quinta-feira, 30 de abril de 2015

CARTOON versus QUADRAS

A Lei das Probabilidades
HenriCartoon

«A LEI DAS PROBABILIDADES»

O quê?... eu candidatar-me
A Presidente da Nação?
É mais provável matar-me
Nave russa em contra-mão…

Porra!... quem foi o cabrão
Que resolveu contrariar-me?...
Estava apenas na mangação,
Mas alguém quer eliminar-me!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(30 de Abril de 1983, morre o compositor, cantor de Blues e guitarrista norte-americano, 
de grande influência na música popular moderna, Muddy Waters)

Muddy Waters
Músico de Blues Norte-Americano

MUDDY WATERS - «Manish Boy»
Mannish Boy by Muddy Waters on Grooveshark
Poet'anarquista

RAPAZ MASCULINIZADO

Oh yeah, oh yeah.
Tudo vai ficar bem esta manhã.

Agora, quando eu era menino,
Na idade de cinco anos.
Minha mãe disse que eu seria,
O maior homem vivo.
Mas, agora eu sou um homem,
Eu fiz 21.
Eu quero que você acredite em mim, mel,
Nós estamos tendo muita diversão.

Eu sou um homem,
Um feitiço
Bem dentro do homem.
Uma criança
Aquele mágico menino masculinizado.

Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.
Eu sou um homem, eu sou uma pedra rolando.
Eu sou um homem, eu sou um Hoochie Coochie Man.

Sentado do lado de fora,
Era só eu e meu companheiro.
Eu fiz a mudança,
Ele veio com duas horas de atraso.

Eu sou um homem
Um feitiço
Bem dentro do homem.
Uma criança
Aquele mágico menino masculinizado.

Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.
Eu sou um homem, eu sou uma pedra rolando.
Eu sou um homem, eu sou um homem maduro.

Oh bem, oh bem...

Muddy Waters

OUTROS CONTOS

«A Esquina», por Ondjaki.
«A Esquina»
Conte de Ondjaki

491- «A ESQUINA»

Em [...], numa data social em que a vida por si só se tornou difícil e azeda, um homem de meia-idade inventou uma profissão para si mesmo. No sorriso da sua descoberta, pintou de verde-escuro um banco pequenino, passou a manhã esperando que o sol ausente o secasse com a temperatura possível. Engomou o fato castanho e escolheu aleatoriamente uma das muitas esquinas da cidade. Num cartão pequeno escreveu à máquina: "tiram-se dúvidas".

Resistiu pacientemente aos primeiros vinte e três dias em que ninguém caiu na tentação de lhe fazer uma pergunta que fosse. É sabido que as pessoas paravam para ler o cartão, e que sorriam ou  acenavam, cumprimentando-o. Está escrito que ele ripostava com a agradabilidade do seu sorriso curto, cordial, calmo.  No vigésimo quarto dia uma criança sentou-se no chão ao pé dele. Ao fim de algum tempo, sorriu. O homem também sorriu. A criança, miopemente, soletrou com a boca e os olhos: ti-ram-se dú-vi-das... Fechou o seu sorrisinho e olhou-o intrigada. Quando se preparava para murmurar algo, ou quando o homem se preparava para murmurar algo de volta, um senhor prostrou-se em frente ao banquinho, à mesinha, à criança, aos seus sorrisos parecidos.

Não havia preços. O certo é que a criança todos os dias sentava ali, o homem todos dias lá ia, as pessoas apareciam com mais frequência. A esquina ficou conhecida como esquina da dúvida, onde ainda hoje todos os cafés tem pinturas ou esculturas do homem, o banco, a mesa, o cartaz e a criança ao lado - no chão.

Se chovia retiravam-se para um parapeito. Se fazia vento aconchegavam as pernas um no outro. De longe, o que se via era o sorriso calmo, cordial, curto do homem intercalado com palavras poucas, mansas. As pessoas sorrindo se afastavam.

Numa tarde fria, bela, chegaram a acumular-se três pessoas para tirarem dúvidas. Quando o homem disso se apercebeu, enternecido, olhou a criança. A criança, supreendida com aquele olhar extenso, olhou o cartaz. Soletrou mais alto do que da primeira vez, para que todos na fila ouvissem: ti-ram-se dú-vi-das...

O tirador de dúvidas afagou o menino. Disse-lhe um segredo: dúvida é quando não sabemos bem alguma coisa. O menino enxugou o ranho transparente do seu lábio, sorriu, procurou a orelha peluda do homem:dúvida é amanhã?

Mãos dadas, dúvida virou nome de esquina.

Ondjaki

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

The Fumes
Banda Britânica

THE FUMES - «The Dogs»

OUTROS CONTOS

«Romance do Homem da Boca Fechada», conto poético por Jaime Cortesão.

«Romance do Homem da Boca Fechada»
Conto Poético de Jaime Cortesão

490- «ROMANCE DO HOMEM DA BOCA FECHADA»

– Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
– Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia…
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
– Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
– Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
– Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
– Mais vale morrer com honra,
Do que vida desonrada!

– A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
– Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
– Antes que fale emudeça! –
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.

Jaime Cortesão

terça-feira, 28 de abril de 2015

CARTOON versus QUADRA

Mandarim
HenriCartoon

«MANDARIM»

- Pai, o Chato quer implementar
Mandarim na escola secundária…
Que achas tu dessa ideia primária?
- Mais outra merda, pra não variar!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(28 de Abril de 2007, morre o saxofonista de jazz norte-americano, Tommy Newsom)

Tommy Newsom
Músico de Jazz Norte-Americano

TOMMY NEWSOM - «All Alone»

OUTROS CONTOS

«O Caminho do Guerreiro», por Carlos Castaneda.

«O Caminho do Guerreiro»
Guerreiro Grego (570 a. C.)

489- «O CAMINHO DO GUERREIRO»

[Excerto de Viagem a Ixtlan]

Para converter-se em um sábio, é necessário transitar pelo caminho do guerreiro.

Um guerreiro não é alguém que vai à guerra matar pessoas e sim aquele que demonstra integridade em todas as suas ações e um controle sob sua própria pessoa.

Um guerreiro vive cada momento de sua vida, sem orientar-se pela complacência ou pelo lamento, sem ganhar ou perder, está sempre alerta e lúcido a tudo que o rodeia. Age com abandono de si mesmo com maneira impecável.

