sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

CARTOON versus QUADRAS

Quanto, de 1 a 10?
HenriCartoon

«QUANTO, DE 1 A 10?»

-Diz-me: o que achaste da aula prática…
Como avalias o meu empenhamento?
-Olha, se fosse tua superior hierárquica
Tinhas mais que certo o despedimento!

-Despedimento? Não estou a perceber…
Foi assim tão mau o entretenimento?
-De 1 para 10, levas meio por cento,
E contrato quem me saiba entreter!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Quarteto dos Agostinhos», por Eveline Sambraz.

Consultar por aqui:
«OUTROS CONTOS», (1ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).
«OUTROS CONTOS», (2ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).
«OUTROS CONTOS», (3ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).

«Carmen Pazadiñas»
Francisca Galhardas

76- «O QUARTETO DOS AGOSTINHOS»

(4ª e Última Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).

«Carmen Pazadiñas»

Quando em 1936, poucos meses depois do início da guerra civil espanhola, a Carmen chegou ao Monte dos Safoeiros, nos arredores de S. Romão, em companhia do pai, poucos pensaram que escaparia com vida, tal era o seu estado de saúde. Vinham fugidos da violência que a guerra tinha gerado em Villanueva del Fresno, o seu pueblo de origem, junto à fronteira portuguesa. Com apenas seis anos de idade, muito debilitada, com febres altíssimas, teria certamente morrido, se a lavradora, dona do monte, não se tivesse empenhado em lutar com todos os cuidados possíveis para a salvar. E o milagre deu-se. Os esforços da lavradora tiveram êxito. Dessa época ficou uma adoração sem limites por parte da Carmen por aquela mulher, a quem sempre chamou mãe. O pai, abegão de sua arte, um excelente artista, trabalhou sempre no monte, sempre clandestino, sem documentos portugueses ou espanhóis, morrendo alguns anos depois, altura em que a Carmen foi perfilhada pelos donos da herdade, adquirindo assim a nacionalidade portuguesa. É assim que a encontramos no colégio da Vila, fazendo parte do “Quarteto dos Agostinhos”. De corpo delgado, rosto moreno, bonita, com uns olhos negros, muito vivos, e cabelos castanhos que lhe desciam até à cintura. Muito namoradeira, chegou a ter famas que não merecia. Famas para as quais, aliás, ela se estava nas tintas, mas que afligiam muito os pais adoptivos. Estes, que não tinham outros filhos, dedicaram-se de corpo e alma a esta filha que lhes tinha aparecido numa noite de tempestade, embrulhada num cobertor e quase sem vida. Rivalizava com a Chibía nas ideias mais disparatadas. Foi dela, por exemplo, a ideia do quarteto formar um grupo de danças espanholas. 

«Quarteto das Sevilhanas»
Danças Espanholas

Esse grupo animou algumas festas de finalistas do colégio, dançando sevilhanas e outras danças do país vizinho. Mais tarde, depois de concluído o ensino secundário, ingressou no Conservatório Superior de Música de Lisboa. Depois de passar, como solista de viola clássica, por várias orquestras portuguesas e espanholas, acabou a carreira como professora de música na sua terra natal. Morreu em Villanueva del Fresno, em meados da década de noventa. Já ia no terceiro casamento e deixou três filhos, todos de pais diferentes. Um deles, ainda hoje vive na Vila. Foi a terceira do quarteto a desaparecer.

Houve uma precipitação nesta narrativa no que diz respeito à vida da Carmen.
Embora interesse a forma como viveram e morreram as integrantes do Quarteto dos Agostinhos, a intenção principal é dar a conhecer como decorreram os tempos em que o quarteto existiu de facto.
E esses foram os anos de quarenta e cinquenta.

Voltando atrás na vida da Carmen, o seu grande drama ocorreu em 1953. Os pais adoptivos morreram com apenas alguns meses de intervalo. Já ela estava casada. E com o casamento a correr mal. Foi quando voltou a viver na Vila. Juntamente com o filho, mas já sem o marido.

«Eveline Sambraz»
A Espera, por JPGalhardas

Do quarteto, por essa altura, a viver na Vila com caracter permanente, apenas restava a narradora, Eveline Sambraz. Que a apoiou durante esse duplo drama familiar: A morte dos pais e a separação.. Foram tempos muito maus. A Eva, estava a meio da sua primeira prisão e a Chibía tinha regressado a Angola, a título experimental, como dizia numa carta entretanto recebida. Foi por essa época que o Rufino Casablanca entrou na vida da Carmen. Como já foi referido nesta narrativa, o Rufino tinha sido objecto de uma paixoneta de todo o quarteto. Todas estiveram apaixonadas por ele. Paixonetas de adolescência, é verdade, mas o suficiente para introduzir alguns grãos de areia na amizade que mantinham.

O Rufino, que já estava razoavelmente integrado no meio musical lisboeta, depressa convenceu a Carmen para o acompanhar numa dessas aventuras musicais em que sempre foi insistindo ao longo da vida.
E a Carmen, que também era de grandes entusiasmos, sobretudo tratando-se de música, lá o seguiu, deixando o filho, com apenas dois anos de idade, na companhia de uma das amigas do quarteto, a Eveline Sambraz. Mais tarde, quando o projecto musical do Rufino e da Carmen deu em nada, quando se separaram, desavindos, e ela partiu para Espanha, na companhia dum maestro com quem entretanto tinha casado, foi a Eveline quem continuou a criar o filho que a Carmen tinha deixado para trás. Difíceis de acompanhar, difíceis e dolorosos estes acontecimentos, mas foram exactamente assim que se passaram. 

Depois do casamento com o maestro se ter desmoronado, ainda houve lugar para mais outro enlace, ainda com um músico. Estas foram as relações oficiais, ficando de fora os relacionamentos que não implicaram troca de alianças, sempre com gente ligada à música. E para mais dois filhos. Estes, de nacionalidade espanhola. O primeiro, de nacionalidade portuguesa, o que foi criado na Vila, e que ainda hoje lá vive, sempre considerou a professora Eveline Sambraz como sua mãe.

E foram eles as duas únicas pessoas de nacionalidade portuguesa a assistir aos funerais de Carmen Pazadiñas, em Villanueva del Fresno, já a década de noventa ia adiantada.

