sábado, 30 de novembro de 2013

«ALMA DE CÔRNO», POR FERNANDO PESSOA

30 de Novembro de 1935, morre em Lisboa o grande poeta, filósofo e escritor português, Fernando Pessoa. No corrente ano de 2013, creio que em Maio, foram descobertos manuscritos do poeta até agora inéditos. O soneto «Alma de Côrno», que hoje se publica na efeméride, encontrava-se entre esses escritos desconhecidos. Ainda bem que lá estava, é de facto inédito o soneto métrico. Fernando Pessoa, um poeta genial!
Poet'anarquista
Fernando Pessoa
Poeta Português

ALMA DE CÔRNO

Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –

Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!

De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.

Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.

 Fernando Pessoa

Nota: reprodução do poema respeitando a grafia original do fac-símile.

CARTOON versus QUADRAS

O Grande Rival
HenriCartoon

«O GRANDE RIVAL»

-Ribéry: na luta entre você e Ronaldo
Pra ver qual é o melhor do mundo,
Quem acha que pode ser o sortudo?...
A balança, vai pender pra que lado??

-Quantos quilos pesa esse tal CR7?
Se o peso conta pra ganhar o prémio,
A disputa entre nós dois promete…
Será que alguém leva isto a sério??

POETA

OUTROS CONTOS

«O Azeiteiro e o Burro», conto tradicional português.

«O Azeiteiro e o Burro»
Conto Tradicional Português

33- «O AZEITEIRO E O BURRO»

Dois estudantes encontraram, numa estrada, um azeiteiro com um burro carregado de bilhas de azeite. Os estudantes estavam sem dinheiro; por isso, decidiram roubar o animal. Enquanto o pobre homem seguia o seu caminho,  um deles tirou a cabeçada do burro e colocou-a no pescoço. O outro estudante fugiu com o animal e a carga. De repente, o azeiteiro olhou para trás e viu um rapaz em vez do burro.

Rapaz com a Cabeçada do Burro
Conto Tradicional Português

Nesse momento, o estudante exclamou: «Ah! senhor, quanto lhe agradeço ter-me dado uma pancada na cabeça! Quebrou-me o encanto que durante tantos anos me fez ser burro!...» 

O azeiteiro tirou o chapéu e disse-lhe: «Afinal, o meu burro estava enfeitiçado! Perdi o meu ganha-pão! Peço-lhe mil perdões por tê-lo maltratado tanta vez -  mas que quer? - o senhor era muito teimoso!»

-Está perdoado, bom homem! - disse o estudante. O que lhe peço é que me deixe em paz.

O Burro do Azeiteiro
Conto Tradicional Português

O pobre azeiteiro lamentou-se porque já não podia vender o azeite. Então, foi pedir dinheiro a um compadre para ir à feira comprar outro burro. Quando lá chegou, viu um estudante a vender o seu burro. O azeiteiro pensou que o rapaz se tinha transformado, outra vez, num animal! Aproximou-se do burro e gritou com toda a força: 

«Olhe, senhor burro, quem o não conhecer que o compre».

Conto Tradicional  Português 

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(30 de Novembro de 1955, nasce o músico e compositor, Billy Idol)

BILLY IDOL - «Eyes Without a Face»
Eyes Without A Face by Billy Idol on Grooveshark
Poet'anarquista

OLHOS SEM UM ROSTO

Estou totalmente sem esperança,
Mais um rompimento sério poderia causar uma queda.
Quando eu estiver longe de casa,
Não me chame no telefone
Para me contar que você está sozinha.
É fácil enganar,
É fácil provocar,
Mas difícil de se libertar...

Olhos sem um rosto)
Olhos sem um rosto,
(Olhos sem um rosto)
Olhos sem um rosto,
(Olhos sem um rosto)
olhos sem um rosto,
Não têm nenhum encanto humano
Seus olhos sem um rosto.

Eu gastei tanto tempo
Acreditando em todas as mentiras,
Para manter o sonho vivo.
Agora isso me deixa triste,
Isso me deixa louco na verdade
Por amar o que você era...

Quando ouve a música, você «dá um mergulho»
No bolso de alguém e então comete uma imprudência,
Rouba um carro e vai para Las Vegas oh, a piscina dos gigolôs.
Perambulando pela Via Estadual
Transformando água benta em vinho
Trazendo-a para baixo, oh
Estou num ônibus, numa viagem psicadélica,
Lendo livros de assassinato tentando ficar «por dentro» do assunto.
Estou pensando em você, você está lá fora, então
Faça suas preces,
Faça suas preces,
Faça suas preces...

Agora, fecho meus olhos
E imagino o porquê
Eu não desprezo,
Agora tudo que posso fazer
É amar o que uma vez foi
Tão vívido e novo,
Mas desapareceu dos seus olhos...
Seria melhor que eu percebesse...

Que desperdício humano
Seus olhos sem expressão

E agora está ficando pior.

Billy Idol

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

CARTOON versus QUADRAS

A Esperança é a Última a Afundar
HenriCartoon

«A ESPERANÇA É A ÚLTIMA A AFUNDAR»

-Calma, o ministro não falou à toa,
Os Estaleiros de Viana é coisa pouca!…
Primeiro deixa-se ir ao fundo a proa,
Depois a pique, afundamos na popa!!

-Assim fico mais descansado,
A esperança é última a naufragar…
Afogado nas profundezas do mar
Finalmente vou ser sepultado!

POETA

CARTOON versus OITAVA

Figuras em Destaque
HenriCartoon

«FIGURAS EM DESTAQUE»

-Zé, viste quem passou por aqui
Naquele carrão fora do normal?...
Era um tal de Américo Amorim,
O homem mais rico de Portugal!...
Quem me dera que fosses assim,
Figura destacável, e mui nobre!!
-Maria, destaco-me a contar do fim…
Dos figurantes, sou o mais pobre!!!