A maneira mais eficaz de se viver é como o guerreiro. Um guerreiro pode se preocupar e pensar antes de tomar sua decisão, mas uma vez que a tomou, segue seu caminho, livre de preocupações e pensamentos; haverá mil outras decisões ainda à sua espera. Esta é a maneira do guerreiro.

Há muitas coisas que um guerreiro pode fazer, em determinado momento, que não poderia ter feito anos antes. Essas coisas não mudaram; o que mudou foi a ideia do guerreiro sobre si mesmo.

O caminho do guerreiro oferece ao homem uma nova vida, e essa vida tem que ser completamente nova. Ele não pode trazer para essa nova vida seus velhos e horríveis hábitos.

Um guerreiro é um caçador. Calcula tudo. Isso é controlo. Mas, uma vez terminado os seus cálculos, ele age. Entrega-se. Isso é abandono. Um guerreiro não é uma folha à mercê do vento. Ninguém pode empurrá-lo; ninguém pode obrigá-lo a fazer coisas contra si mesmo ou contra o que ele acha certo. Um guerreiro está preparado para sobreviver, e ele sobrevive da melhor maneira possível.

A autoconfiança do guerreiro não é a autoconfiança do homem comum. O homem comum procura certeza aos olhos do observador e chama a isso autoconfiança. O guerreiro procura impecabilidade aos próprios olhos e chama a isso humildade. O homem comum está preso a seus semelhantes, enquanto o guerreiro está preso ao infinito.

Você deve cultivar a ideia de que um guerreiro não precisa de nada. Diz que precisa de ajuda. Ajuda para quê? Você tem tudo o que é preciso para a viagem extravagante que é a sua vida.

Os guerreiros não se ajudam, não tem compaixão por ninguém. Para ele, ter compaixão significa que você desejava que o outro fosse como você, e você o ajuda só para isso. A coisa mais difícil do mundo é um guerreiro deixar os outros em paz. A impecabilidade do guerreiro é deixar os outros como são, e apoiá-los no que forem. Isso significa, naturalmente, que você confia que também eles sejam guerreiros impecáveis.

Tudo o que é necessário é a impecabilidade, energia, e isto se inicia com um ato singular, que deve ser deliberado, preciso e constante. Se este acto é repetido por tempo suficiente, a pessoa adquire um sentimento de intenção inflexível que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isto é realizado, o caminho está aberto. Uma coisa leva a outra até que o guerreiro descubra seu potencial completo.

A impecabilidade do guerreiro evoca uma atitude interior, uma luz que se aproxima notavelmente da humildade e a aceitação de viver imerso na eternidade, transformando cada circunstância vital em um desafio vivo e sincero. Ninguém nasce guerreiro. O caminho continua até o final de nossas vidas.

Carlos Castaneda

segunda-feira, 27 de abril de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(27 de Abril de 2007, morre o violoncelista e maestro russo, Mstislav Rostropovich)

Mstislav Rostropovich
Violoncelista e Maestro Russo

MSTISLAV ROSTROPOVICH
«Allegretto con Moto»

OUTROS CONTOS

«O Banheiro», por Millôr Fernandes.

«O Banheiro»
Homem no Banheiro/ Edvard Munch
(Pintura em Madeira)

488- «O BANHEIRO»

Não é o lar o último recesso do homem civilizado, sua última fuga, o derradeiro recanto em que pode esconder suas mágoas e dores. Não é o lar o castelo do homem. O castelo do homem é seu banheiro. Num mundo atribulado, numa época convulsa, numa sociedade desgovernada, numa família dissolvida ou dissoluta só o banheiro é um recanto livre, só essa dependência da casa e do mundo dá ao homem um hausto de tranquilidade. É ali que ele sonha suas derradeiras filosofias e seus moribundos cálculos de paz e sossego. Outrora, em outras eras do mundo, havia jardins livres, particulares e públicos, onde o homem podia se entregar à sua meditação e à sua prece. Desapareceram os jardins particulares, pois o homem passou a viver montado em lajes, tendo como ilusão de floresta duas ou três plantas enlatadas que não são bastante grandes para ocultar seu corpo da fúria destrutiva da proximidade forçada de outros homens. Não encontrando mais as imensidões das praças romanas que lhe davam um sentido de solidão, não tendo mais os desertos, hoje saneados, irrigados e povoados, faltando-lhe as grutas dos companheiros de Chico de Assis, onde era possível reflectir e ponderar, concluir e amadurecer, o homem foi recuando, desesperou e só obteve um instante de calma no dia em que de novo descobriu seu santuário dentro de sua própria casa — o banheiro. Se não lhe batem à porta outros homens (pois um lar por definição é composto de mulher, marido, filho, filha e um outro parente, próximo ou remoto, todos com suas necessidades físicas e morais) ele, ali e só ali, por alguns instantes, se oculta, se introspecciona, se reflecte, se calcula e julga. Está só consigo mesmo, tudo é segredo, ninguém o interroga, pressiona, compele, tenta, sugere, assalta, Aqui é que o chefe da casa, à altura dos quarenta anos, olha os cabelos grisalhos, os claros da fronte, e reflecte, sem testemunhas nem cúmplices, sobre os objectivos negativos da existência que o estão conduzindo — embora altamente bem sucedido na vida prática — a essa lenta degradação física. Examina com calma sua fisionomia, põe-se de perfil, verifica o grau de sua obesidade, reflecte sobre vãs glórias passadas e decide encerrar definitivamente suas pretensões sentimentais, ânsia cada vez maior e mais constante num mundo encharcado de instabilidade. É nesse mesmo banheiro que o filho de vinte anos examina a vaidade de seus músculos, vê que deve trabalhar um pouco mais seus peitorais, ensaia seu sorriso de canto de boca, fica com um olhar sério e profundo que pretende usar mais tarde naquela senhora mais velha do que ele mas ainda cheia de encantos e promessas. É aqui que a filha de 17 anos vem ler a carta secreta que recebeu do primo, cujos sentimentos são insuspeitados pelo resto da família. Já leu a carta antes, em vários lugares, mas aqui tem o tempo e a solidão necessários para degustá-la e suspirá-la. É aqui também que ela vem verificar certo detalhe físico que foi comentado na rua, quando passava por um grupo de operários de obras, comentário que na hora ela ouviu com um misto de horror e desprezo. É aqui que a dona de casa, a mãe de família, um tanto consumida pelos anos, vem chorar silenciosamente, no dia em que descobre ou suspeita de uma infidelidade, erro ou intenção insensata da parte do marido, filho, filha, irmãos. Aqui ninguém a surpreenderá, pode amargurar-se até aos soluços e sair, depois de alguns momentos, pronta e tranquila, com a alma lavada e o rosto idem, para enfrentar sorridente os outros misteriosos e distantes seres que vivem no mesmo lar.

