sábado, 28 de fevereiro de 2015

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Skid Row
Little Wing

SKID ROW - «Little Wing»
Little Wing by Skid Row on Grooveshark
Poet'anarquista

PEQUENA ASA

Bem, ela está andando
Pelas nuvens
Com uma mente de circo
Que está correndo solta
Borboletas e zebras 
E raios lunares e contos de fadas
É só nisso que ela pensa
Andando com o vento

Ah, quando estou triste
Ela vem a mim
Com mil sorrisos
Que ela me dá de graça

Está tudo bem, ela disse
Está tudo bem
Pegue o que quiser de mim
Qualquer coisa

Skid Row

EM MEMÓRIA...

João José Galhardas
Um amigo especial

EM MEMÓRIA…

Grande amigo do seu amigo…
Mãos largas pra toda a gente,
Era assim espontaneamente
E não fugiu à regra comigo.
Não lhe conheci inimigo
Ou pessoa que desejasse mal,
Tratava-me como seu igual
Sem pedir nada em troca…
Nesta décima hoje se invoca
Um amigo muito especial!

POETA

OUTROS CONTOS

«Decisão Correcta», por Henry James.

«Decisão Correcta»
Conto de Henry James

431- «DECISÃO CORRECTA»

I

Quando, após a morte de Ashton Doyne — apenas três meses depois —, George Withermore foi procurado, como se diz, a propósito de um “livro”, a comunicação chegou-lhe directamente de seus editores, que haviam sido, e na verdade muito mais, também os de Doyne; mas ele não ficou surpreso ao saber, durante a entrevista que em seguida eles lhe solicitaram, que uma certa urgência com relação à publicação, em breve, de uma biografia, viera da viúva de seu falecido cliente. As relações de Doyne com sua mulher haviam sido, como era do conhecimento de Withermore, um capítulo muito especial — que se mostraria, a propósito, muito delicado para o biógrafo; mas uma percepção do que ela perdera, e até mesmo de suas deficiências, deixara-se trair pela pobre mulher, nos primeiros dias de sua perda, o bastante para deixar qualquer observador iniciado na expectativa de algum gesto de compensação, algum patrocínio até mesmo exagerado dos interesses de um nome ilustre. George Withermore era — assim julgava-se ele — um iniciado; contudo, o que ele não esperava era ouvir que ela o mencionara como a pessoa em cujas mãos colocaria sem demora o material para um livro.

Esse material — diários, cartas, memorandos, anotações, documentos de muitos tipos — era propriedade da viúva, e ela detinha todo poder sobre ele, sem qualquer restrição ou reserva relativa à sua parte na herança; portanto, estava livre para fazer o que desejasse — livre, especialmente, para não fazer nada. O que Doyne teria disposto, tivesse ele tempo para fazê-lo, poderia ser apenas objecto de suposições e de adivinhações. A morte levara-o muito prematura e subitamente, e era uma pena que os únicos desejos por ele expressos, segundo se sabia, eram os de que fossem absolutamente desconsiderados. Ele ficara inacabado — essa fora sua peculiaridade; e o fim estava imperfeito e necessitava de remendos. Withermore estava plenamente consciente dos laços que os uniam, mas não menos de que ele próprio era relativamente obscuro. Era jovem, um jornalista, um crítico, alguém que cavava a existência dia a dia, ainda com pouco, como se dizia, a apresentar. Seus escritos eram escassos e de pouca importância, suas relações, limitadas e indefinidas. Doyne, por outro lado, vivera o bastante — acima de tudo, possuíra talento o bastante — para se tornar famoso, e entre seus muitos amigos, também cercados de prestígio, havia vários, sobretudo aqueles que conheciam sua mulher, que lhe pareceriam ainda mais interessante.

A preferência que ela, indubitavelmente, declarara — e o fizera de um modo indirecto, polido que lhe deixou uma margem de liberdade — fez com que nosso jovem sentisse que devia ao menos veda e que haveria de qualquer modo muito sobre o que conversar. Ele imediatamente escreveu-lhe, ela com igual presteza indicou uma hora e eles se explicaram. Mas desse encontro ele saiu consideravelmente mais convicto de sua ideia inicial. Ela era uma mulher estranha, e ele nunca a julgara agradável; mas havia algo na sua impaciência atarefada, desajeitada que o comovia agora. Ela queria que o livro fosse escrito, e a pessoa, do grupo de seu marido, que ela provavelmente acreditava poder manipular mais facilmente deveria sob todos os aspectos ajudar a escrevê-lo. Ela não havia levado Doyle muito a sério durante sua vida, mas a biografia deveria ser uma resposta convincente a toda e qualquer incriminação a ela própria. Sobre como tais livros eram escritos, ela muito pouco sabia, mas investigara e aprendera algo. Causou um certo alarme a Withermore, de início, perceber que ela desejava algo volumoso. Ela falava em “volumes” — mas ele tinha suas próprias ideias a esse respeito.

“Pensei imediatamente em você, como ele teria feito”, ela dissera quase no momento em que surgiu diante dele em seus amplos trajes de luto — com seus grandes olhos negros, sua grande peruca negra, seus grandes leques e luvas negros, sua desolada, feia, trágica, mas impressionante e, como se poderia julgar, de um certo ponto de vista, “elegante” presença em geral. “Dentre todos, você era de quem ele mais gostava; ah, muito mais!” — e isso foi mais do que o suficiente para virar a cabeça de Withermore. Pouco importava que depois se perguntasse se conhecera Doyne o bastante, como ocorreria, com certeza. Ele diria a si mesmo, de fato, que o testemunho dela sobre essa questão dificilmente teria contado. Anda assim, não há fumaça sem fogo; ela sabia ao menos o que queria dizer, e ele não era um indivíduo a quem ela poderia ter interesse em lisonjear. Eles subiram juntos, sem demora, ao escritório vazio do grande homem, que ficava na parte posterior da casa e dava para o espaçoso jardim de inverno — um belo e inspirador cenário, segundo o pobre Withermore — comum às casas ricas.

“Você pode perfeitamente trabalhar aqui, se quiser”, disse a sra. Doyne; “terá este lugar somente para si — eu o reservarei para você; e assim, especialmente às noites — não acha? — servirá às mil maravilhas para sua tranquilidade e privacidade.”