«Quarteto dos Agostinhos»
Eva * Chíbia * Carmen * Eveline

«É esta a história do quarteto dos Agostinhos, relatada pela única sobrevivente, Eveline Sambraz. Aqui fica este testemunho antes que a “Bruma dos Caminhos” varra da lembrança todas estas memórias.»

EVELINE SAMBRAZ
Vila Viçosa

«PENSAMENTO DO DIA», POR MAHATMA GANDHI

O indiano Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido por Mahatma Gandhi, nasceu em Porbandar, Guzerate,  a 2 de Outubro de 1869. Mahatma, ou a «Grande Alma», foi o idealizador e fundador do Estado Indiano Moderno e o maior defensor do satyagraha ou princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto, como um meio de revolução. O princípio do satyagraha, frequentemente traduzido como «o caminho da verdade» ou «a busca da verdade», também inspirou gerações de activistas democráticos e anti-racismo, incluindo Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela. Frequentemente Gandhi afirmava a simplicidade dos seus valores, derivados da crença tradicional hindu: verdade (satya) e não-violência (ahimsa). Mahatma Gandhi faleceu em Nova Déli, a 30 de Janeiro de 1948.
Poet’anarquista
Mahatma Gandhi
Fundador do Estado Indiano Moderno

«PENSAMENTO DO DIA»

«A única revolução possível é dentro de nós.»

Mahatma Gandhi

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

KRAFTWERK - «The Model»
The Model by Kraftwerk on Grooveshark
Poet'anarquista

A MODELO

Ela é uma modelo e ela está bonita
Eu gostaria de levá-la para casa, isso é certo
Ela se faz de difícil, sorri de vez em quando
Basta uma câmara pra fazê-la mudar de ideia

Ela sai hoje à noite, mas bebendo só champanhe
E ela está observando quase todos os homens
Ela está fazendo seu jogo e você pode ouvi-los dizer
Ela está bonita, pela beleza nós pagaremos

Ela está posando para produtos de consumo sempre que pode
Para cada câmara ela dá o melhor de si
Eu a vi na capa de uma revista
Agora ela é um grande sucesso, quero encontrá-la de novo

Kraftwerk

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

«PENSAMENTO DO DIA», POR AGOSTINHO NETO

António Agostinho Neto, ou simplesmente Agostinho Neto, nasceu em Catete, Ícolo e Bengo em Angola, a 17 de Setembro de 1922. Médico, formado nas universidades de Coimbra e Lisboa, foi o primeiro presidente angolano pós-independência, em 1975, como membro do Movimento Popular de Libertação de Angola. Em 1975/1976 foi-lhe atribuído o «Prémio Lenine da Paz». Desenvolveu em paralelo actividade literária através da escrita poética. Agostinho Neto faleceu em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979
Poet'anarquista
Agostinho Neto
Resistente, Anti-Fascista e Poeta Angolano

«PENSAMENTO DO DIA»

«O estado nada mais é que um grande bando de ladrões, uma máfia.
Só que… muito maior, mais opressiva, e mais perigosa.»

Agostinho Neto

OUTROS CONTOS

«O Quarteto dos Agostinhos», por Eveline Sambraz.

Consultar por aqui:
«OUTROS CONTOS», (1ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).
«OUTROS CONTOS», (2ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).
Poet'anarquista
«Chíbia Milongo»
Cabeça de Mulata, por Di Cavalcanti

76- «O QUARTETO DOS AGOSTINHOS»

(3ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência)

Chibía Milongo

(A mosca no leite)

A Chibía chegou à Vila em 1945. Vinha de Angola, mais exactamente, do sul de Angola. Da cidade de Sá da Bandeira, hoje, Lubango. Era filha de um engenheiro calipolense que administrava a linha de caminho de ferro de Moçâmedes. Uma linha ferroviária que teria mais de mil quilómetros de extensão e que ligava o porto da cidade de Moçâmedes à cidade de Serpa Pinto, hoje Menongue. Filha de pai branco e mãe negra. Mestiça, portanto. À medida que a construção da linha ia avançando para o interior do território, ela foi vivendo de acampamento em acampamento, tendo a mãe como única professora durante a aprendizagem das primeiras letras. Nos últimos tempos, antes de vir para a Portugal, já estudava na cidade de Sá da Bandeira, num colégio interno. Porém, um surto de malária que assolou essa região, decidiu os pais a enviá-la para Vila Viçosa, temendo pela vida da filha. Ficaria a viver em casa dos avós paternos, e aqui continuaria os estudos. 

Vila Viçosa/ Terreiro do Paço
Igreja dos Agostinhos e Quartel de Cavalaria

Foi assim que chegou à Vila e ingressou no colégio local. Com um feitio muito extrovertido, descarado mesmo, rapidamente fez amizades entre as colegas, e rapidamente também, passou a integrar o grupo de amigas de que trata esta narrativa. Dona de uma grande beleza, realçada pela cor morena da pele, usava o cabelo penteado com tranças muito finas, que ornamentava com pequeníssimas missangas. À sua maneira, descarada e provocante, usava, preso no tornozelo, por uma fita, um pequeno guizo que ia cantando enquanto andava.  E dizia, muito séria, “que era um costume da sua tribo, lá entre os pretos.” Sempre com a resposta na ponta da língua, muito afiada e acutilante, é também dela a expressão “mosca no leite“, referindo-se ao facto de ser a única rapariga de cor no meio das restantes alunas brancas do estabelecimento de ensino. Não foi uma aluna brilhante. Esse papel estava reservado para a Eva Potra. No entanto, nunca perdeu nenhum ano. Manifestando pouca vontade pela matéria dos estudos, sempre dizia que a História de Portugal apenas lhe interessava naquilo que se prendia com o período das descobertas dos portugueses. A forma como tinham chegado a Angola e como a tinham colonizado. Nessa parte, sempre misturava críticas com elogios. Interessava-lhe a dinastia dos Braganças, pois sendo D. João IV, natural de Vila Viçosa, assumia o orgulho que o pai sentia em aqui ter nascido também. Quanto à geografia, interessava-lhe muito mais o que se passava entre o Zaire e o Cunene, do que entre o Minho e o Algarve. Referia com frequência o facto da mãe ser filha de um chefe tribal do distrito do Cuando-Cubango, da região do Cuito-Cuanavale. Por vezes, até praguejava num dialecto desconhecido para as restantes membros do grupo. Cuanhama, assim se chamava o dialecto. E assumia com tanto orgulho os antepassados da mãe como assumia os do pai. Complexa, muito complexa, a Chibía. Foi a primeira pessoa a quem as restantes companheiras do quarteto ouviram dizer que Angola seria, um dia, país independente. Estávamos em 1945, é preciso não esquecer! No princípio da década de cinquenta, ainda o quarteto se mantinha, e todas se juntavam naqueles bailes de passagem de ano realizados no café Framar. Isso foi antes da Eva e da Chibía ingressarem na universidade e do regresso da Carmen a Espanha. A Eveline frequentava a escola do Magistério Primário em Évora. 