POETA

CARTOON versus QUADRAS

Modernices da Informação
HenriCartoon

«MODERNICES DA INFORMAÇÃO»

-Com a quebra na venda de jornais
O ‘online’ é o melhor investimento,
Formato em papel não se usa mais…
Se ainda não tem um PC, lamento!

-A crise parece nunca mais terminar!…
Em ‘online’ não vai dar pra aquecer,
Ao relento sem jornal pra me tapar…
Em ‘offline’ vou acabar por morrer!!

POETA 

MÚSICAS DO MUNDO

E as músicas de hoje são...
(Dedicadas ao «Tio Rico» e ao «Tio Músico»)

DUO N'GOLA - «Mariana»
Mariana - Duo N'Gola by Various Artists on Grooveshark
Poet'anarquista

N'GOLA YETU - «Chico Joaquim»
N'Gola Yétu - Chico Joaquim by Various Artists on Grooveshark
Poet'anarquista

Nota: direi que o primeiro «viva» de N'Gola Yetu foi o mais vivo...

OUTROS CONTOS

«O Tio Músico», por Orson W. Calabrese

Nota do autor: «Episódios avulso e sem importância, passados em Angola no tempo colonial.»
«O Tio Músico»
Carlos Paredes, Seregrafia de Marco Moura

32- «O TIO MÚSICO»

Foi para agradar dos pais – os meus avós –  que se mudou para Lisboa. Ele queria era continuar a ritmar com os companheiros do “N’Gola”, nos merengues e rebitas nos musseques dos arredores de Luanda. 

Cidade de Luanda, Angola (1972)
Marginal à Baía

Com muito boas notas no Liceu Salvador Correia, facilmente conseguiu entrar na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Mas ele queria lá saber das medicinas, o que ele queria era ser músico. E assim que se apanhou à solta na capital do império, com dinheiro no bolso, frequentou todas as matinés do Monumental, chegando a integrar alguns dos conjuntos que aí actuavam nos domingos à tarde. Por essa altura já estava fascinado pela guitarra portuguesa e, assim, vadiou por todas as casas de fado da cidade. Acarinhado por todos, e por ser um bom companheiro, depressa arranjou quem o iniciasse nos segredos desse instrumento. Rapidamente se fez mestre.

Cine-Teatro Monumental, Lisboa (1952)
Foto Estúdio Novais e Fundação Gulbenkian

Quem diria que aquele mulato, comprido de quase dois metros, teria tanto talento para a guitarra portuguesa, instrumento que os puristas do fado, em Lisboa,  consideravam da sua inteira exclusividade!? É claro que tanta rambóia teria que acabar mal. Após três chumbos seguidos lá pelas medicinas, e várias discussões epistolares, os pais cortaram-lhe a mesada. Mas o que ganhava em Lisboa não era suficiente para se aguentar em Portugal. Com a ajuda e a cumplicidade da irmã – a minha mãe – regressou a Luanda. 

Regresso a Luanda
T-6 Descolando rumo a Angola

Sempre sob a indiferença dos pais, chegou a ser guitarrista privativo da casa de fados “Muxima”. E as noitadas no “Vilela”, com bacalhau assado na brasa e caldo verde com chouriço, acompanhando os fadistas locais e os que estavam de passagem. Isso nem se conta! Para angariar um sustento extra, trocava muitas vezes a guitarra pela viola, ou pelos tambores – de seu próprio fabrico – e, juntamente com os velhos companheiros de juventude, farra e catuta, lá voltava ele a animar, sempre que a ocasião se proporcionava, os antigos merengues e rebitas.

«Merengues e Rebitas»
Festa Africana, por Neves e Sousa 

Morreu novo. Tuberculoso, segundo disse mais tarde a minha mãe. Ainda não tinha quarenta anos.

E quando tivemos que desocupar o apartamento que mantinha alugado ali para os lados da Samba, reparámos que tinha um poster da Amália Rodrigues à cabeceira da cama. E uma enorme quantidade de pautas e letras de fados que nunca foram cantados.

Orson W. Calabrese
           

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

OUTROS CONTOS

«O Tio Rico», por Orson W. Calabrese.

Nota do autor: «Episódios avulso e sem importância, passados em Angola no tempo colonial.»
«O Tio Rico»
Vila Henrique de Carvalho, hoje Saurimo (1972)

31- «O TIO RICO»

O tio Rufino – “Chindele” para os nativos de Saurimo – vivia em Vila Henrique de Carvalho. Bem... não era bem em Vila Henrique de Carvalho, era num sítio a que chamavam Sibéria, como se fosse possível haver uma Sibéria em África. Essa Sibéria quente e tropical ficava, embora sem ponto no mapa que a assinalasse, sensivelmente a meio do espaço que mediava entre a linha do Equador e a linha do trópico de Capricórnio. Fui eu mesmo que medi as distâncias através daquele estojo, novo em folha, com compasso, transferidor e várias réguas, que recebi quando entrei, cheio de vaidade, para o Liceu Nacional Diogo Cão, em Sá da Bandeira. Distâncias medidas meticulosamente, com escala e tudo, já que eu estava com uma pressa tremenda para utilizar esses novos instrumentos de ensino. Isto aconteceu depois do meu avô, irmão do tio Rufino, morrer misteriosamente lá para os lados do Cuito Cuanavale.

Vista de Cuito Cuanavale, Angola (1971)
Local onde foi morto o irmão de Rufino Potra

 Disse-se na família que tinha sido assassinado. Nunca se chegou a saber ao certo como tinha ocorrido a morte. Depois caiu um enorme silêncio sobre esse acontecimento, e ninguém mais na família abriu a boca sobre esse assunto. 