Não há, em suma, quem não tenha jamais feito uma careta equívoca no espelho do banheiro nem existe ninguém que nunca tenha tido um pensamento genial ao sentir sobre seu corpo o primeiro jacto de água fria. Aqui temos a paz para a autocrítica, a nudez necessária para o frustrado sentimento de que nossos corpos não foram feitos para a ambição de nossas almas, aqui entramos sujos e saímos limpos, aqui nos melhoramos o pouco que nos é dado melhorar, saímos mais frescos, mais puros, mais bem dispostos. O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento de solidão ocasional. Aqui, neste palco em que somos os únicos actores e espectadores, neste templo que serve ao mesmo tempo ao deus do narcisismo e ao da humildade, é que a civilização hodierna encontrará sua máxima expressão, seu último espelho — que é o propriamente dito.

Xantipa, que diabo, me joga essa toalha!

Millôr Fernandes

domingo, 26 de abril de 2015

CARTOON versus QUADRA

«O Último Discurso»
HenriCartoon

«O ÚLTIMO DISCURSO»

Este sedá o meu último discudso (?)
Podtugueses, a coddupção é cíclica…?
Faço pela última vez figuda d’udso,
Como piod Pdesidente da Depública!!!

Este será o meu último discurso (?)
Portugueses, a corrupção é cíclica...?
Faço pela última vez figura d’urso,
Como pior Presidente da República!!

POETA

sábado, 25 de abril de 2015

OUTROS CONTOS versus MÚSICAS DO MUNDO

«Grândola, Vila Morena», conto poético por José Afonso.

«Grândola, Vila Morena»
Conto Poético de José Afonso

José Afonso
Cantor e Compositor Português

JOSÉ AFONSO
«Grândola, Vila Morena»
Grândola Vila Morena by José Afonso on Grooveshark
Poet'anarquista

486- «GRÂNDOLA, VILA MORENA»

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

José Afonso

CANTE DA TERRA, POR MATIAS JOSÉ

«Cante da Terra»
Desenho de JPGalhardas

«CANTE DA TERRA»

Mote

Eu sou devedor à Terra,
A Terra me está devendo;
A Terra paga-me em vida,
Eu pago à Terra em morrendo.

(Popular)

Glosas

I
Quadra ao jeito popular,
Não se conhece o autor...
Seja lá ele quem for,
Disse a verdade ao versar.
O terceiro não quis rimar
Mas nem por isso emperra,
Quem o escreveu não erra
Se houver entendimento…
Digo com convencimento,
Eu sou devedor à Terra!

II
A rima tornou-se o fado
Da desdita dos poetas,
Em certas horas incertas
Fica o verso meio-encravado.
Depois de bem retocado
Soa afinado se estou lendo,
Ouvir o que vou dizendo
É como pão para a boca…
Não creias que estou louca,
A terra me está devendo!

 III
Toda a terra é sagrada…
Como sagrado o seu pão,
Esta bela conjugação
Merece ser respeitada!
Entender não custa nada
 A regra às vezes esquecida,
P’ra que não seja omitida
Um e outro se estão a dever…
Eu pago quando eu morrer,
A terra paga-me em vida!

IV
Tenho tudo o que preciso
Foi a terra quem mo deu…
Diz que um dia vou ser seu,
No chão sagrado que piso.
Há quem lhe chame Paraíso…?
Mas disso eu não entendo,
Dou o que estou recebendo
Quando tal me for pedido…
Saldando o que é devido,
Eu pago à terra em morrendo!

Matias José

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O DESTERRO/ DÉCIMA POPULAR

«O Desterro»
Décima por Matias José

«O DESTERRO»

Lava tachos e panelas
Sofregamente na cozinha,
Acabou-se a boa vidinha...
A ementa: iscas com elas!
Por tais becos e vielas
Ao desterro foi parar,
Não pode mais algueirar
O seu rico lava-loiça…
Anda uma ruiva moça
Cansada de tanto esfregar!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Nosso País é Bué», por Pepetela.

«O Nosso País é Bué»
Conto de Pepetela

485- «O NOSSO PAÍS É BUÉ»

Quando Miúdo Lito irrompeu pela casa, feito bola de futebol a entrar na baliza do Primeiro d'Agosto, como ele gostava de ver no estádio da Cidadela, a mãe assustou, que passa, que passa? Eram tempos difíceis, qualquer notícia podia trazer uma tragédia, qualquer corrida podia significar perigo, qualquer grito significar agonia.

— Esse país é bué, mãe, esse país é bué!

Dona Fefa bem conhecia os entusiasmos repentinos do filho pelo país, aprendidos nos livros da escola, embora contrariados constantemente na rua. Desta vez ele vinha daí mesmo, da rua, se espantava ainda mais ela por tanto patriotismo. Parou de mexer a colher de pau na panela do feijão com óleo de palma, limpou as mãos ao avental, disse com voz cansada, explica então como esse país é bué, que mentira mais te pregaram? Que não era mentira, não, ele tinha visto mesmo, mãe, petróleo a sair no chão, aí no quintal de Dona Isaura.

— Deixa de brincadeiras, não vês que estou a trabalhar?

Miúdo Lito se encostou na parede mal rebocada da cozinha, onde se notavam, entre os bocados de barro seco, os troncos tortos de mandioqueira que seguravam a construção precária. Encolheu os ombros. Falou mais baixo, mas ainda entusiasmado:

—Vi o petróleo a sair assim do buraco que eles cavaram no chão, mãe. Afinal tinham tapado aquele bocado com esteiras, nem nos deixavam entrar lá no quintal. Era para esconder o buraco que andavam cavar. Mas hoje se distraíram e eu entrei com o Pedro. Vi o buraco. Dona Isaura estava a receber o balde em cima, o pai do Pedro estava lá dentro do buraco. Quando me viram berraram bué com o Pedro, que ninguém que podia entrar no quintal, se ele não sabia já... Depois me pediram muito não conta embora a ninguém.

— E já me estás a contar a mim, ralhou Dona Fefa, seu fofoqueiro.

— Mas a senhora é minha mãe, posso contar. Até porque também vamos cavar buraco no quintal. O Pedro me disse que depois vai vender em garrafas na rua, como os outros estão fazer. Esse petróleo que serve para os candeeiros que agora se anda a comprar no Roque Santeiro, afinal não vem da Sonangol, está vir mesmo do chão.