«Chíbia Milongo de Bessangana»
Bessangana, por Neves e Sousa

A Chibía apareceu nessa passagem de ano com um traje regional angolano, embrulhada numa capulana, que mais não era que um grande pano, de cores imensamente garridas, que a cobria desde os ombros aos pés. Fez furor, como, aliás, era hábito nela. Com as trancinhas coladas à cabeça e as inevitáveis missangas. Era a mulher mais bonita do baile. Acabaram a noite juntas, todas quatro, já a madrugada ia alta, com uma taça de champanhe a mais, fumando umas cigarradas, num daqueles bancos da Praça da República, entre o Framar e a Câmara. A conversa, está bem de ver, passou pelos tempos áureos do quarteto. Uma noite de recordações, de tristezas e também gargalhadas cristalinas. As mesmas gargalhadas cristalinas que há quase uma década vinham escandalizando algumas boas almas, conservadoras, que sempre as há, seja onde for. Foi nessa noite que a Chibía, finalmente, aceitou namorar com o Rufino. Há muito que ele a queria. O Rufino, por quem todo o quarteto teve uma paixoneta, mas que sempre tinha direccionado a sua atenção para a Chibía, conseguiu, nessa passagem de ano, que ela o aceitasse como namorado. Mas foi sol de pouca dura. Depois dele se formar como regente agrícola, profissão que nunca exerceu, e depois de enveredar por uma carreira musical, que lhe trouxe alguma notoriedade, ainda ela não tinha terminado o curso de direito, casaram. O casamento, porém, não durou muito. Depois do nascimento da filha e de aguentarem a relação durante alguns anos, a Chibía, pegou na miúda e foi viver para Angola. 

«Chíbia e o MPLA»
Independência de Angola

Imediatamente passou a dar corpo a velhas ideias e envolveu-se com um dos movimentos de libertação daquela colónia. Teve uma vida muito agitada nos anos seguintes, o que levou o Rufino a ir também para Angola afim de tomar conta da filha. Foram anos de muitas tragédias para todos eles. Ele sempre lhe prestou todo o apoio naqueles tempos conturbados. Tempos em que ela tanto estava presa, como em liberdade. E, praticamente, criou a filha sozinho. Mais tarde, muito mais tarde, já depois da independência daquela colónia, a Chibía, passou a viver com um comandante do movimento de libertação a que pertencia. Mas nunca abandonou o Rufino. Este, já doente, ainda chegou a viver em casa dela, no Lubango. E foi em casa dela que ele morreu. A Chibía morreu no ano seguinte. Foi a segunda do quarteto a desaparecer.

Eveline Sambraz

(Continuação...)

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(30 de Janeiro de 1951, nasce o músico e compositor britânico, Phil Collins)

PHIL COLLINS - «Land of Confusion»
Land of Confusion by Genesis on Grooveshark
Poet'anarquista

TERRA DA CONFUSÃO

Eu devo ter sonhado mil sonhos
Sido assombrado por um milhão de gritos
Posso ouvir o marchar dos pés
Movendo-se pelas ruas

Agora, você leu as notícias hoje?
Eles dizem que o perigo se foi
Mas eu ainda posso ver que há fogo
Aceso dentro da noite

Tantos homens, tantas pessoas
Causando tantos problemas
E nem tanto amor para nos rodear
Você não consegue ver que essa é a terra da confusão

Esse é o mundo em que vivemos
E essas são as mãos que nós estamos dando
Use-as e vamos começar tentando
Fazer com que valha a pena viver neste lugar

Oh super-homem onde você está agora?
Tudo está saindo errado de alguma forma
O homem de aço, homem de poder
Está perdendo o controle a cada hora

Essa é a hora, esse é o lugar
Então nós olhamos para o futuro
Mas não há muito amor para circular
Me diga porque essa é a terra da confusão?

Esse é o mundo em que vivemos...

Eu me lembro a muito tempo
Oh quando o sol brilhava
E as estrelas reluziam por toda noite
E o som das risadas enquanto eu te abraçava apertado
A tanto tempo atrás
Eu não voltarei para casa esta noite
Minha geração vai consertar isto
Não façamos promessas promessas
as quais sabemos que jamais serão mantidas

Tantos homens, tantas pessoas
Causando tantos problemas
A nem tanto amor para circular
Você não consegue ver que essa é a terra da confusão?
Esse é o mundo em que vivemos
E essas são as cartas que nós temos
Use-as e vamos começar tentando
Fazer desse um lugar pelo qual valha a pena lutar

Esse é o mundo em que vivemos
E esses são os nomes que temos
Erga-se e vamos começar a mostrar
Apenas onde nossas vidas estão nos levando

Phil Collins

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

«PENSAMENTO DO DIA», POR ANTON TCHEKHOV

Considerado um dos maiores escritores de conto curto, Anton Pavlovich Tchekhov nasceu em Taganrog, Império Russo, a 29 de Janeiro de 1860. Da sua escrita vos darei conta brevemente em «Outros Contos». Anton Tchekhov faleceu em Badenweiler , Império Alemão, a 15 de Julho de 1904.
Poet'anarquista
Anton Tchekhov
Escritor Russo

«PENSAMENTO DO DIA»

«O vinho e a música sempre foram para mim um magnífico saca-rolhas.»

Anton Tchekhov 

OUTROS CONTOS

«O Quarteto dos Agostinhos», por Eveline Sambraz.