Maravilhado, de fato, era como o jovem se sentia ao olhar a sua volta — após ter explicado que, como seu trabalho regular era num jornal vespertino e suas horas anteriores, ainda por um longo tempo, estavam normalmente tomadas, ele viria sempre à noite. A presença de seu amigo desaparecido ainda pairava no lugar; tudo que eles tocavam fizera parte da vida dele. Por hora, isso tudo era excessivo para Withermore — uma honra grande demais e até mesmo uma atenção grande demais. Memórias ainda recentes retornaram, e fizeram com que seu coração batesse mais forte, e seus olhos se enchessem de lágrimas, a pressão de sua lealdade parecia mais do que ele poderia suportar. Ao ver suas lágrimas, também as da sra. Doyne marejaram-lhe os olhos, e ambos, por um instante, apenas olharam-se. Ele quase esperava que ela exclamasse: “Ah!, ajude-me a sentir o que você sabe ser meu desejo sentir!” E, após um momento, um deles disse, com a viva aprovação do outro, não importava qual: “É aqui que estamos com ele”. Mas foi decididamente o jovem a dizer, antes de deixarem a sala, que era “aqui que ele estava com eles”.

O jovem começou a vir tão logo pôde, e foi então que, no mesmo instante, no encantador silêncio, entre a lâmpada e o fogo, e com as cortinas fechadas, que uma certa consciência mais vivida invadiu-o. Ele viera de uma sombria Londres de Novembro; atravessara a grande e silenciosa casa, e subira as escadas onde encontrara em seu caminho apenas rapidamente com uma criada obedientemente muda, ou a visão, pelo vão de uma porta, dos trajes régios de luto da sra. Doyne e de seu rosto trágico e aprovador; e depois, com um simples toque da porta bem-feita que produzia um estalido tão preciso e agradável, fechou-se lá durante três ou quatro horas cordiais com o espírito — sempre fizera questão de as caracterizar assim — de seu mestre. Ficou não pouco amedrontado quando, na primeira noite mesmo, tomou consciência de que ficara, na verdade, profundamente impressionado, no caso todo, pela expectativa, pelo privilégio e pela delícia dessa sensação. Ele não reflectira — agora percebia-o —, não ponderara claramente sobre a questão do livro — acerca do qual havia aqui, até mesmo anteriormente, muito a pensar; simplesmente deixara que seu afecto e admiração — para não falar de seu orgulho gratificado — acedessem plenamente à tentação que a sra. Doyne lhe apresentara.

Como saber, sem maiores reflexões, ele poderia começar a se indagar, que o livro era, de um modo geral, desejável? Que justificativa jamais recebera ele do próprio Ashton Doyne para uma aproximação tão directa e, de certo modo, tão informal? Respeitável era a arte da biografia, mas havia vidas e vidas, havia temas e temas. Ele recordava-se vagamente, a esse respeito, de palavras há muito ditas casualmente por Doyne com relação a elaborações contemporâneas, indícios de seu juízo exigente com relação a outros heróis e a outras paisagens. Ele até mesmo lembrava-se de como seu amigo, em certos momentos, parecia ter-se mostrado da opinião de que a carreira “literária” poderia — salvo no caso de um Johnson e um Scott, com a ajuda de um Boswell e de um Lockhart — ter-se dado por satisfeita em ser representada. O artista era o que ele fazia — e nada mais. E contudo, por outro lado, como deixaria ele, George Withermore, um pobre diabo, de agarrar-se à oportunidade de passar seu inverno num convívio tão abastado? Fora simplesmente maravilhoso — essa era a verdade. Não haviam sido os “termos” dos editores — não obstante eles fossem, como haviam dito no escritório, satisfatórios; fora o próprio Doyne, sua companhia, seu contacto, sua presença — fora particularmente a decorrência disso tudo, a possibilidade de um relacionamento mais íntimo do que houvera em vida. Era estranho que, de ambas as coisas, fosse a morte a possuidora de menos mistérios e segredos! Na primeira noite em que nosso jovem ficou a sós no aposento, pareceu-lhe que seu mestre e ele estavam real-mente juntos pela primeira vez.

II

A sra. Doyne, na maioria das vezes, deixara-o propositadamente a sós, mas em duas ou três ocasiões surgira para verificar se ele não precisava de nada, e ele tivera a oportunidade de agradecer-lhe imediatamente o discernimento e o zelo com que ela lhe facilitara o trabalho. Até certo ponto, ela própria examinara o material e já conseguira reunir diversos grupos de cartas; colocara nas mãos dele, além disso, todas as chaves de gavetas e armários e lhe dera informações úteis acerca dos lugares prováveis de diferentes assuntos. Em suma, ela lhe entregara todo o material possível e, quer seu marido confiara nela ou não, ela, ao menos — isso estava claro — confiava no amigo de seu marido. Todavia, tomou conta de Withermore a impressão de que, a despeito de todas essas atenções, ela ainda não estava tranquila e de que uma certa ansiedade não aplacada continuava até mesmo a acompanhar sua confiança. Embora tivesse cercado-o de consideração, ela ao mesmo tempo estava sensivelmente ali: ele a sentia, embora mediante um sexto sentido extremamente subtil de que toda a conexão já fora posta em jogo, pairar, no silêncio da noite, no alto da escadaria e no outro lado das portas, a inferir-se do farfalhar mudo de suas saias o sinal de suas vigílias e expectativas. Uma noite, quando, à mesa de seu amigo, ele estava absorto nas profundezas da correspondência, aconteceu-lhe assustar-se e virar-se, com a impressão de que havia alguém atrás de si. A sra. Doyne entrara sem que ele ouvisse a porta e deu-lhe um sorriso forçado quando ele se pôs em pé de um salto. “Espero”, disse ela, “não tê-lo assustado”.

“Só um pouco — eu estava tão absorto... Foi como se, por um instante”, o jovem explicou, “fosse ele próprio.”

A singularidade de seu rosto aumentou com sua surpresa. “Ashton?”

“Ele parece tão próximo”, disse Withermore.

“A você também?”

Isso compreensivelmente o espantou. “Você também sente a presença dele?”

Ela hesitou, imóvel no lugar onde estivera de início, mas olhando em volta da sala como se para penetrar em seus cantos mais escuros. Tinha ela um modo de levantar ao nível do nariz o grande leque negro, que aparentemente nunca abandonava e com o qual cobria assim a parte inferior do rosto, que tornava seus olhos um tanto duros, acima dele, ainda mais ambíguos-vagos. “Às vezes.”

“Aqui”, continuou Withermore, “é como se ele pudesse entrar a qualquer momento. Foi por isso que me assustei há pouco. Faz tão pouco tempo que ele realmente... foi apenas ontem. Sento-me em sua cadeira, folheio seus livros, uso suas penas, atiço seu fogo, exactamente como se, sabendo que ele retornaria agora de uma caminhada, eu tivesse subido até aqui, satisfeito, a aguardá-lo. É delicioso — mas estranho.”

