segunda-feira, 18 de maio de 2015

OUTROS CONTOS

«Austerlitz», por W.G. Sebald.

«Austerlitz»
Romance de W.G Sebald

507- «AUSTERLITZ»

[Excerto/ pág. 32]

«Quando a chuva começou a fustigar as ruas, busquei refúgio em um minúsculo bar chamado, se bem me lembro, Café des Espérances, onde para considerável surpresa minha encontrei Austerlitz debruçado sobre seus apontamentos em uma das mesinhas de fórmica.

Nesse primeiro reencontro, tal como em todas as ocasiões seguintes, retomamos nossa conversa sem desperdiçar uma única palavra sobre a improbabilidade de nosso reencontro em um local como aquele, que nenhuma pessoa sensata teria procurado.

Do lugar onde ficamos sentados até tarde da noite no Café des Espérances, era possível avistar lá em baixo, por uma janela que dava para os fundos, um vale, talvez no passado cortado por campinas e regatos, no qual o reflexo dos alto-fornos de uma gigantesca fundição chamejava contra o céu escuro, e ainda me lembro claramente como Austerlitz, enquanto nós dois mirávamos imóveis aquele espectáculo, deu início a um discurso de mais de duas horas sobre como, no curso do século XIX, a visão de uma cidade operária ideal nascida da cabeça de empresários filantrópicos se transformou inadvertidamente na prática de acomodá-los em casernas, do mesmíssimo modo que nossos melhores planos, disse Austerlitz, como me lembro , sempre se convertem no seu exacto oposto quando postos em prática.»

W.G. Sebald

2 comentários:

Anónimo disse...



Caro Amigo e Conterrâneo Kabé:


... e "tudo" chegou ao fim!...


Um abraço!

Liva

Camões disse...

O meu pesar, conterrânea e amiga Liva, e restantes familiares.

Um abraço,

Kabé