Cidade Sá da Bandeira, Angola (1965)
Hoje Cidade de Lubango

Ora nós, o ramo africano dos Rodriguez Potra, já estávamos em Angola há três gerações, sempre a viver em Sá da Bandeira e Moçâmedes, sendo que os diversos membros da família sempre se tinham casado com pessoas de etnia branca. O que quero dizer é que éramos uma das poucas famílias da cidade que não tinha mestiços no seio familiar. E isso era um facto que até me incomodava pois quase todos os meus amigos eram mulatos e os que não eram, tinham mulatos primos ou irmãos. 

Baía de Moçâmedes, Angola (1964)
Hoje Cidade de Namibe

Mas esta situação terminou com a chegada do tio Rufino. Este meu tio-avô merece uma referência especial, pois era dado na família como a ovelha ranhosa. Mal se apanhou com vinte anos saiu de casa e desapareceu. Um dia, vinte anos depois, chegou a nova de que estava estabelecido em Vila Henrique de Carvalho, muito bem instalado na vida e com família constituída. 

Monumento a Henrique de Carvalho
Explorador português do séc. XIX

Outros vinte anos passaram, sempre com notícias muito descontinuadas, até que aconteceu a morte do meu avô. Foi por altura da morte do irmão que decidiu regressar à terra que o vira nascer. Vinha com a família que entretanto tinha constituído. Regressava muito, muito rico, com mais de sessenta anos, já viúvo, quatro filhos, todas as noras, e dez netos. E foi por essa altura que o velho casarão familiar se encheu de mulatos com diversos graus de graduação na cor. O único com pele branca era ele. É claro que as más línguas locais logo espalharam que se tinha abotoado com vários frascos de diamantes, já que tinha vivido quarenta anos na região em que essas pedras abundavam. Mas esse assunto também nunca foi abordado nas conversas familiares.

Orson W. Calabrese

Nota explicativa com os novos nomes das cidades nomeadas deste texto:
Vila Henrique de Carvalho – hoje, Saurimo
Moçâmedes – hoje, Namibe
Sá da Bandeira – hoje, Lubango
O Cuito Canavale mantém o mesmo nome.

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

RONNIE EARL & THE BROADCASTERS
«Backstroke»

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CARTOON versus SONETO

O Conformado
HenriCartoon

«O CONFORMADO»

-Querida, saio mais tarde do trabalho,
O Constitucional decretou 40 horas…
Espera por mim deitada no camalho,
E liga-te ao Face sem mais demoras!

-Mas nós estamos no Book, querido!...
Ainda há pouco fiz like no teu Face
Quando li o que tinha acontecido…
Tu comentaste: «amor, és um doce!»

-Sempre a teclar, como tem que ser,
Mais uma horita é capaz de chegar,
Tenho amigos a quem responder...

-Amor, entretanto é de aproveitar...
Nessa hora sem nada pra fazer
Ficas p'lo Facebook a trabalhar!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BILLY SQUIER - «Not a Colour»
Not a Color by Billy Squier on Grooveshark
Poet'anarquista

NÃO É UMA COR

Olhe irmão, o céu está caindo
Olhe irmão , tudo se resume
Buscar a alma entre as cinzas
Deve haver alguma maneira de sair desta cidade velha

Sim irmã não amaldiçoar o seu vizinho
Sem dizer quando ela pode ser você
Sim irmã que você não é o único
Garota solitária que deixou com nada a perder

Vi o meu futuro no dia de ontem
Alguém me disse que não vai demorar muito
Virou meu futuro ontem
Acho que é hora de nos movermos

O amor não é uma cor ... o que importa para você
O amor não é uma cor ... o que faria se eu fosse você iria fazê-lo

Olhe irmão, suas ruas estão queimando
Falando frouxamente e do trabalho tudo se foi
Diga irmão que ser melhor aprendendo
Não fazê-lo direito fazendo alguém errado

Irmã da alma, eu sinto sua tristeza
Irmã da alma, dói-me muito
Irmã da alma, eu não posso parar de pensar
Tem que haver um pouco de paz entre mim e você

Deus sabe - não é uma coisa fácil
Não é algo que rir
Deus sabe - não é uma coisa fácil
Pegue minha mão tem que segurar

O amor não é uma cor ... o que importa para você
O amor não é uma cor ... o que faria se eu fosse você iria fazê-lo
Não é uma cor ... o que importa para você
O amor não é uma cor ...

Abra os olhos para o céu e as montanhas
Aprenda a voar - eu posso levá-lo em qualquer lugar
Levante sua voz através dos sons do silêncio
Sim ... sim ... sim

Não é uma cor ... que importa para você
Não é uma cor ... que importa para você

Billy Squier

OUTROS CONTOS

«O Enforcado de la Piroche», por Alexandre Dumas (o filho).

O escritor Alexandre Dumas (o filho), filho do famoso escritor Alexandre Dumas (o pai), faleceu em Marly-le-Roi, a 27 de Novembro de 1895. Foi um importante escritor francês que seguiu as pisadas do seu progenitor, tornando-se um conceituado autor de livros e peças de teatro. Recorda-se em «Outros Contos» com a publicação de: «O Enforcado de la Piroche». Boa leitura!
Poet'anarquista
«O Enforcado de la Piroche»
Ilustração O Enforcado, por Goya

30- «O ENFORCADO DE LA PIROCHE»

O leitor conhece La Piroche? Certamente não. Nem eu. Portanto, não se preocupe em que eu abuse de minha ciência, fazendo uma descrição. Sobretudo porque — digamos, cá entre nós — as descrições são muito aborrecidas. A menos que se trate das selvas virgens da América, como em James Fenimore Cooper, ou do Mississippi, como em Chateaubriand. Isto é, países que não estão ao alcance da mão, e para os quais a imaginação precisa da ajuda dos viajantes poetas, que os visitaram a fim de poder descrevê-los melhor em todos os detalhes.