Dona Fefa estava estranhar. Lito não era mentiroso e se dizia que tinha visto é porque era verdade. De facto já ouvira falar, no mercado Roque Santeiro vendiam petróleo para candeeiro mais barato que o tabelado pelo governo. Mas então a amiga Isaura se metia em negócios desses e nem lhe dizia nada? Sim, o kandengue fez bem em contar. Julgava ela que conhecia os amigos... Quando cheirava a dinheiro no ar, logo entravam os esconde-esconde, para não se perder negócio. Então Dona Isaura, quase vizinha, que só escapou ser comadre porque a menina morreu à nascença, ia lhe convidar para ser madrinha do segundo filho, essa mesma Dona Isaura que conhecia desde que se instalaram no bairro na altura da Independência afinal agora esqueceu a amizade e guardou segredo de que havia petróleo no quintal dela, hum, hum, não se faz a uma amiga! De facto havia esse cheiro que aparecera de repente no bairro, parecia vir de todos os sítios ao mesmo tempo. Julgava que vinha da refinaria, às vezes eles faziam umas limpezas e deitavam os líquidos à toa, até para o mar. Afinal vinha dos quintais vizinhos e era a prova do que dizia Lito. Mas se no quintal de Dona Isaura há petróleo, não quer dizer que aqui também tem, era Dona Fefa a querer duvidar ainda de uma sorte demasiada...

— Mas tem sim, mãe, tem em todos estes quintais da zona. O pai do Pedro também soube pelos vizinhos e pelo cheiro que vinha do lado. Todos andam a cavar, só que estão a esconder, têm medo do governo.

A prudência da mãe desconfiou de tanta fartura, se têm medo do governo é porque estão a fazer coisa má, o que não era no entanto certo, argumentava o miúdo ainda entusiasmado, só têm medo porque a polícia vem e fecha os poços à toa, ou a polícia pede gasosa demais. Logo veio acima o nacionalismo de Miúdo Lito que repetiu este país é bué, aqui nem é preciso refinar. Isso estudei na escola, o petróleo tem de ser refinado ali na Petrangol, só depois pode ser utilizado nos candeeiros ou nos carros ou nos aviões. Mas aqui sai já directo do chão para o candeeiro, não sei se também dá prós carros. E bué mesmo, ninguém que aguenta esta terra.

Miúdo Lito saiu disparado para a rua, com o mujimbo a encher o peito. Dona Fefa ficou a pensar, então a vizinha Isaura vai mandar o Pedro vender petróleo na rua? É capaz de dar bom dinheiro. E que jeito lhe dava, também a ela. Viúva, obrigada a trabalhar de lavadeira para criar o filho, sem mais família na cidade e sem saber onde anda a que deixou no mato, perdida pelas guerras... uns garrafões de petróleo todos os dias podiam ajudar muito. Mas como cavar um buraco no quintal? Ela sozinha? O miúdo podia ajudar, mas não chegava. E para essas coisas não se pode contratar um roboteiro, aproveitam logo nas exigências e acaba por ficar muito caro. Nem dá pedir a um vizinho, não é mesmo coisa que se peça a um vizinho, por muita intimidade que haja. A latrina fora cavada há anos pelo marido e levou muito tempo, pois não é fácil cavar um buraco fundo. E Lito tinha dito que o pai do Pedro desaparecia no buraco para encher o balde, imagine-se a altura do buraco. Abanou a cabeça. Era uma tentação aproveitar a riqueza que jazia em baixo do quintal, lá isso era. E não estava a roubar ninguém, o petróleo estava na terra, era de quem apanhasse. Ou não?

Esperou que o feijão apurasse e foi falar à vizinha Isaura, saber mesmo das coisas, o coração dela estava a doer e mais doía se não tirasse a coisa a limpo. Avizinha que lhe desculpasse o atrevimento, mas o miúdo contou, sabe como são os miúdos, não podem guardar segredo, e o assunto é tão importante que merece mesmo o risco de criar incómodo entre amigos. A vizinha Isaura compreendeu, ficou muito embaraçada no princípio, até estava mesmo para contar à Dona Fefa, só que o meu marido disse, espera ainda mais um pouco para ver se sai alguma coisa, muitas vezes as promessas não se cumprem, mas era verdade mesmo, tinha saído petróleo, a amiga podia vir no quintal ver e cheirar, cheira mesmo a petróleo, logo mais vamos vender na rua e Dona Fefa também devia cavar um buraco, se tornar proprietária de um poço de petróleo, ainda vamos ser uns nababos a andar de Mercedes e fumar charuto, vizinha. Uma gargalhada de Isaura fugiu para as ralas nuvens no céu azul. Dona Fefa tinha dúvidas, e se a polícia sabe? Esse de facto era o problema, os vizinhos que tinham poços clandestinos andavam a discutir muito isso, disse Dona Isaura, porque para uns garimpo de petróleo é proibido, os angolanos não podem ter poços, só os estrangeiros, o que é evidentemente uma injustiça os donos da terra serem afastados dessas riquezas, outros no entanto diziam não, agora já há garimpo livre, não só de diamante mas de tudo, não há mais partido único, nem garimpo único, é a democracia petrolífera. E o que está no subsolo não tem dono. Ainda preciso de pensar bem, rematou Dona Fefa, sozinha como vou cavar, mesmo com o Lito a ajudar? E voltou às suas enegrecidas panelas.

Não teve tempo de tomar uma decisão. Miúdo Lito e os outros miúdos da zona passaram o mujimbo e não aguentaram o peso de o reterem, eram tão patriotas que tiveram de o transmitir a vizinhos mais longe, para estes também se congratularem com o país que tinham, de modo que a notícia chegou a uma rádio, depois a outra, a cidade ficou a saber, o país e o mundo. Depois a polícia também soube e veio no bairro proteger a empresa encarregada de tapar os buracos à força, dizendo que afinal andava a morrer gente com explosões e incêndios provocados por esse petróleo que não era petróleo bruto e não saía da terra só assim, afinal antes tinha passado pela refinaria e depois se infiltrado pelo chão vermelho por algum tubo gasto, formando um lençol subterrâneo. Então não ouviram falar de Só Afonso, aquele fazedor de tijolos já velho mas sempre rijo, que morreu numa explosão a acender o candeeiro? Era desse líquido aí, mistura de gasolina com outro produto, um perigo para todos, sobretudo as crianças. Os supostos donos dos poços ainda tentaram resistir aos homens da empresa e aos polícias, até porque agora somos proprietários e não podemos ser tratados como deslocados de guerra sem voz, têm de nos ouvir, a nós, os micrempresários, agentes económicos. Mas as autoridades disseram, esse produto tem dono, saiu da refinaria ou de tubos da refinaria ou de outro sítio qualquer, além disso é perigoso, já morreu gente, portanto, senhores micrempresários, se insistem, chamamos os ninjas, eles sabem dar cabo rapidamente de qualquer resistência à autoridade. Foi o ponto final no garimpo de petróleo, que de facto era gasolina adulterada pela muita ferrugem dos canos. Mais tarde veio a explicação nos órgãos de comunicação social, a refinaria era velha e há muito tempo não tinha manutenção a sério, daí as fugas de líquido.

