sexta-feira, 6 de março de 2015

OUTROS CONTOS

«Ladrão de Sábado», por Gabriel García Márquez.

«Ladrão de Sábado»
Conto de Gabriel García Márquez

337- «LADRÃO DE SÁBADO»

Hugo, um ladrão que somente rouba nos fins-de-semana, entra numa casa num sábado de noite. Ana, a dona, uma linda mulher de trinta e poucos anos e insone empedernida, o descobre em flagrante. 

Ameaçada com a pistola, a mulher lhe entrega todas as jóias e coisas de valor, e lhe pede que não se aproxime da Pauli, sua filha de três anos. Mas a menina o vê e ele a conquista com alguns truques de mágica. Hugo pensa: “Por quê ir embora tão rápido, se aqui se está tão bem?” Poderia ficar todo o fim-de-semana e gozar plenamente a situação, pois o marido- sabe porque esteve espiando-lhes- não retorna da sua viagem de negócios até o domingo de noite. O ladrão não reflecte muito: veste as calças do senhor da casa, pede a Ana que cozinhe pra ele, que providencie um vinho da adega e que ponha algo de música para jantar, porque sem música não pode viver. A Ana, preocupada por Pauli, enquanto prepara o jantar tem uma ideia para tirar esse tipo da sua casa. Mas não pode fazer muito porque o Hugo cortou os fios do telefone, a casa está longe de tudo, é de noite e ninguém vai vir visitá-la a essa hora. Ana decide por um remédio pra dormir na taça do Hugo. Durante o jantar, o ladrão, que durante a semana é segurança de um banco, descobre que a Ana é condutora do seu programa favorito de rádio, o programa de música popular que ouve todas as noites, sem falta. Hugo é um grande admirador seu, então enquanto escutam ao grande Benny, cantando ‘Cómo fue’ numa fita cassete, falam sobre música e músicos. Ana arrepende-se de adormecê-lo pois o Hugo comporta-se tranquilamente e não tem intenções de machucá-la ou estuprá-la. Porém já é tarde demais porque o sonífero está na taça e o ladrão está bebendo muito contente. Não obstante, houve um erro, e quem tomou a taça com o remédio foi a própria Ana. Ela adormeceu num piscar de olhos. 

No dia seguinte, Ana acorda completamente vestida, muito bem coberta com uma colcha, no seu quarto. No jardim, Hugo e Pauli brincam, depois de terem tomado café da manhã. Ana surpreende-se com o bem que se dão. Além do mais, adora como cozinha o tal ladrão que, afinal de contas, é bem atraente.

Ana começa a sentir uma bizarra felicidade. Nesse momento uma amiga passa por sua casa para convidá-la a almoçar. Hugo fica nervoso mas a Ana inventa que a filha está doente e a dispensa imediatamente. Assim os três ficam juntinhos em casa, curtindo o domingo. Hugo conserta as janelas e o telefone que estragou na noite anterior, enquanto assobia. Ana fica sabendo que ele dança muito bem ‘odanzón’, dança que ela adora mas nunca pôde praticar com ninguém. Ele propõe que dancem uma canção e se ajustam de tal maneira que chegam até a madrugada. Pauli os observa, aplaude e finalmente cai no sono. Rendidos, acabam tirados num sofá da sala. Mas, como previsto, é hora do marido voltar pra casa. Ainda que Ana se resista, Hugo devolve quase tudo o que havia roubado, dá alguns conselhos para evitar que entrem outros ladrões, e despede-se das duas mulheres com muita tristeza. Ana olha-o enquanto se distancia. Hugo já quase sumiu e ela de repente o chama aos gritos. 

Quando ele retorna lhe diz, fitando-o, que no próximo fim-de-semana seu marido vai de viagem de novo. O ladrão de sábado vai embora feliz, dançando pelas ruas do bairro, enquanto anoitece.

Gabriel García Márquez

1 comentário:

Anónimo disse...

Garcia Marquéz sempre bizarro e inesperado!

Um amigo