Em geral, as descrições não servem para grande coisa, e estão aí para que o leitor as salte. A literatura tem sobre a pintura, a escultura e a música a tríplice vantagem de poder fazer por si só um quadro com um epíteto, uma estátua com uma frase, uma melodia com uma página. Mas não está certo que abuse desse privilégio, e deve-se deixar a cada arte o seu campo específico.

De minha parte, confesso que — salvo melhor opinião — quando me acho no caso de ter de descrever um país que todo mundo pode ter visto, ou que todo mundo pode ver, seja porque está próximo, seja porque não difere em muita coisa do nosso, prefiro deixar ao leitor o prazer de recordá-lo, se já o viu, ou de imaginá-lo, se ainda não o conhece. O leitor gosta que lhe deixemos sua parte criadora, na obra que está lendo. Isso o lisonjeia, e o faz acreditar que poderia fazer todo o resto. Lisonjear o leitor tem suas vantagens. Além disso, todo mundo sabe o que é o mar, uma planície, um bosque, um pôr-de-sol, um efeito da lua, uma tempestade. Para que tornar o texto pesado com essas coisas? Mais vale traçar a paisagem com uma só pincelada, como Rubens ou Delacroix — digo-o sem querer estabelecer qualquer tipo de comparação — e guardar o valor do nosso pincel para os personagens aos quais queremos dar vida.

Por mais que empanturremos páginas inteiras com descrições, jamais daremos ao leitor uma impressão igual à que experimenta o mais ingênuo burguês passeando um belo dia de abril pelo bosque de Vincennes; ou ainda a mais ignorante donzela que, às onze horas da noite, atravessa as avenidas sombrias do bosque de Romainville ou do parque de Enghien, de mãos dadas com seu noivo.

Todos temos no espírito e no coração uma galeria de paisagens com nossas recordações, que podem servir de fundo a todas as histórias do mundo. Basta dizer uma simples palavra — dia ou noite, inverno ou primavera, tempestade ou bom tempo, planície ou montanha — para que logo imaginemos a paisagem completa.

Só direi, portanto, que quando começa esta história o sol atinge o meio-dia, estamos em maio, o caminho por onde vamos passar tem à direita umas plantações e à esquerda o mar. Isso basta para entender o que quero dizer: que os plantações são verdes, o mar murmura, o céu está azul, o sol está bem quente e a estrada coberta de poeira. Só preciso acrescentar que a estrada corre ao longo da costa normanda, de La Poterie a La Piroche; que La Piroche é uma aldeia que não conheço, mas deve ser como todas as outras; que a ação se desenrola em pleno século XV, justamente em 1448; que um dos dois homens é o pai do outro, ambos camponeses, e vão trotando em seus cavalos a uma velocidade até razoável, tendo em vista que carregam camponeses.

— Será que chegaremos a tempo? — perguntava o filho.
— Sim. Vai ser às duas horas, e pela posição do sol deve ser ainda meio-dia.
— Não quero perder, pois tenho muita curiosidade em ver como é. Vão enforcá-lo com a armadura que roubou?
— Exatamente.
— Onde já se viu, o sujeito ter a idéia de roubar uma armadura!
— O difícil não é ter a idéia…
— É ter a armadura, eu bem sei — atalhou o filho, aderindo à brincadeira do pai. — E a armadura era boa?
— Dizem que era magnífica, toda marchetada de ouro.
— E o pegaram quando a levava?
— Sim. É fácil compreender que uma armadura não concorda em ser roubada sem montar um escarcéu de todo tamanho. Ela não queria abandonar o dono.
— Era de aço, e deveria ser muito pesada.
— O ruído que ela produzia despertou o pessoal do castelo.
— E logo puseram a mão no ladrão?
— Não exatamente assim. Primeiro ficaram com medo.
— Quem é roubado sempre sente medo dos ladrões. Se não fosse assim, os ladrões não levariam nenhuma vantagem.
— E também as vítimas não sofreriam nenhuma emoção. Mas o caso é que o pessoal do castelo não se julgava diante de ladrões.
— Diante de quem, então?
— De um fantasma. O infeliz era muito forte, e carregava a armadura de pé, na frente do próprio corpo, mantendo a cintura dela na altura da própria cabeça. Quem via, na obscuridade, tinha a impressão de um gigante. Acrescente a isso o ruído surdo que o ladrão ia fazendo por detrás da ferragem, e entenderá o espanto dos criados. Por azar dele os criados foram acordar o senhor de La Piroche, que não tem medo de vivos nem de defuntos. Ele sozinho o prendeu, amarrou-lhe as mãos e pés e o entregou à sua própria justiça.
— E a sua própria justiça…
— Condenou-o a ser enforcado, revestido da armadura em questão.
— Por que puseram esta cláusula na condenação?
— Ah! Porque o senhor de La Piroche, além de ser um valoroso capitão, é um homem de bom senso, engenhoso, e quis transformar a execução num exemplo para os demais e em proveito para si próprio. Segundo dizem, aquilo que esteve em contato com um enforcado se transforma em talismã para seu dono, e ele quis o delinqüente dentro da armadura para poder recolhê-la depois, e assim contar com uma proteção a mais durante as próximas guerras.
— Bem engenhoso, de fato. Mas é bom nos apressarmos, porque não quero perder o espetáculo.
— Não vale a pena cansar os cavalos, pois vamos prosseguir viagem uma légua depois de La Piroche, e depois ainda voltar a La Poterie.
— Sim, mas como só voltaremos à noite, nossos cavalos poderão descansar umas cinco ou seis horas.