Miúdo Lito ficou desiludido. Não por ter desaproveitado a riqueza que dormia no seu quintal. Mas porque afinal o país não era assim tão bué como imaginara.

Pepetela

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Dexter Gordon
Músico de Jazz Norte-Americano

DEXTER GORDON - «Smile»

DESAIRE PORTISTA

Dragão
Porto! Porto!! Porto!!!

DESAIRE PORTISTA

Vai boa a animação
Na hoste benfiquista,
O Porto levou na crista
E o Benfica é campeão.
Digo-o com convicção…
Sem nenhuma demagogia,
Se o Porto hoje perdia
O Benfica só tinha a ganhar…
Seis a um pra desanimar,
Vamos à Luz sem bateria!

Atacam de todo o lado
Sem remorso algum…
Do Bayern foi seis a um,
Está o Porto destroçado!
Outro desaire é esperado
Lá no inferno da Luz,
O Dragão carrega a cruz 
E a Águia ataca o título...
Fecha-se o último capítulo:
- Ano assim nunca supus!!

POETA

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O CORAL/ POESIA POPULAR

«O Coral»
Décima por Matias José

«O CORAL»

Eu sou um coral…?
Quase me convenço,
Às vezes também penso...
Antes assim, que mais mal.
Por aqui tudo normal
Sem demais agitação,
Neste cantinho da Nação
Olha que lugar bonito…
Ocupo um espaço restrito,
Mas cantar, isso é que não!

Matias José

OUTROS CONTOS

«O Casamento Enganoso», por Miguel de Cervantes.

«O Casamento Enganoso»
Conto de Miguel de Cervantes

484- «O CASAMENTO ENGANOSO»

 Saía do Hospital da Ressurreição, em Valladolid, além da Porta do Campo, um soldado que, por usar a espada como bordão e pela fraqueza de suas pernas e palidez do rosto, denotava claramente – embora a temperatura não fosse tão cálida – que ele deveria ter transpirado em vinte dias toda a disposição que, com toda a certeza, adquirira numa hora. Andava aos ziguezagues, tropeçando a cada momento, como um convalescente e, ao transpor a porta da cidade, percebeu aproximar-se da sua direção um amigo a quem não via há mais de seis meses. Este, benzendo-se, como se tivesse visto alguma assombração, aproximou-se e lhe disse:

— Que aconteceu, Senhor Alferes Campuzano? é possível que esteja por aqui? Imaginava-o em Flandres, de lança em riste e não por esses lados, arrastando a espada. Que palidez, que fraqueza é essa?

Campuzano respondeu:

— Se estou ou não nesta terra, Senhor Licenciado Peralta, a minha simples presença o diz. Quanto às outras perguntas, nada tenho a responder senão que estou saindo daquele hospital, onde sofri quatorze suadouros, por causa de uma mulher a quem escolhi para minha, quando jamais o devia ter feito.

— Quer Vossa Mercê dizer que se casou? — perguntou Peralta.

— Sim — respondeu Campuzano.

— Teria sido por amor? — disse Peralta, acrescentando: — Tais casamentos trazem sempre o arrependimento.

— Não saberei se foi por amor — respondeu o Alferes — embora possa garantir ter sido por amargor, pois do meu casamento, ou cansamento, carrego tais coisas no corpo e na alma que as do corpo, para curá-las, me custaram quarenta suadouros, mas as da alma não encontro remédio sequer para aliviá-las. Mas Vossa Mercê me perdoará; não posso manter longas conversas neste lugar. Qualquer outro dia, mais comodamente, contar-lhe-ei minhas aventuras; são as mais novas e originais que Vossa Mercê terá ouvido em todos os seus longos dias.

— Não será assim — disse o Licenciado — pois desejo que venha à minha pousada, para ali desabafarmos nossas mágoas. Além disso, tenho lá uma comida própria para convalescentes. Embora tenha sido preparada para dois, meu criado se contentará com um pastel. E se a sua convalescença permitir, umas fatias de presunto servirão para nos abrir o apetite. A boa vontade com que lhe ofereço, não somente agora, mas todas as vezes que Vossa Mercê quiser, está acima de qualquer dúvida.

Agradeceu-lhe Campuzano, aceitando o convite e os oferecimentos. Foram ambos a São Lorente, onde ouviram missa, e depois Peralta levou o amigo à sua casa, dando-lhe o prometido e insistindo que repetisse. Mal Campuzano concluíra, pediu-lhe Peralta que narrasse os acontecimentos que tanto o haviam mortificado. Campuzano não se fez de rogado, pondo-se logo a falar.

— Vossa Mercê bem se recorda, Sr Licenciado Peralta, como fui, nesta cidade, amigo do Capitão Pedro de Herrera, que agora está em Flandres.

— Bem me recordo — respondeu Peralta.

— Pois um dia — prosseguiu — quando mal acabávamos a refeição na pousada da Solana, onde vivíamos, entraram duas mulheres de belo porte, acompanhadas por dois criados. Uma delas pôs-se logo a falar com o Capitão, encostados ambos a um canto da janela. A outra sentou-se numa cadeira junto à minha, cobrindo-se com o xale até o pescoço, não deixando ver do seu rosto mais do que a transparência do xale permitia. Embora cortêsmente lhe suplicasse que se descobrisse, não foi possível conseguir tal coisa. E, para completar a história – fosse de caso pensado ou por simples acaso – ela exibiu suas mãos muito brancas, cobertas por excelentes jóias. Por meu lado, estava importantíssimo com aquela grande corrente que Vossa Mercê terá, talvez, conhecido, o chapéu com plumas e cordões, o traje de cores e a arrogância de um militar, tão imponente aos olhos da minha vaidade que me julgava pairando no ar. Com tudo isto, roguei-lhe que se descobrisse, ao que ela respondeu:

— Não sejais importuno. Tenho minha casa; fazei com que um pajem me siga, pois embora seja mais honrada do que faz crer esta resposta, quero ver se vossa discrição corresponde à vossa galhardia. Folgarei, então, que me vejais.