Por aqui- «OUTROS CONTOS», (1ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência).
Poet'anarquista 
«Eva Potra»
A Amiga d' Évora/ JPGalhardas

76- «O QUARTETO DOS AGOSTINHOS»

(2ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência)

Eva Potra

(Onde se fala duma pobre menina rica)

A Eva nasceu em Lisboa, no seio de uma família de grandes proprietários de terras que se espalhavam por vários concelhos alentejanos. Nunca viveu em Vila Viçosa, embora a família aqui possuísse um palacete. Esse palacete apenas era ocupado durante as várias feiras que se realizavam na Vila, nomeadamente em Janeiro, Maio e Agosto, assim como durante as Festas dos Capuchos e os feriados em honra da Padroeira de Portugal. Nos tempos restantes vivia num monte que se situava entre a freguesia das Ciladas e o rio Quadiana, mas já no concelho do Alandroal. Filha única, sempre foi muito protegida e mimada pela família. Quando terminou o ensino primário, continuou os estudos no colégio da Vila. Chegava diariamente, sempre em cima da hora de início das aulas, transportada por um automóvel com motorista que lhe abria a porta para ela sair. Almoçava no interior do estabelecimento, de um conjunto de lancheiras que continham a refeição, e que ficavam à guarda do contínuo. No fim das aulas, já o automóvel a esperava no exterior, com a porta aberta pelo mesmo motorista. Todos os dias assim era. Até que um dia .... a Chibía  –  com aquele desembaraço que a caracterizava  –  se fez convidada para o almoço. O atrevimento foi prontamente aceite pela Eva, que de imediato abriu as lancheiras e as deixou à disposição da mulata.

«Chíbia, a Mulata do Grupo»
Mulata em Rua Vermelha/ Di Cavalcanti

Estiveram mais de uma hora à conversa, enquanto comiam, naquela mesa de mármore, debaixo do grande plátano que dava sombra ao recinto do recreio. Repetiram a cena por duas ou três vezes. Numa dessas vezes até foi a Chibía que trouxe o almoço. Mais modesto, é verdade, mas comido com a mesma vontade. Passada que foi uma semana, a Chibía sentenciou  –  «A menina rica não é só a melhor aluna da turma, é também uma tipa porreira. Está na altura de a trazermos para o grupo.»  – E uns dias depois já eram quatro à mesa. A Eva passou a trazer almoços reforçados que acrescentavam o farnel das outras. De boca cheia, contrariando todas as etiquetas, todas querendo falar ao mesmo tempo, cruzavam-se expressões em duas línguas: português e espanhol. Nunca aquela mesa de mármore e aquele plátano, ouviram gargalhadas tão cristalinas e conversas tão sérias, levando em conta a idade das convivas: catorze, quinze anos. Rapidamente a Eva tomou o comando do grupo. Era a única que falava francês com desenvoltura, dando explicações às outras. A língua espanhola também não lhe era estranha, pois as propriedades da família eram todas junto à raia de Espanha, o que lhe proporcionava um contacto muito frequente com os espanhóis. Para a Carmen foi bom falar, volta e meia, na sua língua de origem. Mas o que mais espanto causou nas outras foi o tipo de leituras que já praticava. Nada de livrinhos cor-de-rosa, nada de “Corins Tellados”, e autores afins. «Essas leituras não ensinavam, apenas atrofiavam» – dizia ela. E foi através da Eva que conheceram Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, e outros autores de que nunca tinham ouvido falar. Foi também com ela que, pela primeira vez, leram os sonetos duma poeta da Vila, de quem conheciam o nome, mas cujas obras andavam estranhamente arredias do conhecimento geral. Ou escondidas. Compreenderam melhor os interesses literários de Eva quando, numa tarde de primavera, esta as levou a sua casa. O monte era um enorme casarão, com uma magnífica vista sobre o rio Quadiana, onde uma grande sala tinha as paredes repletas de livros. - «A minha biblioteca» - dissera, simplesmente, a amiga Eva. A partir dessa data passou a ser a biblioteca de todas elas. Todas ali foram beber algum conhecimento. Foi, portanto, com naturalidade que ela assumiu a liderança do grupo. E foi também com naturalidade que as outras aceitaram essa liderança. 

«Quarteto dos Agostinhos»
Quatro Mulheres/ Di Cavalcanti

Assim nasceu o “ Quarteto a Perder-se nas Brumas dos Caminhos “. Durou três anos. Depois da tarde em que tiraram a fotografia no jardim dos Agostinhos, por consenso geral, mudaram o nome para “ Quarteto dos Agostinhos “. Levando em conta o destino de Eva, assim como de todas as restantes, aliás – pensou mais tarde a autora destas linhas – talvez a primeira designação fosse mais apropriada. Por volta dos vinte anos de todas elas, a vida teceu brumas em todos os caminhos. No que a Eva diz respeito, essas brumas encerravam desgostos e sofrimentos. Não para ela, que encarou esses desgostos e sofrimentos com alegria, coragem e determinação, mas para aqueles e aquelas que lhe queriam bem. Assim que entrou na universidade, iniciou a militância num partido que combatia o regime que governava o país. 

«As Brumas d' Eva Potra»
A Estátua, por José António Pinho

Presa várias vezes, voltava à liberdade, umas vezes, porque as acusações não eram graves, outras, porque a família utilizava os contactos que tinha e conseguia tirá-la dos calabouços da Pide. Na última vez que a prenderam, depois de passar à clandestinidade, mantiveram-na na cadeia durante vários anos. Sem julgamento. Uma das antigas companheiras do “Quarteto dos Agostinhos”, Eveline Sambraz, foi visita assídua durante essa fase da vida dela. Foi a revolução de Abril que a devolveu à liberdade. Ainda foi deputada depois da revolução. Morreu em 1990, de doença prolongada. Teve uma filha, a quem chamou Eveline, em homenagem à amiga que sempre a tinha acompanhado e apoiado. 

Foi a primeira do quarteto a desaparecer.
 
Eveline Sambraz

(Continuação...)