Pai e filho prosseguiram caminho conversando, e meia hora depois chegaram a La Piroche. Havia grande afluxo de gente na ampla praça diante do castelo, onde se havia erguido o patíbulo: uma preciosa forca de madeira muito boa, na verdade pouco alta, mas o suficiente para que a morte desenvolvesse o seu trabalho entre o solo e a extremidade da corda.

O condenado podia contar com um lindo panorama para morrer, pois ficaria com o rosto voltado para o oceano. Seria um consolo, embora me pareça bem insuficiente. O mar estava azul, e de vez em quando deslizava pelo azul do céu uma nuvem branca, como um anjo que dirigisse a Deus uma prece.

Os dois companheiros se aproximaram do patíbulo o quanto puderam, para não perder nenhum detalhe do que ia acontecer. Tinham a vantagem de estar montados, e podiam ver melhor sem se cansar. Não esperaram muito. Pouco antes das duas horas abriu-se a porta do castelo e apareceu o condenado, precedido da guarda e seguido do carrasco. Vinha com a armadura, montado de costas em um burro sem arreios. As mãos estavam amarradas às costas. A julgar pela postura, tendo em vista que o rosto estava encoberto pelo elmo, devia estar pouco à vontade, e fazendo as mais tristes reflexões.

Levaram-no até o patíbulo, e começou a desenrolar-se ante o réu uma cena pouco agradável. O verdugo acabava de encostar a sua escada na forca, e o capelão lia o processo do alto de um estrado. O condenado não se movia, e espalhou-se o boato de que ele resolvera morrer antes de ser alçado à forca, para desgosto dos espectadores. Mandaram que ele apeasse do animal e se aproximasse do verdugo, mas ele continuou imóvel. Indecisão que compreendemos facilmente. Então o verdugo o agarrou pelos cotovelos, desceu-o do burro e o pôs de pé no chão. Ao dizer que o pôs de pé, não mentimos, mas mentiríamos se disséssemos que permaneceu assim, pois em dois minutos havia percorrido dois terços do alfabeto,
o que na linguagem corrente quer dizer que em vez de permanecer reto como um I, havia chegado ao Z.
Durante esse tempo o capelão terminara a leitura da sentença.

— O condenado tem algo a pedir? — perguntou.
— Sim — respondeu o desgraçado, com voz rouca e triste.
— O que deseja?
— Quero meu indulto.

Não sei se a palavra farsante já havia sido inventada, mas a ocasião para isso era sem dúvida muito boa.
O senhor de La Piroche deu de ombros e ordenou ao verdugo que pusesse mãos à obra. Este começou a subir decididamente a escada do patíbulo, com toda a força de que dispunha para separar uma alma do corpo. Tratou também de fazer subir na frente o condenado, o que não era tarefa fácil, pois os condenados inventam toda sorte de dificuldades para morrer. Para fazê-lo subir, o executor da justiça teve de recorrer ao meio de que já se valera para fazê-lo descer do animal: agarrou-o pela cintura e o foi empurrando para cima.

— Bravo! — gritou a multidão.

Não havia recurso, e ele teve de subir. Então o verdugo passou destramente o nó corrediço da forca em torno do pescoço, deu um empurrão nas costas do condenado e o lançou no espaço. Um imenso clamor acolheu esse desenlace previsto, e um estremecimento correu a multidão.
Por grande que seja o crime que tenha cometido, um homem que morre na forca está sempre, ao menos durante um instante, acima dos que o vêem morrer. O enforcado balançou durante dois ou três minutos na ponta da corda. Como tinha direito a isso, debateu-se, contorceu-se, e depois ficou imóvel — o caminho inverso do Z ao I. Os espectadores ficaram olhando ainda durante algum tempo, logo se dividiram em grupos e tomaram caminho de casa.

Os dois camponeses também retomaram o caminho.

— Ser enforcado por não ter podido roubar uma armadura é um pouco caro, não acha? — perguntou o pai.
— Gostaria de saber o que ele teria feito com a armadura, se tivesse conseguido levá-la.
— De fato ele foi mais castigado por um crime que não cometeu.
— Sim, mas teve a intenção de cometê-lo.
— E basta a intenção para…
— É perfeitamente justo.

Chegando ao alto de uma montanha, olharam para trás, a fim de contemplar pela última vez a silhueta do desconhecido. Vinte minutos depois chegaram ao povoado seguinte, de onde deviam voltar à noite. Quando amanheceu o dia seguinte, dois soldados saíram do castelo para remover o cadáver do enforcado e recolher a armadura. Mas encontraram uma situação que nem de longe poderiam imaginar: tudo estava no lugar, mas o enforcado e a armadura haviam desaparecido. Julgaram que estavam sonhando, esfregaram os olhos, mas o fato era real. O enforcado e a armadura haviam sumido. E o mais extraordinário é que a corda não estava cortada nem rompida, permanecia como antes do enforcamento.

Os soldados foram anunciar ao senhor de La Piroche o que viram, mas este não quis acreditar, e decidiu confirmar com seus próprios olhos. Sendo tão poderoso, pensava que um mísero enforcado não ousaria desobedecer-lhe, e o encontraria onde o mandara ficar. Mas não viu nada além do que os outros haviam visto. Que teria acontecido? Não havia dúvida de que na véspera o sentenciado ficara bem morto ante os olhos de todos. Teria um outro ladrão aproveitado as trevas noturnas para roubar a armadura? Mas se fosse assim, teria deixado o cadáver, que de nada lhe adiantaria. Será que os amigos e parentes do morto quiseram dar-lhe uma sepultura cristã? A hipótese não era absurda, mas o delinqüente não tinha amigos nem familiares. Mesmo se os tivesse, eles teriam se limitado a carregar o cadáver, deixando a armadura. O que pensar do ocorrido?

