos do coral da NYPD
Estavam cantando "Galway Bay"
E os sinos estavam soando
Para o dia de Natal

Você é um vagabundo
Você é uma prostituta
Você é uma puta velha no lixo
Deitado quase morto numa goteira na cama
Você bobo, você verme
Você ordinário, nojento, bicha
Feliz Natal seu imbecil
Peço a Deus é o nosso fim

Os meninos do coral da NYPD
Estavam cantando "Galway Bay"
E os sinos estavam soando
Para o dia de Natal

Eu poderia ter sido alguém
Bem, então alguém poderia
Você tomou meus sonhos de mim
Quando te encontrei pela primeira vez
Eu os mantive comigo, querida
Eu os coloquei junto dos meus
Não posso fazer tudo sozinho
Eu construí meus sonhos em torno de você

Os meninos do coral da NYPD
Estavam cantando "Galway Bay"
E os sinos estavam soando
                                                      Para o dia de Natal                                                  

The Pogues
Banda Irlandesa

OUTROS CONTOS

«O Canto de Orge», conto poético por Bertolt Brecht.

«O Canto de Orge»
Toulouse- Lautrec Cagando na Praia

691- «O CANTO DE ORGE»

Dizia-me Orge:

1
O lugar na terra que amamos mais
Não é a relva do túmulo dos nossos pais.

2
Dizia-me Orge: para mim o lugar que
Se deve desejar será sempre o W.C:

3
Nesse lugar é permitida a cada um a alegria
De ter por cima a estrela, e, por baixo, a porcaria.

4
Lugar admirável onde se
Pode adulto ficar só.

5
Lugar de humildade: nele saberás bem
Que não passas de um homem que nada retém.

6
Lugar onde um corpo que no assento repousa
Faz com força e doçura por seu bem qualquer cousa.

7
Lugar de sabedoria onde podes com lazer
Preparar a tua pança para muito outro prazer.

8
Nele te darás conta do que realmente és:
Um pobre tipo que come… nos WW.CC.

Bertolt Brecht

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

OUTROS CONTOS

«Acto Um», conto poético por George Alexander Portillo.

«Acto Um»
Conto Poético de Portillo

690- «ACTO UM»

A tarde é o seu crepúsculo. Sobre os altos pinheiros, 
idosos como o mundo, é tarde feminina 
e em sua parte traseira é uma juba de óleo brilhando 
onde as mais puras quedas vermelhas até douram, 
sépia um pouco mais tarde, até depois de escurecer. 
Pouco antes da sombra é que encontra a sua beleza. 
Nada é o que parece: quando o seu corpo jovem 
falta, o mistério convida a possuir, 
mas está morrendo e cresce dentro dela uma delícia 
que brilha a partir das faces que ela enegrece.

George Alexander Portillo


MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

TCHAIKOVSKY - «Swan Lake»

Poet'anarquista

Tchaikovsky
Compositor Russo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Cena Final
HenriCartoon

«CENA FINAL»

- Consumada a separação
Deixo-te, mas não chores…
Agora seremos os piores
Com acento na oposição.
- Se não é na governação
Vou mudar-me pra Paris,
A direita que sempre quis
Foi rejeitada em Portugal…
- Deu-se então a cena final,
Cortou-se o mal p’la raiz!

POETA

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E  a música especial de hoje é...

BEETHOVEN
«Sinfonia No. 5 In C Minor Op. 67 Part 1»

Poet'anarquista

Ludwig van Beethoven
Compositor Alemão

OUTROS CONTOS

«Teorema», por Herberto Hélder.

«Teorema»
Conto de Herberto Hélder

689- «TEOREMA»

Ao Dr. Ernesto Gonçalves
         
El-Rei D. Pedro, o Cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste no meio do tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pêlos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com simpatia. Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o. Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri.
           
— Preparem-me esse coelho, que tenho fome.
         
 O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
        
 O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas da gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo que cidades e lugarejos apreciaram.
         
Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor. Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo no rés-do-chão o letreiro da Barbearia Vidigal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta ver o meu suplício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.
         
— Senhor, — digo eu — agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto
era preciso, para que o teu amor se salvasse.
      
  — Muito bem — responde o rei. —Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-mo.
        
De novo me ajoelho e vejo os pés dos carrascos de um lado para o outro. Distingo as vozes do povo, a sua ingénua excitação. Escolhem-me um sítio das costas para enterrar o punhal. Estremeço de frio. Foi o punhal que entrou na carne e cortou algumas costelas. Uma pancada de alto a baixo do meu corpo, e verifico que o coração está nas mãos de um dos carrascos. Um moço do rei espera com a bandeja de prata batida estendida sobre a minha cabeça, e onde o coração fumegante é colocado. A multidão grita e aplaude, e só o rosto de D. Pedro está triste, embora, ao mesmo tempo, se possa ver nele uma luz muito interior de triunfo. Percebo como tudo isto está ligado, como é necessário que todas as coisas se completem. Ah, não tenho medo. Sei que vou para o inferno, visto que sou um assassino e o meu país é católico. Matei por amor do amor — e isso é do espírito demoníaco. O rei e a amante também são criaturas infernais. Só a mulher do rei, D. Constança, é do céu. Pudera, com a sua insignificância, a estupidez, o perdão a todas as ofensas. Detesto a rainha.
         