Beijei-lhe as mãos pela grande mercê que me fazia, em paga da qual lhe prometi punhados de ouro. O capitão concluíra sua conversa. Elas se foram, seguidas pelo meu criado. O capitão disse-me que a dama lhe pedira para levar algumas cartas a outro capitão, em Flandres. Dizia serem para um primo, mas ele bem sabia não serem senão para o amante. Eu ficara abrasado pelas mãos de neve que havia visto e ansioso pelo rosto que desejava ver. E assim, no dia seguinte, guiado pelo meu criado,  fui visitá-la. Encontrei uma bela residência e uma mulher de quase trinta anos, a quem reconheci pelas mãos. Não era bela ao extremo, mas era-o de maneira que nos podia render pelo trato, pois possuía um tom de voz tão suave e penetrante, que ia até a alma. Mantivemos longos e amorosos colóquios. Blasonei, garganteei, prometi, enfim, dei todas as demonstrações que me pareceram necessárias para tornar-me benquisto. Mas ela parecia ter sido feita para ouvir semelhantes ou maiores oferecimentos e razões. Era toda ouvidos e nenhuma surpresa. Para concluir: nossos colóquios duraram quatro floridos dias. Continuei a visitá-la sem que chegasse, porém, a colher o fruto ambicionado.

Nos momentos em que a visitei, encontrei a casa livre; jamais percebi traços de parentes reais ou fingidos. Servia-lhe certa moça, mais astuta que simplória. Tratando meus amores como soldado em véspera de partida, apertei finalmente a senhora Dona Estefânia de Caicedo – é este o nome de quem assim me deixou – que respondeu: "Tola seria, Senhor Alferes Campuzano, se quisesse vender-me a Vossa Mercê por santa. Pecadora tenho sido e ainda sou, embora não tanto que os vizinhos murmurem e os empregados comentem. Nem de meus parentes herdei coisa alguma, mas, apesar disso, o que tenho aqui em casa vale – bem contados – dois mil e quinhentos escudos. E isso em coisas que vendidas se converterão em bom dinheiro. Com esta fortuna procuro marido a quem entregar-me e a quem obedecer. A quem, juntamente com o arranjo da minha vida, entregarei uma incrível solicitude em agradar e servir. Príncipe algum terá cozinheiro mais cuidadoso ou quem melhor saiba dar o ponto nos guisados. Tanto sei dirigir uma casa como orientar uma cozinha ou receber visitas. Na verdade sei mandar e fazer com que me obedeçam. Nada desperdiço e muito economizo. O dinheiro não vale menos e sim mais, quando gasto sob minha orientação. A roupa branca que possuo, que é muita e da melhor, não foi adquirida em lojas ou vendedores ambulantes; esses dedos e os de minhas criadas fizeram-na, e se fosse possível, tê-la tecido em casa, assim teríamos feito. Digo estas coisas sem modéstia, pois não há mal quando a necessidade nos obriga a dizê-las. Acrescento, finalmente, que procuro marido que me ampare, dirija e honre, e não amante que se aproveite e depois vá falar por aí... Se Vossa Mercê souber apreciar a prenda que neste momento se lhe oferece, aqui estou à vossa disposição, sujeita a tudo quanto Vossa Mercê ordenar, e isso sem me pôr em leilão, que é a mesma coisa que andar em língua de casamenteiros. Não há nada para consertar o todo como as suas próprias partes.

Eu, que estava com o juízo, não na cabeça, mas nos calcanhares, julgando a felicidade ainda maior do que a imaginação me pintava e oferecendo-se-me tão à mão, quantidade tal de bens – já os contemplava convertidos em dinheiro! – sem fazer mais comentários do que aqueles a que dava lugar a ventura (que me entibiava o raciocínio), respondi-lhe que me sentia muito alegre e afortunado por haver-me dado o céu, quase por milagre, companheira tal, para fazê-la senhora da minha vontade e dos meus haveres, que não eram tão poucos que não valessem, junto com aquela corrente que trazia no peito e outra joiazinhas que estavam em casa, além das minhas galas de soldado, mais de dois mil ducados, os quais, junto aos dois mil e quinhentos dela, formavam quantia mais do que suficiente para vivermos na aldeia onde nasci e ainda possuía alguns bens. Tais haveres, convertidos em dinheiro, renderiam seus frutos com o tempo, permitindo-nos uma vida alegre e descansada. Em suma, naquela noite acertamos o nosso casamento e esclarecemos nossa vida de solteiros. E nos próximos três dias de festas que vieram logo pela Páscoa, fizeram-se os proclamas e no quarto dia nos casamos, encontrando-se presentes dois amigos meus e um rapaz que dizia ser primo dela. Tratei-o como a um parente, com palavras amáveis, como foram as que até então ele dirigira a minha nova esposa. Falava, no entanto, com intenção tão falsa e hipócrita que prefiro ficar calado. Embora esteja dizendo somente verdades, não são verdades de confessionário, dessas que não podem deixar de ser ditas.

O criado conduziu meu baú da pousada para a casa de minha mulher. Encerrei nele, diante dela, minha esplêndida corrente, mostrando-lhe outras três ou quatro, não do mesmo tamanho, porém da melhor qualidade, assim como três ou quatro cintos de diversos tipos. Mostrei-lhe, também as roupas e chapéus, entregando-lhe para as despesas da casa os quatrocentos reais que possuía. Seis dias desfrutei, calmamente, como genro pobre em casa de sogro rico, a lua-de-mel. Pisei custosos tapetes, amassei colchas de Holanda, alumiei-me com candelabros de prata. Almoçava na cama, levantando-me às onze horas, comendo as doze e sesteando as duas. Dona Estefânia e a criada excediam-se em agrados e cuidados. Meu criado, que até ali fora lerdo e preguiçoso, transformara-se num azougue. Os momentos que Dona Estefânia não passava ao meu lado, era fácil encontrá-la na cozinha, toda solícita em ordenar guisados que me despertassem o gosto e avivassem o apetite. Minhas camisas, colarinhos e lenços, pelo perfume que exalavam, pareciam um novo Aranjuez de flores, banhados como eram em água de flor de laranjeira.