Desolado pela perda da armadura, o senhor de La Piroche mandou publicar a promessa de uma recompensa de dez moedas de ouro, para quem entregasse o culpado, desde que com a roupa usada na execução. Ninguém se apresentou. Foram revistadas todas as casas, mas nada se encontrou. Fizeram então vir de Rennes um sábio, e lhe puseram a pergunta:

— Como é que um enforcado morto pôde fazer para livrar-se da corda que o mantinha no ar?

Depois de oito dias de meditação o sábio respondeu:

— Ele não conseguiu soltar-se.

Apresentaram-lhe então a seguinte pergunta:
— Um ladrão que não conseguiu roubar enquanto vivo, e que foi condenado à morte por roubo, pode roubar depois de morto?

O sábio respondeu que sim. Indagado como poderia ter conseguido essa façanha, respondeu que não sabia. E era o maior sábio da época, naquelas paragens.

O sábio foi embora, e as pessoas preferiram ficar com a convicção de que o enforcado era um feiticeiro. Passou-se um mês de inquéritos, buscas e consultas, enquanto a forca permanecia no mesmo lugar, humilhada, triste e desprezada por sua atitude inominável de abuso de confiança. O senhor de La Piroche já se dispunha a resignar-se com a perda da armadura, quando num certo dia, ao despertar, ouviu um alarido na praça da execução. Logo depois o capelão entrou espavorido nos seus aposentos.

— Senhor, sabeis o que aconteceu?
— Não, mas gostaria de saber.
— O enforcado reapareceu, e está lá na forca.
— Com a armadura?
— Sim, com a vossa armadura.
— E está morto?
— Completamente. Mas…
— Mas o quê?
— Quando foi enforcado ele usava esporas?
— Não.
— Pois agora usa. Além disso, agora o elmo não está na cabeça, como no dia da execução. Está enforcado com a cabeça descoberta, e o elmo está cuidadosamente colocado no chão.
— Vamos ver logo tudo isso, senhor capelão.

O senhor de La Piroche correu à praça, já cheia de curiosos. De fato lá estava o enforcado com o pescoço no laço da corda, e logo abaixo o corpo revestido da armadura. Era prodigioso.

— Arrependeu-se e voltou a enforcar-se — dizia um.
— Sempre esteve aí — dizia outro. — Nós é que não o víamos.
— Mas por que usa esporas? — perguntou um terceiro.
— Sem dúvida por que vem de longe, e quis chegar rápido.
— Se fosse comigo, não importa se longe ou perto, eu não teria voltado de jeito nenhum.

Entre comentários sérios e outros nem tanto, todos olhavam a cara contorcida do morto. Quanto ao senhor de La Piroche, só pensava em assegurar a posse da sua preciosa armadura. O cadáver foi descido, retirada a armadura, e depois o recolocaram para ser comido pelos corvos. O que sem dúvida nos lembra versos como os que colocávamos na primeira página dos nossos livros escolares:

Morreu Pierrô enforcado
Por ter um livro roubado.
Não corra tão grande risco,
Devolva este ao Francisco.

Que teria acontecido, para possibilitar ao ladrão escapar depois de enforcado, e depois voltar a enforcar-se? Várias hipóteses foram levantadas, mas uma delas me parece a mais digna de crédito. Vou relatá-la como me foi contada.

Quando os dois camponeses, pai e filho, regressavam à noite para casa, resolveram passar perto do castelo, para dar uma última olhada ao enforcado. Ao aproximar-se, ouviram gemidos e uma espécie de oração, que pareciam vir do cadáver. Um tanto apavorados, resolveram pegar a escada do verdugo, e o filho subiu por ela até a altura da cabeça do enforcado.

— É você que está se queixando?
— Sim.
— Portanto você ainda está vivo?
— Acho que sim.
— E está arrependido do que fez?
— Sim.
— Então vou retirá-lo daí. Como o Evangelho manda socorrer os que sofrem, e você está sofrendo, vou socorrê-lo para que empregue a vida em fazer o bem. Deus prefere uma alma arrependida a um corpo castigado.

O pai e o filho desataram a corda, e só então entenderam por que estava ainda vivo. Em vez de apertar o pescoço do ladrão, a corda apertava o pino de encaixe do elmo. Por isso ele ficara suspenso, mas não enforcado. A cabeça havia encontrado uma espécie de ponto de apoio dentro do elmo, permitindo-lhe respirar e viver até o momento em que os dois camponeses regressaram.

Recolheram o enforcado com a armadura e voltaram para La Poterie, onde o ladrão ficou aos cuidados das mulheres da casa, mãe e filha.

Mas não é coisa freqüente um ladrão mudar de condição. Na casa só havia duas coisas roubáveis: o cavalo e a moça, donzela de dezesseis anos. O ex-enforcado resolveu levar ambos, pois precisava de um cavalo e se enamorara da moça. Uma noite ele arreou o cavalo, vestiu a armadura, calçou esporas para fazer o cavalo andar mais depressa, e foi buscar a moça, com intenção de levá-la na garupa. A jovem despertou e começou a gritar. Pai e filho acudiram logo e o ladrão tentou escapar, mas era tarde. Os dois o pegaram e decidiram fazer justiça por sua própria conta, completando o mau trabalho do verdugo. Amarraram o ladrão montado no cavalo e o levaram à praça de La Piroche. Penduraram-no na mesma forca, mas desta vez pelo pescoço do condenado, e não pelo da armadura, que não tinha nenhuma culpa no cartório para ser enforcada, e o elmo foi cuidadosamente depositado no chão.

Se alguém conhece uma explicação melhor para o mistério, estou pronto a aceitá-la, mas esta me pareceu suficiente.