ESPECIAL MÚSICAS DO MUNDO

E a música especial de hoje é...
(28 de Janeiro de 2014, morre o músico, cantor e compositor de folk norte-americano, 
Pete Seeger)

PETE SEEGER - «Oh! Lisa, Poor Gal»

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

CARTOON versus DÉCIMA

A Recaída
HenriCartoon

«A RECAÍDA»

- Zé, tenho uma boa coscuvilhice
E uma má idiotice pra te contar…
A boa: o primeiro-ministro foi-se,
Isto é, acabou agora de renunciar…
-Ufa, doutor!... a febre está a baixar…
Sobre a má notícia, qual é a idiotice…?
-O 1º ministro da Ucrânia demitiu-se,
Não é desta que a febre te vai deixar!
-Recaída… temperatura a aumentar…
Se ao menos o 1º ministro sumisse!!

POETA

«PENSAMENTO DO DIA», POR J. D. SALINGER

O escritor norte-americano Jerome David Salinger, mais conhecido por J. D. Salinger, nasceu em Nova Iorque, a 1 de Janeiro de 1919. Dois dos mais conhecidos romances do autor são : «À Espera no Centeio» e «Uma Agulha no Palheiro». J. D. Salinger faleceu em Cornish, New Hampshire, a 28 de Janeiro de 2010.
Poet'anarquista
J. D. Salinger
Escritor Norte-Americano

«PENSAMENTO DO DIA»

«Alguns dos meus melhores amigos são crianças.
De facto, todos os meus melhores amigos são crianças.»

J. D. Salinger 

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(28 de Janeiro de 1887, nasce o pianista polaco Arthur Rubinstein)

ARTUR RUBINSTEIN
«De Falla - Ritual Fire Dance»

OUTROS CONTOS

«O Quarteto dos Agostinhos», por Eveline Sambraz.

Vila Viçosa/ Paço Ducal
«Convento e Igreja dos Agostinhos»
Vila Viçosa/ Terreiro do Paço
Desenho por D. Carlos de Bragança/ 1885 

76- «O QUARTETO DOS AGOSTINHOS»

(1ª Parte - Peças Soltas no Interior da Circunferência)


Agora, quando apenas resto eu para contar a história, passados que vão muitos anos sobre o nosso último encontro, é altura de dar a conhecer melhor este quarteto que tomou o nome “dos Agostinhos”. É preciso olhar para uma velha fotografia, com mais de sessenta anos, para que as palavras possam fluir e completar aquilo que a imagem, só por si, não consegue transmitir. Ali estamos as quatro, fazendo pose para o fotógrafo, com os nossos vestidos de tecido estampado, meias brancas, curtas, e sapatos rasos. Sorrisos de orelha a orelha. Nos nossos quinze anos, simultaneamente inocentes e travessos. Como cenário, o jardim dos Agostinhos. Ainda se vê, no lado direito da fotografia, um bom pedaço do muro do lago. Foi nesse dia que assumimos o nome “dos Agostinhos”. 

Lago do Jardim dos Agostinhos
O Cisne

Antes, o nome do grupo era um pouco mais complexo – “Quarteto a Perder-se nas Brumas dos Caminhos” – Complexo, mas com lógica. Eu explico: A Eva Potra, a intelectual do grupo, tinha ido buscar o nome ao verso de um soneto da Florbela. Dizia a Eva que, tendo todas nós nascido em 1930, ano da morte da poeta, fazia todo o sentido adoptar esse nome para designar o quarteto. E assim nos chamámos durante três anos. Mas havia que simplificar as coisas. Afinal, quem éramos nós para ir buscar o nome a um verso daquela Poeta?!

***

(ERRANTE

Meu coração da cor dos rubros vinhos 
Rasga a mortalha do meu peito brando 
E vai fugindo, e tonto vai andando 
A perder-se nas brumas dos caminhos

Meu coração o místico profeta, 
O paladino audaz da desventura, 
Que sonha ser um santo e um poeta, 
Vai procurar o Paço da Ventura... 

Meu coração não chega lá decerto... 
Não conhece o caminho nem o trilho, 
Nem há memória desse sítio incerto... 

Eu tecerei uns sonhos irreais... 
Como essa mãe que viu partir o filho, 
Como esse filho que não voltou mais! 

Florbela Espanca) 

***

E foi no dia em que tirámos essa foto no jardim dos Agostinhos que, a nós próprias, atribuímos o novo nome. Já conhecem o nome de uma das integrantes do grupo, a Eva, a nossa intelectual, conforme já foi dito. Não lhe atribuo essa qualidade com ironia. Era um título merecido. Mais tarde haveria de fazer carreira no mundo das letras. Mas cada coisa a seu tempo e em seu lugar. Lá mais para a frente, voltaremos a falar da Eva Potra. Vou agora apresentar-lhes as restantes:

Chibía Milongo, azougada, muito irrequieta, lindíssima, era a mais bonita do grupo. Nascida em Angola, vivia com os avós na parte velha da vila, no interior da muralha. A Carmen Pazadiñas, espanhola de nascimento, filha de refugiados da guerra civil de Espanha, vivia com uma família portuguesa que a tinha recolhido. E eu, Eveline Sambraz, que serei a narradora desta história. 

«O Quarteto dos Agostinhos»
«Eva * Chíbia * Carmen * Eveline»
Grupo de amigas tertulianas
(Os instrumentos só para a pose fotográfica)

Como curiosidade quero acentuar que sou a única alentejana do grupo. E a única que aqui nasceu e que aqui sempre viveu. Todas as outras, logo que completaram os estudos possíveis no colégio da Vila, rumaram para outros futuros: A Eva, foi para belas artes, em Lisboa. Aí, fez arquitectura, mas rapidamente começou a escrever e a meter-se na política, deixando a arquitectura para outros. Presa várias vezes, não foram poucas as ocasiões em que a visitei na prisão. A Chibía regressou a Angola no início da década de sessenta, aonde também se deixou imbuir pelo espírito nacionalista e passou a integrar um dos movimentos de libertação que lutavam contra a presença portuguesa naquela colónia. Quanto à Carmen Pazadiñas, voltou para Villanueva del Fresno, para se juntar aos membros da sua família que escaparam à razia da guerra civil espanhola. Aí viveu durante o resto da vida. Que não foi longa, aliás. Ah .... e eu .... que, tirando o curso no Magistério, me tornei professora  e durante quase quarenta anos de ensino, sempre em escolas da vila ou arredores, me passaram pelas aulas centenas ou mesmo milhares de alunos. Pois aqui têm todas as integrantes deste quarteto. A todas elas, eu incluída, dedicarei mais algumas linhas, afim de que possam conhecê-las melhor, lá mais para a frente, durante a narrativa. 

