quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

«A LOUCA D' ALBANO», POR RODRIGUES CORDEIRO

No dia 11 de Dezembro de 1896, falecia em Cortes, Leiria, o poeta e escritor português ultra-romântico António Xavier Rodrigues Cordeiro, mais conhecido como Rodrigues Cordeiro. O poema «A Louca d'Albano», assinala o desaparecimento de um importante poeta do ultra-romantismo em Portugal. Mas, vamos ao poema...
Poet'anarquista
«A Louca»
Eugene Delacroix

A LOUCA D’ALBANO

Anda cá, meu filho escuta, 
És amigo de tua mãe?
- Oh! Minha mãe que pergunta?
- Basta meu filho, pois bem;
Vai ver a velha Vicência
O amor que um filho lhe tem.

Faz vinte anos,
(Dizendo tira do seio um punhal!)
Que teu pai morreu a golpes
Deste ferro por meu mal;
E  eu que devia vingá-lo
Fiz uma jura fatal.

- Uma jura?! Mãe Santíssima!
Oh! Minha mãe, que jurou?
- Eu jurei por este sangue,
Que em ferrugem se tornou,
Que tu, filho matarias
Esse que a teu pai matou.

Matas? – Mato, aqui o juro:
- E matas seja quem for?
Ainda que essa vingança
Te roube do seio o amor?
- Ainda assim. – Toma o ferro,
É Ricardo o matador.

- Ricardo o pai de Maria!
- Sim esse. – Oh! Mãe perdoai!
Pela amante o pai esqueces!
- Filho ingrato... parte... vai,
Cumpre a jura ou sê maldito
Se não vingares teu pai.

Nessa noite tinto em sangue,
Com os cabelos no ar,
O assassino de Ricardo
Foi aos pés da mãe lançar
O punhal, com que jurara 
Do pai a morte vingar.

Sorriu-se a velha, e contente
Abraçava o vingador,
Quando eis súbito aparece
Qual bela estátua de dor,
Junto do grupo chorando
D’ Albano a cândida flor.

- Paulo, meu Paulo, vingança;
Perdi meu pai... não o vês...
Nestas lágrimas sentidas,
Que aqui derramo a teus pés?!
Paulo, meu Paulo, vingança;
Vinga-me tu por quem és...

Eu o vi banhado em sangue
Assisti-lhe ao triste fim,
Quis falar-me, já não pode
Com os olhos fitos em mim,
Expirou... vingança eterna!
Tu vingas-me, Paulo... sim?

Vingo, Maria, sossega:
Eu sei quem teu pai matou;
Vai morrer com o mesmo ferro
Que ainda há pouco o transpassou.
Isto dito, as punhaladas
O próprio seio cravou.

Foge a pobre espavorida,
Deixa Albano, e sem parar,
Entra em Roma no outro dia,
Por toda a gente a gritar:
- Quem me mata por piedade,
Quem me vem também matar?

Assim vagou três dias,
Ao fim do quarto enlouqueceu!
E ainda hoje o caminhante,
Que passa pelo Coliseu
Vê a pobre às gargalhadas
Pedindo vingança a Deus. 

Rodrigues Cordeiro

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