Alexandre Dumas, Filho

terça-feira, 26 de novembro de 2013

«PINTURA versus POESIA», POR MÁRIO CESARINY

26 de Novembro de 2006, morre o poeta e pintor português, Mário Cesariny. Pode por aqui- «MÁRIO CEZARINY», consultar sobre vida e obra deste grande vulto da cultura portuguesa. «Linha d'Água» versus «Ao Longo da Muralha», num cruzamento de artes quase perfeito. Fiquem bem!
Poet'anarquista
«Linha d'Água»
Mário Cesariny

AO LONGO DA MURALHA

Ao longo da muralha que habitamos 
Há palavras de vida há palavras de morte 
Há palavras imensas, que esperam por nós 
E outras frágeis, que deixaram de esperar 
Há palavras acesas como barcos 
E há palavras homens, palavras que guardam 
O seu segredo e a sua posição 

Entre nós e as palavras, surdamente, 
As mãos e as paredes de Elsenor 

E há palavras e nocturnas palavras gemidos 
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca 
Palavras diamantes palavras nunca escritas 
Palavras impossíveis de escrever 
Por não termos connosco cordas de violinos 
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar 
E os braços dos amantes escrevem muito alto 
Muito além da azul onde oxidados morrem 
Palavras maternais só sombra só soluço 
Só espasmos só amor só solidão desfeita 

Entre nós e as palavras, os emparedados 
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

BAD COMPANY - «Electric Land»
Electricland by Bad Company on Grooveshark
Poet'anarquista

TERRA ELÉCTRICA

As luzes de néon piscando por ir
Terra elétrica está em meus olhos
O submundo está em movimento
E todo mundo tem algo a provar

O taxista oferece as notícias
Alguém aí tem soprado um fusível
Estamos passando a cena um homem está morto
A trinta e oito afastou sua cabeça

Um choque de um relâmpago me pôs de volta um ritmo
Sinta-se como um visitante do espaço sideral
Por favor, desculpe-me se eu não entendo muito bem
Eu sou apenas um estranho em terra elétrica

As senhoras estão dispostas a ter um bom tempo
Você vive para o momento em que o momento é bom
Você está no seu quarto as luzes são baixas
Antes você sabe que é hora para o show

Um choque de um relâmpago me pôs de volta um ritmo
Sinta-se como um visitante do espaço sideral
Por favor, desculpe-me se eu não entendo muito bem
Eu sou apenas um estranho em terra elétrica

Bad Company

OUTROS CONTOS

«Famílias Desavindas», por Mário de Carvalho.

«Famílias Desavindas»
JPGalhardas

29- «FAMÍLIAS DESAVINDAS»
     
Por uma dessas alongadas ruas do Porto, que sobe que sobe e não se acaba, há-de encontrar-se um cruzamento alto, de esquinas de azulejo, janelas de guilhotina telhados de ardósia em escama. Faltam razões para flanar por esta rua, banal e comprida, a não ser a curiosidade por um insólito dispositivo conhecido de poucos: os únicos semáforos do mundo movidos a pedal, sobreviventes a outros que ainda funcionavam na Guatemala, no início dos anos setenta.
     
No dobrar do século XIX, Gerard Letelessier, jovem engenheiro francês, fracassou em Paris e em Lisboa, antes de convencer um autarca do Porto de que inventara um semáforo moderno, operado a energia eléctrica, capaz de bem ordenar o trânsito de carroças de vinho, carros de bois e landós da sociedade. A autoridade gostou do projecto e das garrafas de Bordéus que o jovem engenheiro oferecia. Os semáforos estiveram ensejados para a Ponte, mas, de proposta em proposta (sempre se tratava de uma implantação experimental), acabaram na infrequentada Rua Fernão Penteado, na intersecção com a travessa de João Roiz Castelo Branco.
     
O sistema é simples e, pode dizer-se com propriedade, luminoso. Um homem pedala numa bicicleta erguida a dez centímetros do chão por suportes de ferro. A corrente faz girar um imã dentro de uma bobina. A energia gerada vai acender as luzes de um semáforo, comutadas pelo ciclista. Durante a Primeira Guerra foi introduzida uma melhoria. Uma inspecção da Câmara concluiu que a roda da frente era destituída de utilidade. Foi retirada.

Houve muitos candidatos ao cargo de samaforeiro, embora um equívoco tivesse levado à exigência de que os concorrentes soubessem andar de bicicleta. A realidade corrigiu o dislate porque acabou por ser escolhido um galego chamado Ramon, que era familiar do proprietário dum bom restaurante e nunca tinha pedalado na vida. Mas Ramon era esforçado, cheio de boa vontade. A escolha foi acertada.
     
Durante anos e anos o bom do Ramon pedalou e comutou. Por alturas da segunda Grande Guerra foi substituído pelo seu filho Ximenez, pouco depois da revolução de Abril pelo neto Asdrúbal, e, um dia destes, pelo bisneto Paco. A administração continua a pagar um vencimento modesto, equivalente ao de jardineiro. Mas não é pelo ordenado que aquela família dá ao pedal. É pelo amor à profissão. Altas horas da madrugada, avô, neto e bisneto foram vistos de ferramenta em riste a afeiçoar pormenores. Fizeram questão de preservar a roda de trás e opuseram-se quase com selvajaria a um jovem engenheiro que considerou a roda dispensável, sugerindo que o carreto bastasse.
     
Os transeuntes e motoristas do Porto apreciam estes semáforos manuais, porque é sempre possível personalizar a relação com o sinal. Diz-se, por exemplo, «Ó Paco, dá lá um jeitinho!» e o Paco, se estiver bem-disposto, comuta, facilita.
     