«Rufino»
Caricatura (?), por JPGalhardas

O curioso é que o quarteto esteve quase a ser um quinteto. O quinto elemento teria sido do sexo masculino. Exactamente. O Rufino esteve prestes a fazer parte do grupo, mas a gozação a que outros companheiros dele o submeteram impediu-o de fazer parte da tertúlia. Nessa época, fazer parte de um grupo de raparigas, era assim uma espécie de fraqueza e ele não esteve para aturar aquilo. Era, nessa altura, o rapaz mais interessante de Vila Viçosa. Todas estávamos apaixonadas por ele e hoje penso que a sua entrada no grupo teria sido um motivo de ciumeiras e discórdia entre nós. Manteve-se afastado, mas sempre acompanhou, à distância, as nossas actividades. Acabou por casar com a Chibía Milongo, e embora o casamento não tivesse resultado, acompanhou-a quando ela quis regressar a Angola. Morreu por lá. Está enterrado em Lubango, antiga cidade de Sá da Bandeira. Também voltarei a referi-lo durante esta narrativa pois talvez seja ele o mais interessante caso de vida. Como decerto já se aperceberam, éramos um grupo de raparigas que, curiosas das coisas da vida, procurámos, dentro das limitações que a sociedade calipolense dessa época oferecia, ver um pouco para além dessa mesma sociedade. Não que a vila não oferecesse motivos de interesse. Era mesmo um exemplo de povoação do interior, sendo apontada como modelo daquilo que o Alentejo tinha de melhor. Já nessa altura possuía uma grande unidade fabril que, dependendo das épocas do ano, dava trabalho a muitas dezenas ou mesmo centenas de pessoas. Possuía bons estabelecimentos de ensino, que atraíam alunos das povoações em volta e tinha uma vida associativa muito intensa, com várias sociedades, artísticas e culturais, a rivalizarem entre si. Desde já aviso que não é minha intenção fazer aqui uma análise da vida social de Vila Viçosa nessa altura, apenas pretendo, com o que atrás ficou dito, recriar o contexto em que se desenvolveu a amizade e relação daquele grupo de raparigas. E do que, sendo do meu conhecimento, se passou antes. Assim como do que se passou a seguir.

Eveline Sambraz

(Continuação...)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

OUTROS CONTOS

«Na Esteira do Parto», por Mia Couto.

«Na Esteira do Parto»
Conto de Mia Couto

75- «NA ESTEIRA DO PARTO»

O casal se chegou, em dupla obscuridade. Os dois pediam licença à penumbra. A mulher vinha mais dobrada que gruta na montanha. Estava grávida, quase em fim do estado. Chegados à claridade se reconheceu serem Diamantinho, o mais vizinho dos residentes, e sua redonda esposa, Tudinha Rosa, retorcida em dores e esgares. A pobre zululuava, em completas tonturas. Diamantinho, porém, parecia alheio à mulher.

O casal comparecia em casa de Ananias e Maria Cascatinha, os afáveis vizinhos. As duas donas ficaram na varanda, já uma esteira se estendendo para o que desse e saísse. Maria Cascatinha sorriu, timiúda: aquela era a sua mais pessoal esteira. Não era um simples objeto de assentar. Sobre aquela esteira haviam sido concebidos, de namoro e gemidos, seus todos filhos.

Diamantinho foi entrando, dando-se poiso e posição, mais instalado que convidado. Sentou-se, convocou os pedidos de uma bebida, serviu-se dos confortos. Ananias, o anfitrião, ainda lhe reparou a atenção: não ia ajudar a sua derreada esposa? O outro apenas sorria, saboreando prazeres desta e de outras vidas. Ananias insistiu:

— Você, Diamantinho, não divide o sofrimento familiar?

— Tem razão, Ananias, eu só penso da minha pança para cá. Na realmente, não valho as penas. Também já sou assim desde a barriga do meu pai.

Sobre a mulher, Diamantinho nem esboçou menção. Tudinha Rosa permanecia fora, em posição de estar deitada, descontorcida. Rejeitara, contudo, a esteira. Dar parto devia ser sobre a terra, a mãe das mães. Assim é o mandamento da tradição. Maria Cascatinha se agradecia por facto de a esteira ser dispensada. E enrolou-a num cuidadoso canto. Tudinha assentava agora sobre o mundo. Mas a carícia da terra de pouco lhe aliviava. A mulher seguia em dor: os olhos já ímpares, as tripas já triplas.

Na sala, o marido servia-se da bebida oferecida, vagueando os olhos em aplicações de preguiça. E continuava a fiar conversa, sempre na mais concisa inexatidão:

— Me sinto ferrujado, Ananias. Não é que eu seja mais velho que você. Eu nasci foi antes...

Ananias se enervava com a atitude do visitante, mais displicientífico que pangolim. Bem se sabe: partos são exclusivo assunto de mulheres. Diamantinho, no entanto, parecia por de mais alheado. E tanto mais quanto, lá fora, as coisas agora se complicavam. Tudinha desprogredia de nesga em vesga. Trocava tudo, até as rezas: o padre-maria e a ave-nossa. Em aflição, Ananias propôs ações e providências. Não seria melhor levar a grávida até à vila? O candidato a pai, sereno como rio em planície, não apresentava nenhum cuidado. Ordenou ao outro que sentasse, quieto. E estendia o copo a solicitar mais enchimentos. Tudo sem perplexidades.

A mulher, sua indiscutível esposa, se desdobrava em lancinantes gritos. Sobrinhas diversas se juntavam em roda, debruçadas sobre a sofrimentada mãe. O nervoso círculo das mulheres se podia ver pela janela. Até que Ananias foi chamado, em convocação de auxílio. Ananias sugeriu ao visitante que os dois acudissem mas o outro ripostou que estava a acabar uma bebida ainda mal começada. Que depois iria, já em tempo e disposição de proceder devidamente. Por enquanto, ele descascava o tempo, impassível como tronco de embondeiro.

Ananias rompeu a tradição, juntando-se ao parto que se demorava e às parteiras que se enervavam. Dúvidas gerais se começavam a espalhar. Todos, afinal, sabem: parto que se prolonga significa infidelidade da mulher. Para salvar a situação, a grávida deve admitir o pecado, divulgar o nome do autêntico pai da criança. Caso o contrário, então, o bebé fica retido no ventre, sem mês nem signo.