A sra. Doyne, ainda com seu leque levantado, ouvia com interesse. “Isso o preocupa?”

“Não; agrada-me.”

Ela hesitou novamente. “Você já sentiu como se ele estivesse... ahm... pessoalmente na sala?”

“Bem, como disse agora há pouco”, riu seu companheiro, “ao ouvi-la atrás de mim pareceu-me senti-lo. Afinal, não é exactamente o que desejamos?”, perguntou ele, “tê-lo connosco?”

“Sim, como você disse que ele estaria — na primeira vez.” Ela encarou-o, concordando plenamente. “Ele está connosco.”

Ela era um tanto solene, mas Withermore apenas sorriu. “Então devemos mantê-lo. Devemos fazer apenas o que ele gostaria que fizéssemos.”

“Ah!, exactamente isso, é claro — apenas. Mas se ele está aqui...?” E seus olhos melancólicos pareciam sugerir, numa vaga ansiedade, sobre seu leque.

“Isso mostra que ele está satisfeito e quer ajudar? Sim, com certeza; deve estar a mostrar isso.”

Deu um leve suspiro e olhou novamente em volta da sala. “Bem”, disse ela enquanto se despedia, “lembre-se de que eu também desejo ajudar”. E com isso, quando ela se fora, convenceu-se de... que ela viera simplesmente para ver se ele estava bem.

Ele estava cada vez melhor, como descobriu em seguida, surpreso, pois à medida que começou a envolver-se no seu trabalho, assim lhe parecia, aproximou-se ainda mais da ideia da presença pessoal de Doyne. Desde que essa fantasia começara a envolvê-lo, ele a saudava, chamava-a, estimulava-a, até mesmo lembrava-se dela com prazer, ansiando durante todo o dia para senti-la renovar-se à noite e esperando pela noite, exatamente como um casal de amantes aguardariam a hora de seu encontro. Os acasos mais fortuitos animavam-na e confirmavam-na, e ao fim de três ou quatro semanas ele decididamente terminara por vê-la como a consagração de seu empreendimento. Não era ela a resposta ao que Doyne teria pensado do que eles estavam fazendo? O que eles estavam fazendo era o que ele desejava que fosse feito, e eles podiam ir em frente, passo a passo, sem vacilações ou dúvidas. Com efeito, havia momentos em que Withermore regozijava-se ao sentir essa certeza: por vezes, profundamente mergulhado em alguns dos segredos de Doyne, era particularmente agradável poder crer que Doyne desejava, por assim dizer, que ele os soubesse. Ele estava aprendendo muitas coisas que não imaginara, abrindo muitas cortinas, forçando muitas portas, desvendando muitos enigmas, percorrendo os bastidores, em geral, como se diz, de quase tudo. Era em uma dessas mudanças bruscas de direcção das perambulações mais obscuras pelos “bastidores” que ele realmente, de súbito, sentia-se mais fortemente, de um modo íntimo, perceptível, face a face com seu amigo; de tal modo que ele dificilmente poderia dizer, naquele instante, se seu encontro ocorrera no corredor estreito e comprimido do passado, ou na hora e no lugar que ele realmente ocupava. Fora em 1867, ou apenas do outro lado da mesa?

Felizmente, de qualquer modo, até mesmo à luz mais vulgar que a vida pública poderia jamais lançar, haveria o acontecimento magnífico do modo como Doyne estava “mostrando-se”. Ele estava mostrando-se maravilhosamente bem — melhor ainda do que um sectário como Withermore poderia ter imaginado. Todavia, durante todo o tempo igualmente, como esse sectário poderia descrever a alguém o estado especial de sua própria consciência? Não era algo de que se pudesse falar — era somente algo que se sentia. Havia momentos, por exemplo, em que, ao inclinar-se sobre seus papéis, a respiração leve do anfitrião morto estava tão nitidamente em seus cabelos quanto seus próprios cotovelos na mesa diante de si. Havia momentos em que, pudesse ele levantar os olhos, o outro lado da mesa teria lhe mostrado seu companheiro tão vividamente quanto a luz sombreada da lâmpada lhe mostrava sua página. Por que ele não podia levantar os olhos era assunto somente dele, pois a situação seguia regras — como era natural — de profundas subtilezas e delicados receios, por temor de um progresso demasiado súbito ou demasiado descortês. O que pairava no ar com maior intensidade era que, se Doyne estava lá, não era tanto por si mesmo quanto pelo jovem sacerdote em seu altar. Ele hesitava e protelava, ia e vinha e, em meio aos livros e papéis, movia-se quase como um silencioso, discreto bibliotecário, a executar certas tarefas, a oferecer auxílios discretos, tal como aprazia aos homens de letras.

O próprio Withermore, entrementes, ia e vinha, mudava de lugar, vagueava em buscas ora definidas, ora vagas; e mais de uma vez, descendo um livro de uma estante e nela encontrando marcas do lápis de Doyne, ele sentira-se estimulado e perdido, ouvira documentos sobre a mesa atrás de si suavemente moverem-se e agitarem-se, encontrara literalmente, ao seu retorno, alguma carta que pusera em lugar inadequado ser colocada novamente à vista, uma miscelânea desfeita ao abrir-se um velho periódico na data exacta que ele desejava. Como lhe fora possível, certa vez, dirigir-se a uma caixa ou gaveta em especial, em meio a cinqüenta receptáculos, que o auxiliaria, não fosse pelo fato de que seu místico ajudante, numa bela previsão, balançar sua tampa ou entreabri-la, exatamente de modo a lhe atrair a atenção? — a despeito, não obstante, de interrupções e períodos nos quais, caso se pudesse realmente ter olhado, ver-se-ia alguém em pé, ao lado da lareira, ligeiramente afastado e profundamente atento — alguém a fitar outro com um olhar um pouco mais duro do que na vida real.