Acontece que, mesmo à esquina, um primeiro andar vem sendo habitado por uma família de médicos que dali faz consultório. Pouco antes da instalação dos semáforos a pedal, veio morar o Doutor João Pedro Bekett, pai de filhos e médico singular. Chegou de Coimbra com boa fama mas transbordava de espírito de missão. Andava pelas ruas a interpelar os transeuntes: «Está doente? Não? Tem a certeza? E essas olheiras, hã? Venha daí que eu trato-o.» E nesta ânsia de convencer atravessava muitas vezes a rua. O semáforo complicava. Aproximou-se do Ramon e bradou, severo: «A mim, ninguém me diz quando devo atravessar uma rua. Sou um cidadão livre e desimpedido.» Ramon entristeceu. Não gostava que interferissem com o seu trabalho e, daí por diante, passou a dificultar a passagem ao doutor. Era caso para inimizade. E eis duas famílias desavindas. Felizmente, nunca coincidiram descendentes casadoiros. Piora sempre os resultados.

Ao Dr. Pedro sucedeu o filho João, médico muito modesto. Informava sempre que o seu diagnóstico era provavelmente errado. Enganava-se, era um facto. Mas fazia questão de orientar os pacientes para um colega que desse uma segunda opinião. Herdou o ódio ao semáforo e passava grande parte do tempo à janela, a encandear Ximenez com um espelho colorido.
     
Já entre o jovem médico Paulo e Asdrúbal quase se chegou a vias de facto. O médico passava e rosnava «Sus, galego». E Asdrúbal, sem parar de dar ao pedal: «Xó, magarefe!» Uma tarde, Asdrúbal levantou mesmo a mão e o doutor encurvou-se e enrijou o passo.
     
Este Dr. Paulo era muito explicativo. Ouvia as queixas dos doentes, com impaciência, e depois impunha silêncio e começava: «As doenças são provocadas por vírus ou por bactérias. No primeiro caso, chamam-se viróticas, no segundo, bacterianas.» E estava horas nisto, até o doente adormecer. Colegas maliciosos sustentavam que ele praticava a terapia do sono. Mas a maioria dos doentes gostava de ouvir explicar. Alguns até faziam perguntas. Após a consulta, muito à puridade, o Dr. Paulo pedia aos clientes que passassem pelo homem do semáforo e lhe dissessem: «Arrenego de ti, galego!» Isto foi assim com Asdrúbal e, mais recentemente, com Paco.
     
Há dias, vinha do almoço o Dr. Paulo com uma trouxa-de-ovos na mão, e já trazia entredentes o «arrenego!» com que insultaria o semaforeiro, quando aconteceu o acidente. Ao proceder a um roubo por esticão um jovem que vinha de mota teve uns instantes de desequilíbrio, raspou por Paco e deixou-o estendido no asfalto. Era grave. O Dr. Paulo largou ódios velhos, não quis saber de mais nada e dobrou-se para o sinistrado: «Isto, em matéria de lesões, elas podem ser provocadas por três espécies de instrumentos: contundentes, cortantes, ou perfurantes.»
     
Uma ambulância levou o Paco antes que o doutor tivesse entrado no capítulo das «manchas de sangue».
     
Enganar-se-ia quem dissesse que o semáforo ficou abandonado. Uma figura de bata branca está todos os dias naquela rua, do nascer ao pôr do Sol, a accionar o dispositivo, pedalando, pedalando, até à exaustão. É o Dr. Paulo cheio de remorsos, que quer penitenciar-se, ser útil, enquanto o Paco não regressa.

 Mário de Carvalho

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CARTOON versus SONETO

Haja Elevação
HenriCartoon

«HAJA ELEVAÇÃO»

Sr.º Major: dizem que o senhor tinha
Um elevador camuflado no gabinete,
Quando não lhe agradava a visitinha
Sumia-se, e a visita enfiava o barrete…

Quantos são?...  mas qual elevador??
Como se pode ver, nada a esconder,
Deste nome ninguém se vai esquecer:
Major Valentão, o grande sumidor!

Mas… Sr.º Major, estava só a reinar,
Sou jornalista com sentido de humor
E esta conversa em of, não vai pró ar!?

Vou desaparecer pra não me chatear
Contigo a sério, seu reles estupor!...
Haja elevação e toca a desandar!!

POETA

OUTROS CONTOS

«O Tesouro», por Eça de Queiroz.

«Caricatura de Eça de Queiroz»
 JPGalhardas

25 de Novembro de 1845, nasce na Póvoa de Varzim o escritor português José Maria Eça de Queiroz, mais conhecido como Eça de Queiroz. «Outros Contos» presta homenagem ao autor do famoso romance «Os Maias», assinalando a data do seu nascimento com a publicação do conto: «O Tesouro». Boa leitura, e um bom início de semana!
Poet'anarquista
«O Tesouro»
Piratas brigam por tesouro/ Howard Pyle

28- «O TESOURO»

I

Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.

Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.

Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!

No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam… E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demónio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforges de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.

— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do cinturão.

Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:

— Manos! O cofre tem três chaves… Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!

— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.

Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:

Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia, Vestida de negro luto…

II

Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água brotando entre rochas: caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.

Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.

— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia connosco, Rostabal!

O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:

— Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!

— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.

— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos…

— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.

— Queres?

Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:

— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e de «torpe», por não saberes a letra nem os números.

— Malvado!

— Vem!

Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles grasnando, e Rostabal, que lhes seguira o roo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.

Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:

Olé! Olé! Sale la cruz de la iglesia, Vestida de negro luto…

Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.

Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal, caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.

— A chave! — gritou Rui.

E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.

Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.

A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda no largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.

Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso forrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.

III

Agora eram dele, só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro, alguns ossos sem nome, ele seria u magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos… Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!

Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!

Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que rescendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa. Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.

Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.

De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de ouro… Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:

— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!

Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.

Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou, caiu para cima da relva, que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas; e de repente, esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:

— É veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.

Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.

O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.

Eça de Queiroz