Então, no meio de gritos, suspiros e transpiros, Tudinha Rosa confessou ter trocado amores com Ananias, o próprio e presente anfitrião. Maria Cascatinha ficou em estado de nem-estar: seu marido, pai de alheio rebento? Porém, continuou seu trabalho de parteira, inalterável. Só os olhos dela se descomportavam, derramados. Sem palavra, ela findou a obra de desbarrigar a sua súbita adversária. No princípio, a confissão de Tudinha fora um simples murmúrio, não se ouvindo para além do recinto. Nos últimos esforços, porém, a grávida foi alardeando a consumada traição:

— Foi Ananias, foi ele!

Dentro, tudo se ouviu. Foi como se mundo abrisse rochas e rachas. Diamantinho, nesse repente, mudou da alvorada para o poente.

Saiu para a varanda com cara de marido, em ares de pareceres e pancadarias. Numa palavra: chocado e chocalhado. Descia de sujeito para fulano, de fulano para tipo. Nunca antes se vira tal metamorfase. Ele se enraivecia a ponto de lâminas e pólvoras. E gritou ameaças e impropérios: haveria Ananias de beijar os pés que ele pisasse. Entre os dois homens se procederam a estrondosas porradarias.

Enquanto socos e insultos se trocavam, o novo menino foi emigrando para a luz. Diamantinho e Ananias nem deram contas do nascimento. Tudinha e o recém-nascido foram levados para um interior quarto, em resguardo. Ananias, aviado de uns tantos sopapos, se recolheu no mesmo aposento da respectiva grávida. Ali ficou o tempo de muitas vidas. Na sala, Diamantinho soprou raivas, invocando feitiços e péssimos-olhados contra o dito Ananias. Depois, se derreou, infeliz como a casca sem a banana.

Maria Cascatinha, surgida de igual tristeza, veio a amparar o traído Diamantinho. Lhe assentou o braço sobre o ombro e lhe disse que lhe acompanhava, rumo a casa. Diz-se que Maria Cascatinha nunca mais voltou. Nem para buscar a sagrada esteira.

Mia Couto

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(27 de Janeiro de 1906, morre o músico e compositor brasileiro, Radamés Gnattali)

RADAMÉS GNATTALI
«Cabuloso»

«PENSAMENTO DO DIA», POR BALLESTER

O escritor espanhol Gonzalo Torrente Ballester, nasceu na aldeia de Serantes, Ferrol, na Corunha, a 13 de Junho de 1910. Integrado na «Geração de 36», foi «Prémio Cervantes» e autor de «Filomeno, a seu Pesar». Ballester faleceu em Salamanca, a 27 de Janeiro de 1999.
Poet'anarquista
Gonçalo Torrente Ballester
Escritor Espanhol

«PENSAMENTO DO DIA»

«Um homem com um garfo numa terra de sopas, bebe e come com as mãos, porque o garfo não lhe serve para nada, nem nunca lhe irá servir, e essas mãos são tudo o que tem, da mesma maneira que o ser humano na vida apenas tem a sua honestidade para a viver. Há muitas terras cheias de sopa, carregadas de cores, convidando-te com cantos de sereia, oportunidades, êxitos, luxos... mas a única colher para apurar a existência reside em nós mesmos. Mãos e coração.»

Gonzalo Torrente Ballester

domingo, 26 de janeiro de 2014

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

13TH FLOOR ELEVATORS
«Thru the Rhythm»
Thru the Rhythm by 13th Floor Elevators on Grooveshark
Poet'anarquista

ATRAVÉS DO RITMO

Através do ritmo dos tempos escuros
Pintado de preto por crimes de conhecimento
e repetições inúteis
Incutir valoriza o doente a definir
Isso mantém o tecido que o mantém cego
E laços nas suas mãos e mantos na sua mente
Mas no meu pau, eu estou acima do lodo

Venha se você pode fazer a escalada, mas quem sou eu?
Quem sou eu? Quem sou eu?

Eu cheirava o cheiro da fumaça que se elevava
Dos livros que refazer as mesmas velhas mentiras
eu senti o pânico que eles disfarçam
nas formas de leis de todos os tamanhos
Eu ouvi os professores reclamarem e caio fora como moscas
Mas você sabe que eles te ensinam o absurdo, porque eles não podem cegar os olhos
Eu vi o ouro dos tolos e peão fora como prémio

Para o nível médio o material normal, mas onde estou?
Onde estou? Onde eu estou?

Você engoliu todas as bênçãos que lhe custaram a digerir
Eles podem ser difícil de engolir, mas eles mantêm a sua língua deprimida
seus caprichos espalhados nascem deprimidos
Assim, quando algo bate no seu peito
Você vibra aproximadamente, você está elegante angustiado
E quando você parar para aliviar seu peito
Na borda espalhados deixa-o obcecado

Enquanto pensamentos sólidos são logo suprimidos, mas onde você está?
Oh, onde está você? Hey! Onde você está?
Onde você está?
Onde você está?

13th Floor Elevators

PINTURA - THÉODORE GÉRICAULT

O pintor francês Jean-Louis André Théodore Géricault , ou simplesmente Théodore Géricault, nasceu em Rouen, a 26 de Setembro de 1791. Foi considerado um dos mais influentes pintores franceses do Romantismo. Théodore Géricault  faleceu em Paris, a 26 de Janeiro de 1824.
Poet'anarquista
«Auto-Retrato»
Théodore Géricault
SOBRE O ARTISTA…

Artista plástico francês nascido em Rouen, dono de um estilo pessoal bastante preocupado com o detalhamento e com o estudo da natureza, que exerceu notável influência sobre os movimentos romântico e realista.

Estudou em Paris com o pintor de temas equestres Carle Vernet e com o académico Pierre Guérin, mas os seus quadros iniciais mostraram influência do pintor pré-romântico francês Antoine Gros.

Depois de passar um ano na Itália, onde se entusiasmou pela obra de Michelangelo e realizou numerosos esboços de obras clássicas, voltou a Paris, onde sob a influência dos escritores românticos britânicos, decidiu orientar a sua pintura para uma temática contemporânea.