III

Que essa relação auspiciosa de fato existira, permanecera durante duas ou três semanas, estava suficientemente provado pelo despertar da angústia mediante a qual nosso jovem tornou-se consciente de que havia, por algum motivo, desde uma certa noite, começado a perdê-la. O sinal disso foi uma percepção abrupta, atônita — quando ele perdera uma página maravilhosa não publicada que, por mais que procurasse, permanecia tolamente, irremediavelmente perdida —, de que esse estado protegido corria, afinal, o risco de alguma confusão e até mesmo de algum enfraquecimento. Se, para a felicidade do trabalho, Doyne e ele haviam, desde o início, estado juntos, a situação, poucos dias após a primeira vez em que desconfiara dela, passou pela estranha mudança de deixar de sê-lo. Foi isso que ocorreu, ele disse para si, a partir do momento em que a impressão de simples amontoado e de abundância surpreendentemente, na satisfação com que via seu material, substituiu sua presunção prazerosa de um curso desimpedido e de uma marcha veloz. Durante cinco noites ele lutou; e então, sempre longe de sua mesa, caminhando a esmo pela sala, consultando suas referências somente para deixá-las de lado, olhando através da janela, atiçando o fogo, pensando estranhos pensamentos e à escuta de sinais e sons, não como os supunha ou imaginava, mas os que inutilmente desejava e conjurava, ele decidiu que estava, ao menos naquele momento, desamparado.

Mas o extraordinário foi tornar-se esse fato motivo não somente de tristeza por não sentir a presença de Doyne, mas também de profunda inquietação. De certo modo, era mais estranho que ele não estivesse lá do que fora sua presença constante — na verdade, tão estranho, por fim, que os nervos de Withermore acabaram por ser afetados de modo bastante despropositado. Eles haviam se afeiçoado bastante complacentemente ao que constituía uma ordem inexplicável e reservado seu estado mais agudo ao retorno ao normal, à substituição do falso. E estavam excepcionalmente descontrolados quando, finalmente, uma noite, após resistir por uma ou duas horas, ele simplesmente saiu intempestivamente da sala. Tornara-se agora, pela primeira vez, impossível para ele permanecer lá. A esmo, mas ofegando um pouco e indubitavelmente como um homem assustado, ele caminhou pelo seu corredor costumeiro e alcançou o topo da escada. Lá, viu a sra. Doyne embaixo, olhando para ele exatamente como se soubera que ele viria; e o mais singular de tudo era que, embora estivesse consciente de que não tivera nenhuma intenção de recorrer a ela e de que fora impelido somente a acalmar-se pela fuga, vê-la naquela atitude fez com que ele reconhecesse seu fundamento, rapidamente a sentisse como parte de alguma opressão monstruosa que se estava fechando em torno de ambos. Foi maravilhoso como, num simples e moderno salão londrino, entre os tapetes de Tottenham Court Road e a luz elétrica, da senhora alta e em negro até ele e dele novamente até ela, lá embaixo, veio-lhe a certeza de que sabia o que significava o fato de ela olhar para ele como se ele o soubesse. Ele desceu imediatamente, ela entrou em sua sala particular no andar térreo e lá, em seguida, com a porta fechada, eles confrontaram, ainda em silêncio e nos rostos uma expressão estranha, as confissões que haviam nascido subitamente desses dois ou três movimentos. A descoberta do motivo pelo qual seu amigo o abandonara fez com que Withermore ofegasse. “Ele esteve com você? ”

Com isso expressou-se tudo — expressou-se tão completamente que nenhum deles teve de explicar e, quando um “O que você imagina estar acontecendo?” de súbito ouviu-se, entre eles, pareceu que tanto um quanto outro o havia dito. Withermore olhou em volta da pequena e iluminada sala na qual, noite após noite, ela estivera a viver sua vida do mesmo modo que ele estivera vivendo a sua lá em cima. Ela era bonita, aconchegante, rosada; mas ela sucessivamente ali sentira o que ele sentira e ali ouvira o que ele ouvira. O efeito que a sra. Doyne produzia ali — negro irreal, ostentoso e extravagante, sobre rosa escuro — era o de uma estampa colorida “decadente”, um cartaz da escola da moda. “Você compreendeu que ele me abandonou?”, perguntou ele.

Ela visivelmente desejava esclarecê-lo. “Esta noite — sim. Eu compreendi tudo.”

“Você sabia... antes... que ele estava comigo?”

Ela hesitou novamente. “Senti que ele não estava comigo. Mas na escadaria...”

“Sim?”

“Bem... ele passou, mais de uma vez. Ele estava na casa. E à sua porta...”

“Então?” ele continuou, quando ela mais uma vez vacilou.

“Se eu parasse, poderia algumas vezes saber. E por sua expressão”, acrescentou ela, “esta noite, de qualquer forma, eu sabia como você estava.”

“E foi por isso que você saiu?”

“Julguei que você viria até mim.”

A estas palavras, ele estendeu a mão para ela, e eles assim, por um mi-nuto, em silêncio, mantiveram as mãos apertadas. Não havia uma presença singular para ambos, agora — nada mais singular do que a de um para o outro. Mas o lugar subitamente tornara-se como que santificado, e Withermore transmitiu-lhe novamente sua ansiedade. “O que está acontecendo, então?”

“Eu apenas quero fazer a coisa realmente certa”, replicou ela após um momento.

“E nós não o estamos fazendo?”

“Não sei. Você não está?”

Ele ponderou também. “O melhor que posso, creio eu. Mas precisamos pensar.”

“Precisamos pensar”, ecoou ela. E eles realmente pensaram — pensaram intensamente, juntos, pelo resto da noite, pensaram cada qual em seu canto — Withermore pelo menos podia responder por si — durante os muitos dias que se seguiram. Ele interrompeu brevemente suas visitas e seu trabalho, tentando, em meditação, apanhar-se no ato de algum erro que pudesse explicar a perturbação de ambos. Haveria ele tomado, sobre alguma questão importante — ou parecera haver tomado — alguma passagem errada ou um ponto de vista errado? Teria ele em algum lugar inadvertidamente mentido ou insistido inadequadamente? Voltou por fim com a ideia de ter-se deparado com duas ou três questões às quais ele poderia estar tratando de maneira equivocada; depois disso, ele teve, no andar superior, outro período de agitação, logo seguido de outra conversação, no andar inferior, com a sra. Doyle, que ainda estava perturbada e ansiosa.

“Ele está aqui?”

“Ele está aqui.”

“Eu sabia!”, replicou ela com um estranho brilho de triunfo. E então, como que para esclarecer: “Ele não esteve novamente comigo”.

“Nem comigo para ajudar”, disse Withermore.

Ela ponderou. “Não para ajudar?”

“Não consigo entender — estou desnorteado. Faça o que fizer, sinto que estou errado.”

Ela cobriu-o por um momento com sua dor pomposa. “Como você o sente?”

“Ora, por coisas que acontecem. As coisas mais estranhas. Não consigo descrevê-las — e você não acreditaria.”

“Ah!, sim, eu acreditaria!”, murmurou a sra. Doyne.