Esses dias passaram voando como passam os anos sob o império do tempo. Por ver-me tão regalado e bem servido, transformara-se em boa a má intenção com que começara aquele negócio. Ao fim deles, certa manhã – quando ainda no leito com Dona Estefânia – chamaram com grandes batidas na porta. Ouço a criada dizer, assomando a janela:

— Oh! Seja bem-vinda! Vejam só, veio antes do que avisara em sua carta...

— Quem é que chegou, mulher? — perguntei.
— Quem? — respondeu ela — Minha Senhora Dona Clementa Bueso, acompanhada por Dom Lope Melendez de Almendárez, dois criados e Hortigosa, a ama.

— Corra, mulher, e abra-lhes a porta, que já vou — disse Dona Estefânia à criada, que parara sem saber que atitude tomar. — E vós, Senhor, pelo amor que me tendes, não os assusteis nem respondais, em meu nome, a coisa alguma que contra mim ouvirdes.

— Mas, quem vos ofenderá, ainda mais em minha presença? Dizei. Que gente é essa que tanto alarma vos causa?

— Não tenho tempo para responder-vos — disse Dona Estefânia: — Sabei somente que tudo o que aqui se passará é fingido e visa a certo desígnio o qual sabê-lo-eis depois.

Quis replicar, mas a Senhora Dona Clementa Bueso não permitiu, pois entrou no quarto, arrastando a cauda do longo vestido verde todo enfeitado com cordões de ouro, capinha da mesma qualidade, chapéu de plumas verdes, brancas e vermelhas, e rico cinto de ouro. Metade do seu rosto estava oculto por um véu leve. Em sua companhia entrou o Senhor Dom Lope Melendez de Almendárez, não menos bizarro nem menos ricamente ataviado.

Dona Hortigosa foi a primeira a falar, exclamando:

— Jesus! Que é isto? Ocupando o leito da Senhora Clementa, e alem disso, com um homem? 

Milagres vejo hoje nesta casa! Não há dúvida de que Dona Estefânia tomou o pé pela mão abusando da amizade de minha senhora.

— Tendes razão, Dona Hortigosa, mas a culpa é minha. Que jamais me aborreça novamente por arranjar amigas que não sabem ser senão quando o desejam!

A tudo isto, Dona Estefânia respondeu:

— Não se aborreça, Dona Clementa, e creia que não é sem mistério que a senhora vê estas coisas em sua casa. Quando souber da verdade, sei que ficarei desculpada e Vossa Mercê sem nenhum motivo de queixa.

Nessas alturas eu já vestira as calças e a camisa e Dona Estefânia, tomando-me pelo braço, levou-me a outro quarto e ali me disse que aquela sua amiga desejava enganar Dom Lope, com quem pretendia casar-se. Que o engano era dar-lhe a entender que aquela casa e tudo quanto nela estava lhe pertencia, e disso tudo pensava fazer seu dote. Uma vez realizado o casamento pouco se lhe dava que descobrissem o engano, confiada como estava no grande amor de Dom Lope.

— E logo me devolverá tudo. Não se pode levá-la a mal, nem a nenhuma outra mulher que procure marido honrado, embora por meio de um embuste.

Respondi-lhe que era uma prova de grande amizade o que tencionava fazer, e que primeiro pensasse bem, porque poderia, depois, sem ter necessidade, precisar da justiça para readquirir seus haveres. Porém ela respondeu com tantas e tais razões, mostrando quantas coisas obrigavam-na a servir Dona Clementa — coisas de pouca importância, é verdade — que embora de má vontade e com remorso na consciência, concordei com o desejo de Dona Estefânia. Assegurou-me ela que a farsa duraria somente oito dias, durante os quais ficaríamos em casa de outra amiga sua. Acabamos de nos vestir e logo, despedindo-se de Dona Clementa e do Senhor Lope, disse a meu criado que carregasse o baú e a seguisse. Eu também a segui, sem despedir-me de ninguém.

Dona Estefânia parou em casa de uma amiga e, antes que entrássemos, esteve lá dentro um bom tempinho, falando com ela. Depois surgiu uma criada, mandando que entrássemos — eu e o criado. Levou-nos a um pequeno aposento, no qual havia duas camas tão juntas uma da outra que pareciam uma só. Não havia espaço para separá-las; as cobertas pareciam beijar-se. Ali estivemos seis dias e em todos eles não passou uma hora que não tivéssemos alguma discussão. Dizia-lhe da loucura que fizera em ter deixado a casa e seus pertences, embora fosse para a própria mãe. Durante as discussões, ia e vinha pelo quarto, tanto que a dona da casa, um dia em que Dona Estefânia fora ver em que pé estavam as coisas, quis saber qual a causa que me levava a discutir tanto com ela e o que fizera que tanto a ofendia, sobretudo insistindo em dizer que fora loucura notória e não amizade perfeita. Contei-lhe toda história, falei que me casara com Dona Estefânia e do dote que ela trouxera. Quando lhe disse da grande tolice que fizera em deixar a casa e pertences à Dona Clementa, embora fosse com a boa intenção de conseguir um marido da importância de Dom Lope, começou a benzer-se e a persignar-se com tanta pressa e com tantos "ai! Jesus,  Jesus!" que não pude deixar de ficar grandemente perturbado. Ela então me disse:

— Senhor Alferes: não sei se vou contra a minha consciência ao contar-lhe o que também nela pesaria se permanecesse calada. Porém, por Deus e pelo Destino, seja o que for: viva a verdade e morra a mentira! A verdade é que Dona Clementa é a verdadeira dona da casa e dos haveres. Mentira foi tudo quanto lhe contou Dona Estefânia. Ela não possui casa nem bens, nem outro vestido a não ser aquele que traz no corpo. E, para tornar viável esse logro, foi que Dona Clementa andou a visitar parentes seus em Placêncio e dali esteve fazendo uma novena a Nossa Senhora de Guadalupe. Neste espaço de tempo deixou Dona Estefânia para cuidar de sua casa, pois são realmente grandes amigas. Está claro que não se deve culpar a pobre mulher, pois soube arranjar para marido uma pessoa como o Senhor Alferes.