Produziu um famoso quadro, o óleo sobre tela de 4,19 x 7,16 metros, La Balsa de la Méduse (1818-1819), sobre o naufrágio do navio Medusa, acontecimento trágico que provocou um escândalo político na França (1816). O Medusa era um navio do governo que transportava colonos franceses para o Senegal, e afundou na costa oeste da África devido à incompetência do capitão, nomeado politicamente.

«A Jangada de Medusa»
Théodore Géricault

Esta obra, que marcou a eclosão do romantismo em pintura, não teve bom acolhimento da crítica, o que fez o pintor partir para a Inglaterra (1820). Em Londres, a sua polémica tela obteve o êxito almejado e ele prolongou a sua estadia naquele país por três anos, período em que pintou uma série de litografias e numerosos esboços.

De volta a Paris, pintou uma série de retratos de doentes mentais, e com a saúde debilitada em consequência de uma queda de cavalo, morreu na capital francesa. Na sua vida particular era considerado um romântico típico, não se preocupava com o seu bem estar e dedicava-se a uma vida de paixão, defendendo os oprimidos.
Com a sua morte, o seu colega e amigo Ferdinad Victor Eugène Delacroix (1798-1863) tornou-se líder do movimento romântico francês.
Fonte: dec.ufcg.edu.br/
«O Beijo»
Théodore Géricault

«O Cortejo de Silene»
Théodore Géricault

«O Cortejo de Silene»
Théodore Géricault

«Leida e o Cisne»
Théodore Géricault

«Vista de Tivoli»
Théodore Géricault

«Nu Masculino»
Théodore Géricault

«Paisagem com Aqueduto»
Théodore Géricault

«ROMANTISMO/ OS ROSTOS»

THÉODORE GÉRICAULT

sábado, 25 de janeiro de 2014

CARTOON versus SONETO

A Mania das Pressas
HenriCartoon

«A MANIA DAS PRESSAS»

-Oh Zé, vai com calma rapaz,
A seu tempo outro imposto…
Podes então morrer em paz,
Já não tens onde cair morto!

-Recebo, p’ra meu desgosto,
Uma facada na parte detrás…
Cai-o de frente com o rosto,
Sobreviver não sou capaz!

-Mas qual a pressa desta gente?...
É preciso ter alguma paciência!
Morre aos poucos, lentamente…

-Traiçoeiramente apunhalado
P’las costas, sem advertência,
E ainda por cima sou gozado!?

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

JOE SATRIANI - «Hordes of Locusts»

POESIA - ROBERT BURNS

O poeta escocês Robert Burns, também chamado de Rabbie Burns, nasceu em Alloway, Ayrshire, a 25 de Janeiro de 1759. Os seus poemas pressupõem o romantismo e a comédia, simples e espontâneos, e a sua escrita poética é inspirada em temas como a aldeia, a natureza e os seus amores. Robert Burns faleceu aos 36 anos, em Dumfries, a 21 de Julho de 1796.
Poet'anarquista
Robert Burns
Poeta Escocês
SOBRE O POETA…

Romancista escocês nascido em Alloway, no condado de Ayrshire, um pioneiro do romantismo europeu. O amor à natureza e às tradições da sua Escócia natal, aliadas às dificuldades económicas que enfrentou na adolescência motivaram a sua rebelião contra as condições sociais da época, expressadas com vigor na sua obra, que também refletiu a sua vida boémia.

Poems, Chiefly in the Scottish Dialect (1786), cujo êxito fez  com que abandonasse os planos de emigrar para a América, e Tam o'Shanter (1789), poema narrativo de carácter burlesco, constituíram as suas obras mais valiosas.

Depois da segunda edição dos seus poemas, dedicou-se à composição de canções populares e escreveu cerca de trezentas, que apareceram em compilações de James Johnson e George Thomson. Algumas dessas composições eram originais e outras haviam sido adaptadas do folclore tradicional escocês. Em todas elas, contudo, apreciava-se um crescente interesse do poeta por reflectir com realismo o espírito popular sem perder por isso o rigor poético. 

Morreu aos 36 anos por doença, em Dumfries, Escócia.
Fonte: brasilescola.com/

ANA

Ai, vinho que ontem bebi 
Escondido numa choupana, 
quando em meu peito senti 
os negros cabelos de Ana! 
O judeu já no deserto 
que bebia o que Deus mana 
não sabia o mel oferto 
nos lábios ardentes de Ana! 

Reis, tomai o Leste e o Oeste, 
desde o Indo até o Savana, 
mas dai ao corpo que as veste 
as formas trementes de Ana! 
Encantos desdenharei 
de imperatriz ou sultana 
pelo prazer que darei 
e tomarei só com Ana. 

Vai-te, faustoso deus diurno! 
Vai-te, pálida Diana! 
Suma-se o claror nocturno, 
quando eu me encontro com Ana! 
Venha a noite em negro manto! 
Sol, Lua, Estrelas, deixai-nos! 
Só com, penas de anjo o encanto 
direi dos gozos com Ana. 

Robert Burns

CANÇÃO

 Tenho mulher só pra mim
Não divido com ninguém
Ninguém vai me pôr chinfrim
Não ponho chifre em ninguém 

Tenho um real pra gastar
Graças a quem? A ninguém
Não tenho nada a emprestar
Não empresto de ninguém

Eu não sou senhor de escravo
Nem escravo de ninguém
Com minha espada sou bravo
Mas sem ofensa a ninguém

Quero ser o alegre amigo
Sem tristeza por ninguém
Ninguém se importa comigo
Não me importo com ninguém

Robert Burns

MARY MORISON

Maria, assoma à janela:
chegou por fim o momento!
O teu sorriso empobrece
os oiros do avarento…

Até me fazia escravo
a moirejar noite e dia,
se como prémio tivesse
a minha doce Maria!

Ontem, ao som das violas,
a aldeia inteira bailava;
só eu, sem ouvir nem ver,
para ti, meu bem, voava…

Fossem loiras ou morenas,
nenhuma ali te vencia…
Eu, então, só me queixava
Não sois a minha Maria!

A quem por ti dera a vida,
vais, Maria, enlouquecer?
Ou rasgar-lhe o coração
sem culpa de bem-querer?

Se amor por amor não dás,
pena tem desta agonia…
Mal ficava ser cruel
à minha doce Maria!

Robert Burns