“Bem, ele intervém”, Withermore tentou explicar. “Para onde quer que eu me volte, encontro-o.”

Ela seguiu-o atentamente. “Encontra-o?”

“Deparo-me com ele. Ele parece surgir lá, diante de mim.”

A sra. Doyne, olhando-o fixamente, esperou um pouco. “Você quer dizer que o vê?”

“Sinto como se a qualquer momento pudesse vê-lo. Estou perplexo. Estou chocado.” E então acrescentou: “Tenho medo”.

“Dele? ”, perguntou a sra. Doyne.

Ele pensou. “Bem... do que estou fazendo.”

“O que, então, de tão terrível, você está fazendo?”

“O que você propôs que eu fizesse. Entrar na vida dele.”

Ela mostrou, em sua atitude solene, um novo sobressalto. “E você não gosta disso?”

“Ele gosta? Essa é a pergunta. Nós o desnudamos. Nós o apresentamos numa bandeja. Como se chama isso? Nós o mostramos ao mundo.”

A pobre sra. Doyne, como se sob uma ameaça e diante de uma desventura de difícil reparação, ponderou sobre essas palavras, por um instante, com uma tristeza mais profunda. “E por que não o faríamos?”

“Porque não sabemos. Existem naturezas, existem vidas que se retraem. Ele pode não desejá-lo”, disse Withermore. “Nunca lhe perguntamos.”

“Como poderíamos? ”

Ele ficou em silêncio por um momento. “Bem, perguntemos a ele agora. Foi isso, afinal, que nossa iniciativa, até agora, representou. Nós o impusemos a ele.”

“Então — se ele tem estado connosco — tivemos sua resposta.”

Withermore falou agora como se soubesse no que acreditar. “Ele não tem estado ‘com’ nós ambos — ele tem estado contra nós.”

“Então, por que você julga...”

“O que eu julguei, de início... que o que ele deseja é fazer-nos sentir sua simpatia? Porque, em minha simplicidade inicial, eu estava enganado. Eu estava — não sei como chamá-lo — tão empolgado e encantado que não compreendi. Mas compreendo, finalmente. Ele apenas queria comunicar-se. Ele esforça-se por sair da escuridão; de lá de seu mistério, ele dirige-se a nós; ele nos faz débeis sinais de seu horror.”

“Horror?”, disse ofegante a sra. Doyne, com o leque à altura de sua boca.

“Do que estamos fazendo.” Ele conseguia, agora, juntar todas as peças. “Vejo agora que inicialmente...”

“Sim, o quê?”

“Tinha-se apenas que sentir que ele estava lá, e portanto não indiferente. E a beleza disso me enganou. Mas ele está lá como um protesto.”

“Contra a minha Biografia?”, gemeu a sra. Doyle.

“Contra qualquer biografia. Ele está lá para preservar sua biografia. Ele está lá para ser deixado em paz.”

“Então você desiste?”, ela quase gritou.

Ele não poderia senão concordar com ela. “Ele está lá como um aviso.”

Por um momento, diante disso, eles trocaram um olhar intenso. “Você está com medo!”, disse ela finalmente.

Isso o afectou, mas ele insistiu. “Ele está lá como uma maldição!”

Com isso eles se despediram, mas apenas por dois ou três dias; de tal forma a última palavra dela continuou a soar em seus ouvidos que, entre sua necessidade real de satisfazê-la e uma outra necessidade a ser atendida no momento, ele sentiu que não deveria ainda arriscar-se. Por fim, voltou na sua hora habitual e encontrou-a em seu lugar de sempre. “Sim, estou com medo”, anunciou, como se houvesse examinado-o muito bem e soubesse agora o que tudo aquilo significava. “Mas imagino que você não está.”

Ela vacilou, nada respondendo. “O que você teme?”

“Bem, que se continuar eu o verei.”

“E então...?”

“Ah!, então”, disse George Withermore, “eu deveria desistir!”

Ela ponderou com seu ar altivo, porém sincero. “Penso, você sabe, que devemos ter um sinal claro.”

“Você quer que eu tente novamente?”

Ela hesitou. “Você sabe o que significa — para mim — desistir.”

“Ah!, mas você não precisa”, disse Withermore.

Ela pareceu cismar, mas logo continuou. “Isso significaria que ele não tomará de mim...” Mas ela deteve-se, tomada de desânimo.

“Bem, o quê?”

“Tudo”, disse a pobre sra. Doyne.

Ele encarou-a por mais um momento. “Eu também pensei em um sinal claro. Tentarei novamente.”

Quando ele estava se afastando, contudo, ela lembrou. “Mas acho que esta noite nada foi providenciado — nem lâmpada nem fogo.”

“Não importa”, disse ele, do pé da escadaria; “eu encontro as coisas".

Ela respondeu que a porta da sala estaria, de qualquer modo, provavelmente aberta; e retirou-se novamente, como que a aguardá-lo. Ela não teve de esperar muito; embora, com sua própria porta aberta e a atenção concentrada, possa não haver tido uma percepção do tempo semelhante à do seu visitante. Ouviu-o na escada, após algum tempo, e ele logo surgiu à porta, onde, embora não houvesse se precipitado, mas antes se aproximado cautelosamente, relutante e incerto, apareceu por fim, lívido e estupefacto.

“Eu desisto.”

“Então você o viu?”

“Na soleira da porta... guardando-a.”

“Guardando-a?” Sua face afogueou-se acima do leque. “Claramente?”

“Imenso. Mas indistinto. Sombrio. Terrível”, disse o pobre George Withermore.

Ela continuou a inquirir. “Você não entrou?”

O jovem afastou-se. “Ele o proíbe!”

“Você diz que eu não preciso”, ela continuou após um momento. “Bem, então eu preciso?”

“Vê-lo?”, perguntou George Withermore.

Ela esperou um instante. “Desistir.”

“Cabe a você decidir.” Quanto a ele, conseguiu apenas cair por fim no sofá, o rosto apoiado nas mãos. Ele não se lembraria depois durante quanto tempo; mas se lembraria de que somente se dera conta, em seguida, de estar sozinho entre os objetos prediletos dela. Assim que ele se pôs de pé, contudo, com essa sensação e a de abrir-se a porta do salão, deparou-se novamente, envolvida na luz, na calidez, no espaço róseo, com a grande presença negra, perfumada, da sra. Doyne. Ele percebeu imediatamente, diante dos olhos enormes, mais soturnos, que o encaravam acima da máscara do leque, que ela havia estado lá em cima; e assim foi que, pela última vez, eles enfrentaram juntos sua estranha indagação: “Você o viu?”, perguntou Withermore.