O moço sobe a escada com a bandeja onde o meu coração é um molusco quente e sangrento. Vê-se D. Pedro voltar-se, a bandeja aparecer perto do parapeito da janela. O rei sorri delicadamente para o meu coração e levanta-o na mão direita. Mostra-o ao povo, e o sangue escorre-lhe entre os dedos e pelo pulso abaixo. Ouvem-se aplausos. Somos um povo bárbaro e puro, e é uma grande responsabilidade estar à frente de, um povo assim. Felizmente o nosso rei encontra-se à altura do seu cargo, entende a nossa alma obscura, religiosa, tão próxima da terra. Somos também um povo cheio de fé. Temos fé na guerra, na justiça, na crueldade, no amor, na eternidade. Somos todos loucos.

Tombei com a face direita sobre a calçada e, movendo os olhos, posso aperceber-me de um pedaço muito azul de céu, acima dos telhados. Vejo uma pomba passar em frente da janela manuelina. O claxon de um carro expande-se liricamente no ar. Estamos nos começos de Junho. Ainda é primavera. A terra está cheia de seiva. A terra é eterna. À minha volta dizem obscenidades. Alguém sugere que me cortem o pénis. Um moço vai perguntar ao rei se o podem fazer, mas este recusa.

— Só o coração — diz. E levanta de novo o meu coração, e depois trinca-o ferozmente. A multidão delira, aclama-o, chama-me assassino, cão, e encomenda-me a alma ao Diabo. Eu gostaria de poder agradecer a este meu povo bárbaro e puro as suas boas palavras violentas.

Um filete de sangue escorre pelo queixo de D. Pedro, e vejo os seus maxilares movendo-se ligeiramente. O rei come o meu coração. O barbeiro saiu do estabelecimento e está a meio da praça com a sua bata branca, o seu bigode louro, vendo D. Pedro a comer o meu coração cheio da inteligência do amor e do sentimento da eternidade. O marquês Sá da Bandeira é que ignora tudo, verde e colonialista no alto do seu plinto de granito. As pombas voam à volta, pousam-lhe na cabeça e nos ombros, e cagam-lhe em cima. D. Pedro retira-se, depois de dizer à multidão algumas palavras sobre crime e justiça. Aclama-o o povo mais uma vez, e dispersa. Os soldados também partem, e eu fico só para enfrentar a noite que se aproxima. Esta noite foi feita para nós, para o rei e para mim. Meditaremos. Somos ambos sábios à custa dos nossos crimes e do comum amor à eternidade. O rei estará insone no seu quarto, sabendo que amará para sempre a minha vítima. Talvez que a sua inspiração não termine aí, e ele se torne cada vez mais cruel e mais inspirado. O seu corpo ir-se-á reduzindo à força de fogo interior, e a sua paixão será sempre mais vasta e pura. E eu também irei crescendo na minha morte, irei crescendo dentro do rei que comeu o meu coração. D. Inês tomou conta das nossas almas. Ela abandona a carne e torna-se uma fonte, uma labareda. Entra devagar nos poemas e nas cidades. Nada é tão incorruptível como a sua morte. No crisol do Inferno manter-nos-emos todos três perenemente límpidos. O povo só terá de receber-nos como alimento, de geração 
para geração. E que ninguém tenha piedade. E Deus não é chamado para aqui.

Herberto Hélder

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

VIACHESLAV GROHOVSKI- «Waltzes»
Chopin - Op. 70: No. 2 in Minor

Poet'anarquista

Waltzes
Viacheslav Grohovski Interpreta Chopin

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

AMÁLIA - «Estranha forma de Vida»

Poet'anarquista

ESTRANHA FORMA DE VIDA

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade,
Que todos os ais são meus,
Que é toda minha saudade,
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração,
Vive de vida perdida,
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida

Coração independente,
Coração que não comando,
Vive perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente,

Eu não te acompanho mais.
Pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais.


Amália Rodrigues
Diva do Fado Português

OUTROS CONTOS

«O Cigarro», conto poético por Matias José.

«O Cigarro»
Décima de Matias José

688- «O CIGARRO»

Mãos calejadas no ofício
E mortalha entre os dedos,
Por eles passam segredos
Que enrolam tamanho vício.
Uma pausa sem desperdício
Pra aliviar da monotonia,
Seja à noite ou de dia
É muito antigo este ritual…
O fumador habitual
Faz do cigarro companhia!

Matias José

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE CLASH - «London Calling»

Poet'anarquista

 LONDRES CHAMA

Chamada de Londres para as cidades distantes
Agora aquela guerra está declarada e a batalha começa
Chamada de Londres para o submundo
Saiam das tocas garotos e garotas
Londres chama, agora não olhem pra nós
Toda aquela falsa Beatlemania comeu poeira
Londres chama, veja nós não temos balanço (swing)
Exceto pelo som do cacetete

A era do gelo está vindo o sol está sumindo
Degelo é esperado e o trigo está nascendo fino
Máquinas param de funcionar, mas eu não tenho medo
Pois Londres está afundando e eu vivo perto do rio

Londres chama para a zona de imitação
Esqueça-o, irmão, você pode ir sozinho
Chamada de Londres para os zumbis da morte
Desista de resistir e dê outro suspiro
Londres chama, e eu não quero gritar
Mas quando estávamos conversando eu vi você cochilando
Londres chama, veja nós não temos auges
Exceto por aquele com os olhos amarelados

A era do gelo está vindo o sol está sumindo
Degelo é esperado e o trigo está nascendo fino
Máquinas param de funcionar, mas eu não tenho medo
Pois Londres está afundando e eu vivo perto do rio

Agora se ligue nisso
Londres chama yeah, eu estava lá também
E vocês sabem o que eles disseram?
Bem, algo ali era verdade
Londres chama no topo do dial
Depois de tudo isso você não vai me dar um sorriso?
Londres chama
Nunca me senti tão igual

The Clash
Banda Britânica