Aqui ela deu fim à sua conversa e eu dei princípio ao meu desespero, e sem dúvida o teria prolongado se o meu anjo da guarda não acudisse, dizendo ao meu coração não esquecer que era cristão e que o maior pecado dos homens é o desespero, por ser pecado dos demônios. Esta consideração, ou boa inspiração, conformou-me um pouco, mas não tanto que deixasse de apanhar a capa e saísse à procura de Dona Estefânia, com intenção de dar-lhe exemplar castigo. Porém a sorte, que não saberei dizer se melhorava ou piorava as coisas, ordenou que em nenhum lugar onde pensava encontrá-la, ela estivesse. Fui a São Lorente, encomendando-me à Nossa Senhora; sentei-me, depois, num banco e com o desgosto fui tomado por um sono tão pesado que não despertaria tão cedo se não me sacudissem. Fui cheio de pensamentos e de aflição à casa de Dona Clementa, e encontrei-a tão à vontade, como senhora que era de seus bens; não ousei dizer-lhe nada porque Dom Lope estava presente. Voltei à casa de minha hospedeira, a qual me disse haver contado à Dona Estefânia como eu já sabia toda sua hipocrisia e falsidade e que ela lhe havia perguntado que cara fizera eu com a notícia. Havia-lhe respondido que uma cara muito má e que, segundo o seu modo de ver, eu saíra a procurá-la com ruim intenção e pior determinação. Disse, finalmente, que Dona Estefânia levara tudo quanto havia no baú, sem deixar nele uma só peça de roupa.

Aqui foi a coisa! Aqui teve-me Deus, de novo, em suas mãos. Fui ver o baú, encontrando-o aberto, como um túmulo à espera do cadáver. Com boas razões seria o meu, se não tivesse calma para sentir e ponderar tamanha desgraça...

— Bem esperta foi — disse neste momento, o Licenciado Peralta — por haver Dona Estefânia, levado tanta corrente e tantos cintos, pois, como se diz, todos os enterros... etc., etc.

— Nenhuma pena me deu essa falta — respondeu o Alferes — pois também poderei dizer: Pensou Dom Simueque que me enganava com sua filha caolha e, por Deus, coxo sou eu de um lado...

— Não sei a que propósito pode Vossa Mercê dizer isso — respondeu Peralta.

— O propósito é — disse o Alferes — de que aquele embrulho e aparato de correntes, cintos e brincos, poderia valer, quando muito, dez ou doze escudos.

— Isso não é possível — replicou o Licenciado — porque a corrente que o senhor trazia no pescoço parecia pesar mais de duzentos ducados.

— Assim seria — respondeu o Alferes — se a verdade fosse o que a aparência mostrava; porém, como nem tudo o que reluz é ouro, as correntes, cintos, jóias, brincos, não passavam de imitações. Estavam tão bem feitas que somente o toque ou o fogo poderiam descobrir sua qualidade.

— Dessa maneira — disse o Licenciado — entre Vossa Mercê e a Senhora Dona Estefânia, houve empate no jogo?

— E tão empate — respondeu o Alferes — que poderíamos voltar a baralhar as cartas. Mas o estrago está, Sr. Licenciado, em que ela poderá desfazer-se de minhas correntes, e eu não do laço em que caí. Sim, porque, embora muito me pese, ela é minha mulher.

— Daí graças Deus, Sr. Campuzano — disse Peralta — que ela se foi e que não estais obrigado a ir buscá-la.

— Assim é — respondeu o Alferes — porém, com tudo isto, embora não a procure, tenho-a sempre em pensamento, e onde quer que esteja está presente a desonra.

— Não sei o que responder — disse Peralta — senão trazendo-lhe à memória dois versos de Petrarca, que dizem: Chi chi prende diletto di far frode, Non sidè lamentar s’altri l’inganna. O que significa em nossa língua: "aquele que tem o costume e o gosto de enganar a outros, não deve queixar-se, quando é enganado."

— Não me queixo — respondeu o Alferes — e sim me lastimo, pois o culpado, nem por reconhecer a culpa, deixa de sentir a pena do castigo. Bem sei que tentei enganar e fui enganado, feriram-me com as minhas próprias armas, mas não posso deixar que tais sentimentos deixem de subir à tona.

Finalmente, o que mais importa no meu romance – que tal nome se pode dar à narrativa das minhas aventuras – é ter sabido que Dona Estefânia se fora com o primo, o mesmo que se encontrava em nosso casamento, e que tempos atrás fora seu amigo para todas as coisas. Não quis procurá-la, para não encontrar o mal que me faltava. Mudei pousada e cabelo, em poucos dias começaram a cair-me os pêlos das sobrancelhas e cílios, e pouco a pouco foram-se eles. Tornei-me calvo antes do tempo: deram-me uma doença chamada calvície. Achei-me verdadeiramente limpo: não possuía nem cabelos para pentear, nem dinheiro para gastar. A enfermidade caminhou ao mesmo passo da minha miséria, e como a pobreza atropela a honra e a uns leva a forca, a outros ao hospital e a outros ainda os faz bater nas portas dos seus inimigos com pedidos e súplicas, o que é uma das maiores desgraças que pode acontecer a qualquer infeliz, e por não ter podido cuidar das roupas que me protegeriam e assegurariam a saúde ao chegar o tempo em que se dão os suadouros no Hospital da Ressurreição, para ele me dirigi e nele tomei quarenta suadouros. Dizem que ficarei bom, se me tratar. Espada ainda possuo; o resto, Deus remediará.

Miguel de Cervantes

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Status Quo
Banda Britânica

STATUS QUO - «In The Army Now»
In The Army Now by Status Quo on Grooveshark
Poet'anarquista

NO EXÉRCITO AGORA

Uma estadia numa terra estrangeira
Tio Sam faz o melhor que pode
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Agora você se lembra do que o comandante disse
Nada para fazer o dia todo a não ser ficar na cama
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Você será um héroi da vizinhança
Ninguém sabe que você deixou de ser bom
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Rostos sorridentes esperam você em sua pátria
Mas quando você chega lá ninguém dá a miníma
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Granadas voam sobre sua cabeça
Mísseis voam sobre sua cabeça
Se você quer sobreviver levante da cama
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Tiros soam na morte da noite
O sargento chama : "Levantem-se e lutem!"
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Você recebe ordens para atirar no alvo
Seu dedo está no gatilho
mas isso não parece certo
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

A noite está caindo e você não pode ver
Será ilusão ou realidade?
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora
Você está no exército agora
Oh, oh você está no exército - agora

Oh, oh você está no exército – agora

Status Quo