Ele inferiria mais tarde, pelo modo extraordinário com que ela fechou os olhos e, como se para equilibrar-se, apertou-os com força e durante muito tempo, em silêncio, que, em comparação com a inominável visão da esposa de Ashton Doyne, a sua própria poderia ser classificada como uma libertação. Ele soube, antes que ela falasse, que tudo terminara. “Eu desisto.”

Henry James

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

CARTOON versus DÉCIMA

Lugares Marcados
HenriCartoon

«LUGARES MARCADOS»

- Olhe, por favor, sabe-me dizer
Qual o lugar do António Costa?
- Cu sentado em cima de bosta…
Isso não tem nada que saber!
- É mesmo o que penso fazer…
Sento no governo ou oposição?
- A merda é igual nesta ocasião…
Onde sentares, há de cheirar mal!
- Agradeço em nome de Portugal,
Mas sento à direita neste cadeirão!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

Pavlov's Dog
Episode

PAVLOV'S DOG - «Episode»
Episode by Pavlov's Dog on Grooveshark
Poet'anarquista

EPISÓDIO

Vi-te num dia chuvoso
E jogando pétalas numa piscina
Por isso, tire sua mente do passar das horas
Porque eu vou atrás de você em breve

Acredite que você é um dançarino
Embora talvez você faria uma melhor rainha
E antes de você deixar a melhor contagem de rosas
E uma maneira de louca, louca, que você quer gritar
Ou se você quiser, ele vai te dar chinelos
Ou atirar uma flecha no passado do sol
Ou ser o guardião sempre da minha mente e coração
Ou é melhor que você vá invisível

Uma vez você estava nas estrelas e agora duas vezes não está
E as coisas vão mal, como as fazem
Mas eu quero os arco-íris do céu
Eu só vou rouba -los quando puder

E eu sou apenas seu soldado
Uma relíquia de família para uma rainha de cesta
E todas as bolhas e eu estou febril
E só o silêncio matou meus sonhos
Se você quiser que ele vá te dar chinelos
Ou atirar uma flecha no passado do sol
Ou ser o guardião sempre da minha mente e coração
Você acha que tem controle
Não, você nunca saberá, você nunca saberá

Você vai ser o guardião do Santo Graal
Você aproveitá-lo rápido, não ouse falhar
Você é o único sobrevivente da sua sagrada missão
Ou é melhor que você vá invisível

Pavlov’s  Dog

CARTOON versus QUADRA

Precioso Segredo de Justiça

HenriCartoon

«PRECIOSO SEGREDO DE JUSTIÇA»

Como sabes, a Justiça é Cega...
De olhos vendados anda na rua,
E se a despem, ela fica nua...
 Depois o segredo não sossega!

POETA

OUTROS CONTOS

«Missa de Aniversário», conto poético por Ruy Belo.

«Missa de Aniversário»
Igreja de São Bento/ JPGalhardas

430- «MISSA DE ANIVERSÁRIO»

Há um ano que os teus gestos andam 
ausentes da nossa freguesia 
Tu que eras destes campos 
onde de novo a seara amadurece 
donde és hoje? 
Que nome novo tens? 
Haverá mais singular fim de semana 
do que um sábado assim que nunca mais tem fim? 
Que ocupação é agora a tua 
que tens todo o tempo livre à tua frente? 
Que passos te levarão atrás 
do arrulhar da pomba em nossos céus? 
Que te acontece que não mais fizeste anos 
embora a mesa posta continue à tua espera 
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez 
florido? 

Era esta a voz dele assim é que falava 
dizem agora as giestas desta sua terra 
que o viram passar nos caminhos da infância 
junto ao primeiro voo das perdizes 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos 
onde deixaste a marca dos teus pés 
Apenas na gravata. A tua morte 
deixou de nos vestir completamente 
No verão em que partiste bem me lembro 
pensei coisas profundas 
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar 
neste canto de nós donde anualmente 
te havemos piedosamente de desenterrar 
Até à morte da morte 

Ruy Belo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

CARTOON versus QUADRAS

O Peso da Justiça
HenriCartoon

«O PESO DA JUSTIÇA»

Sobre os vistos Gold…
Quem andou a abusar,
Com a justiça vai levar!
Como foi que se pôde?...

Submarinos?... eu falei
Em vistos Gold, caralho!
Não te dês ao trabalho…
 Não me pronunciarei!!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(26 de Fevereiro de 2008, morre o baterista norte-americano Buddy Miles, 
que actuou com Jimi Hendrix e Carlos Santana)

Buddy Miles
Baterista Norte-Americano

BUDDY MILES, JIMI HENDRIX, ELVIN BISHOP 
THE PAUL BUTTERFIELD BLUES BAND 
«Everythings Gonna Be Alright»
Live In NYC

OUTROS CONTOS

«A Luta com o Monstro», por Victor Hugo.

«A Luta com o Monstro»
Conto de Victor Hugo

429- «A LUTA COM O MONSTRO»

Depois do grande esforço, Gilliatt precisava recuperar as forças e começou a procurar alimento. Um grande caranguejo, assustado com a presença dele, tinha pulado na água, mas não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse. Fugia, e Gilliatt correu atrás dele. De repente, não viu mais nada. O caranguejo metera‑se por algum buraco debaixo do rochedo.

Gilliatt atracou‑se aos relevos da pedra e esticou o pescoço, para tentar ver alguma coisa. Encontrou ali uma anfractuosidade que era mais que uma fenda, era um pórtico. O mar entrava por baixo desse pórtico, mas não era profundo. Via‑se o fundo coberto de pedrinhas, que eram esverdeadas e revestidas de filamentos, indicando que nunca estavam a seco. O caranguejo devia ter‑se refugiado aí.

Gilliatt pôs a faca entre os dentes, desceu do alto da rocha e saltou na água, que o cobriu quase até os ombros. Meteu‑se pelo pórtico, e penetrou num cor­redor com um esboço de abóbada ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. Já não via o caranguejo. Tomara pé, caminhava, e diminuía‑se a luz. Começou a não ver coisa alguma.

Depois de quinze passos, cessou a abóbada e ele se achou fora do corredor. Havia mais espaço e mais luz. Os olhos iam‑se acostumando ao lugar e viam cada vez melhor.

Descobriu ao alcance da mão uma fenda horizontal no granito. Provavelmente estava ali o caranguejo. Meteu a mão o mais que pôde, e procurou às apalpadelas naquele buraco de trevas. De repente, sentiu que lhe agarravam o braço. O que ele experimentou, nesse momento, foi o horror indescritível.

Uma coisa que era delgada, áspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra à roda de seu braço nu, e subia‑lhe para o peito. Era a pressão de uma correia, e o impulso de uma verruma.

Em menos de um segundo, uma espécie de espiral tinha‑lhe invadido o punho e o cotovelo e tocava‑lhe o ombro. A ponta metia‑se‑lhe na axila.

Gilliatt atirou‑se para trás, e mal pôde fazê‑lo. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre, pegou na faca que tinha entre os dentes. Com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para retirar o braço direito. Só conseguiu inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexível como o couro, sólida como o aço, fria como a noite.

Outra correia, estreita e pontuda, saiu do buraco da rocha. Era uma espécie de língua saindo de uma goela e lambendo medonhamente o corpo nu de Gilliatt. De repente, esticando-se desmedida e fina, aplicou-se à pele e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava-lhe os músculos. Gilliatt sentia que a pele se abria em muitos pontos, de modo horrível. Parecia-lhe que inúmeros lábios, pregados à carne, procuravam beber-lhe o sangue.

Terceira correia saiu fora do rochedo, apalpou Gilliatt e chicoteou‑lhe os lados como uma corda. Afinal fixou‑se como as outras.

A angústia, no paroxismo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as formas repelentes aplicadas ao seu corpo.

Quarta ligadura, esta rápida como uma flecha, saltou‑lhe em roda do ventre e aí se enrolou.
Era impossível cortar ou arrancar aquelas correias viscosas, que lhe aderiam estreitamente ao corpo por muitíssimos pontos. Cada um desses pontos era um foco de terrível e estranha dor. Sentia como se fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.

Quinta ligadura saltou-lhe ao tronco, sobrepôs‑se às outras e foi enroscar‑se na altura do diafragma. A compressão ajuntava‑se à ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.

Aquelas ligaduras, pontudas na extremidade, alargavam-se como as lâminas de espada, da ponta para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam‑se para Gilliatt. Ele sentia deslocarem‑se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.

Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata saiu de dentro da rocha. Era o centro, e as cinco ligaduras prendiam‑se a ele como raios a um eixo. Do lado oposto daquele disco imundo, podia-se ver o começo de outros três tentáculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade havia dois olhos que olhavam para Gilliatt. Ele reconheceu naquilo um polvo.

Para acreditar no polvo, é preciso tê‑lo visto. Comparadas a ele, as velhas hidras fazem sorrir.

Em certos momentos, parece que o elemento fugidio que flutua em nossos pesadelos encontra paralelo na realidade, e dessas obscuras ficções do sonho surgem criaturas. O ignoto dispõe do prodígio e serve-se dele para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hesíodo só puderam fazer a quimera, Deus fez o polvo.

Quando Deus quer, excede no execrável. Admitidos todos os ideais, se o terror é um fim, o polvo é uma obra-prima.

Mas onde reside o perigo do polvo? A baleia é enorme, o polvo é pequeno; o hipopótamo tem uma couraça, o polvo é nu; a jararaca tem um silvo, o polvo é mudo; o rinoceronte tem um chifre, o polvo não tem chifre; o escorpião tem um dardo, o polvo não tem dardo; o tubarão tem barbatanas cortantes, o polvo não tem barbatanas; o morcego tem asas com unhas, o polvo não tem asas; o porco‑espinho tem espinhos, o polvo não tem espinhos; o espadarte tem um gládio, o polvo não tem gládio; o torpedo tem um raio, o polvo não tem raio; o sapo tem um vírus, o polvo não tem vírus; a víbora tem veneno, o polvo não tem veneno; o leão tem garras, o polvo não tem garras; o gipaeto tem um bico, o polvo não tem bico; o crocodilo tem uma goela, o polvo nem tem dentes.

O polvo não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem barbatanas, nem asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga elétrica, nem vírus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. Mas o polvo é, de todos os animais, o mais formidavelmente armado.

O que é o polvo? É a ventosa.

Nos escolhos em pleno mar, onde a água mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconheci­das onde abundam vegetações, crustáceos e conchas, debaixo dos profundos pórticos do oceano, o nadador que se aventura, arrastado pela beleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro, não sejas curioso: foge. Entra‑se fascinado, sai‑se apavorado.

Nadando, o polvo conserva‑se, por assim dizer, na bainha. Nada com as antenas fechadas. Imagine um punho costurado dentro de uma manga. Esse punho, que é a cabeça, impele o líquido e avança com um vago movimento ondulatório. Os dois olhos, embora grandes, são pouco distintos por serem da cor da água. Uma forma cinzenta oscila na água, como um trapo. A pouco e pouco o trapo caminha para a vítima, sob a forma de um guarda-chuva fechado sem o tecido. De re­pente abre‑se, e oito raios projetam-se bruscamente em torno de um saco que tem dois olhos. Esses raios vivem, flamejam ondeando. É uma espécie de roda que se desenrola, com 4 ou 5 pés de diâmetro.

Ati­ra‑se ao infeliz. A hidra arpoa o homem, aplica‑se à sua presa, cobre‑a, envolve‑a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é térrea. Nada pode imitar esse inexplicável matiz de poeira, como se fosse um animal feito de cinza e morando na água. É aracnídeo pela forma, é camaleão pelo colorido. Irritado, torna-se roxo. Coisa horrível, é flácido. Os seus nós garroteiam, o seu contato paralisa. Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a moléstia feita monstruosidade.

Não se pode arrancá‑lo, pois agarra‑se estreitamente à sua presa. Como? Pelo vácuo. As oito antenas, largas na origem, vão se estreitando e terminam como agulhas. Debaixo de cada uma delas alongam‑se paralelamente duas filas de pústulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fileira tem 25. Há cinquenta pústulas em cada antena, e todo o animal tem quatrocentas.

Essas pústulas são ventosas. São cartilagens cilíndricas e lívidas. Na grande espécie, vão diminuindo de diâmetro, desde uma moeda de 5 francos até a grossura de uma lentilha. Esses pedaços de tubos saem e penetram na vítima. Podem penetrar no corpo de um homem mais de uma polegada. É um aparelho de sucção com a delicadeza de um teclado. Levanta‑se, esconde‑se, obedece à menor intenção do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam a contratilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. É um dragão e é uma sensitiva.

Esse monstro é aquele que os marinheiros chamam polvo, que a ciência chama cefalópode, e que a legenda chama kraken. Os marinheiros ingleses chamam‑no devil‑fish, o peixe‑diabo. Chamam‑no também blood‑sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam‑no pieuvre.

Quando espreita a caça, o polvo esquiva‑se, diminui‑se, condensa-se, reduz‑se à mais simples expressão. Confunde‑se com a penumbra. Assemelha‑se a tudo, exceto a coisa viva. O polvo é o hipócrita, não se repara nele. Repentinamente, abre-se.

O que pode existir de mais medonho do que uma viscosidade com uma vontade? O viscoso cumulado de ódio?

É no mais belo azul da água límpida que surge essa hedionda estrela voraz do mar. O que é terrível é que não se o sente de longe. Quando a gente o vê, já está agarrado.

O polvo anda e também nada. É um tanto peixe e um tanto réptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.

Não tem osso, nem sangue e nem carne, é flácido. Não tem nada dentro, é uma pele. Pode-se virar-lhe os tentáculos de dentro para fora, como dedos de uma luva. Tem um só orifício no centro dos oito raios. É frio todo ele.

Repelente bicho. É um contato hediondo essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se puxa sem desgarrar, espécie de criatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos. Nada iguala a súbita aparição do polvo, medusa servida por oito serpentes. Não há aperto igual ao do cefalópode.

É uma máquina pneumática que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes, uma escarificação indizível. Uma mordedura é temível, mas menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra é o animal que entra na carne, a ventosa é o homem sugado pelo bicho. Incham-se os músculos, torcem-se as fibras, rebenta a pele debaixo de um peso imundo, jorra o sangue e mistura-se horrivelmente à linfa do molusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames. A hidra incorpora-se ao homem, o homem amalgama-se à hidra. Ficam sendo um só. O tigre pode apenas devorar, já o polvo (horror!) aspira, puxa o homem a si e em si.

Atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvaziado naquele terrível saco, que é um monstro. Além do terrível, que é ser comido vivo, há o inexprimível, que é ser bebido vivo.

Aquele monstro era o habitante daquela grota. Era o medonho gênio do lugar, estava em sua casa. Quando Gilliatt, entrando pela caverna em busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que ele se tivesse refugiado, o polvo estava ali à espreita. Gilliatt metera o braço no buraco, e o polvo o agarrou. Estava preso, era a mosca daquela aranha.

Gilliatt tinha água até a cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas correias do polvo e o tronco do corpo quase desaparecendo debaixo das dobras e cruzamentos daquela atadura horrível.

Dos oito tentáculos do polvo, três aderiam à rocha, cinco aderiam a Gilliatt. Deste modo, agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeavam-no ao rochedo. Gilliatt tinha sobre o seu corpo 250 chupadores. Estava apertado dentro de uma grande mão, com dedos elásticos e do comprimento de um metro, cheios de pústulas vivas que lhe fuçavam na carne.

Não se pode arrancar o polvo. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ele aperta-se mais, o seu esforço cresce na razão do esforço da vítima. Quanto maior é a sacudidela, maior é a constrição.

Gilliatt só tinha um recurso: a faca. Tinha a mão esquerda livre, e nela a faca aberta. Mas não se cortam as antenas do polvo; é um couro impossível de cortar, pois resvala debaixo da lâmina. E tal é a forma de contato, que um corte nessas correias atingiria a própria carne.

O polvo é formidável, mas há uma maneira de vencê-lo. Os pescadores o sabem, os ouriços-do-mar também o sabem. Ele só é vulnerável na cabeça, e Gilliatt não o ignorava.

Há um momento para vencer o polvo, como o há para o touro. É o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que o polvo estica a cabeça. Instante rápido. Quem o deixa escapar, está perdido.

O polvo procura apavorar a presa. Agarra e espera o mais que pode. Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções aumentavam. Ele olhava para o polvo, o polvo olhava para ele.

De repente o bicho desprendeu do rochedo a sexta antena. Atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o braço esquerdo. Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo, e a sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt. Sangrando no corpo e preso pelos braços, ele estaria morto.

Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava. Evitou a antena. No momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho. Houve duas convulsões em sentido inverso – a do polvo e a de Gilliatt. Foi luta de dois relâmpagos.

Gilliatt mergulhou a ponta da faca na viscosidade chata. Com um movimento giratório semelhante à torção de uma chicotada, fazendo um círculo à roda dos dois olhos, arrancou a cabeça como quem arranca um dente.

Estava acabado. O bicho caiu. Parecia uma roupa que se desprende. Destruída a bomba aspirante, desfez-se o vácuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo foi ao fundo da água.

Gilliatt, ofegante da luta, pôde ver a seus pés, em cima das pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes – a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.

O animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.

Victor Hugo

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CARTOON versus QUADRAS

Valha-te o DIAP
HenriCartoon

«VALHA-TE O DIAP»

- Minha senhora, em que andar
Fica a Centralina do DIAP?

- O Diabo hoje anda por Marte…
De momento terá que esperar.

- Mas qual Diabo, qual carapuça!…
Eu falei em DIAP, benza a Deus!!

- Esse tal Deus, é cá dos meus…
Não entra nem que a vaca tussa!!!

POETA

OUTROS CONTOS

«Contrariedades», conto poético por Cesário Verde.

«Contrariedades»
Contrariedades/ Edward Hopper

428- «CONTRARIEDADES»

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa de um jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a reclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 

Cesário Verde

PINTURA - RENOIR

«Na Costa do Sena»
Pierre-Auguste Renoir

Poet'anarquista

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(25 de Fevereiro de 1873, nasce o tenor italiano Enrico Caruso)

Enrico Caruso
Tenor Napolitano

ENRICO CARUSO - «La Donna é Mobile»
La donna é mobile by Enrico Caruso on Grooveshark
Poet'anarquista

A MULHER É VOLÚVEL

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

Sempre um amável,
Gracioso rosto,
Em pranto ou em riso,
É mentiroso.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento.

É sempre um infeliz
Quem a ela se entrega,
Quem lhe confia
Incautamente o coração.

Também nunca se sente
Feliz em cheio
Quem naquele seio
Não saboreia amor.

A mulher é volúvel
Como pluma ao vento,
Muda de sotaque
E de pensamento.

E de pensamento.
E de pensamento!

Enrico Caruso

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

SÁTIRA POLÍTICA

«O Embuste»
Sátira Política

O EMBUSTE

O querer reformar
Tem muito que se lhe diga,
Reformas à moda antiga
Acabam por não resultar.
Conselho que posso dar:
Não votem em camaleão
Que já foi falso à Nação,
Ou em monhé  palrador
Com ar d'anjinho salvador…
Mais do mesmo é que não!

POETA