terça-feira, 30 de novembro de 2010

FERNANDO PESSOA

No dia 30 de Novembro do ano de 1935, com 47 anos de idade falecia Fernando António Nogueira Pessoa, vítima de cirrose hepática. Foi um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal, comparado muitas vezes com o grande Luís Vaz de Camões. Passados que são 75 anos da sua morte, Poet'anarquista recorda-o no espaço Amigos d'Arte com uma breve biografia e poesia.
Poet'anarquista


POETA
Fernando Pessoa

BREVE BIOGRAFIA
13-06-1888/ 30-11-1935
Nasceu Fernando António Nogueira Pessoa em Lisboa, no dia 13 de Junho de 1888, filho de Maria Madalena Pinheiro Nogueira e de Joaquim de Seabra Pessoa. Fernando Pessoa, um dos expoente máximos do modernismo no século XX, considerava-se a si mesmo um «nacionalista místico». 

A juventude é passada em Lisboa, alegremente, até à morte do pai em 1893 e do irmão Jorge no ano seguinte. Estes acontecimentos, em conjunto com o facto de sua mãe ter conhecido o cônsul de Portugal em Durban, levam-no a viajar para a África do Sul. Aí vive entre 1896 e 1905. À vivência nesse país da Commonwealth pode atribuir-se uma influência decisiva ao nível cultural e intelectual, pondo-o em contacto com os grandes autores de língua inglesa.

O Regresso a Portugal, com 17 anos, é feito com o intuito de frequentar o curso de Letras. Viveu primeiro com uma tia, na rua de S. Bento e depois com a avó paterna, na Rua da Bela Vista à Lapa. Mas com o fracasso do curso (frequentou-o poucos meses), governa-se apenas com o seu grande conhecimento da língua inglesa, trabalhando com diversos escritórios em Lisboa em assuntos de correspondência comercial.

Ficou sobretudo conhecido como grande prosador do modernismo (ou futurismo) em Portugal. Expressando-se tanto com o seu próprio nome, como através dos seus heterónimos. Entre estes ficaram famosos três: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Sendo que as suas participações literárias se espalhavam por inúmeras publicações, das quais se destacam: Athena, Presença, Orpheu, Centauro, Portugal Futurista, Contemporânea, Exílio, A Águia, Gládio. Estas colaborações eram tanto em prosa como em verso.

Teve uma paixão confessa - Ophélia Queirós - com a qual manteve uma relação muitas das vezes distante, se bem que intensa. Mas foi talvez Ophélia a única a conhecer-lhe o lado menos introspectivo e melancólico. 

O seu percurso intelectual dificilmente se descreve em poucas linhas. É sobretudo o relato de uma grande viagem de descoberta, à procura de algo divino mas sempre desconhecido. Essa procura efectuou-a Pessoa com recurso a todas as armas - metafísicas, religiosas, racionalistas - mas sem ter chegado a uma conclusão definitiva, enfim exclamando que todos os caminhos são verdadeiros e que o que é preciso é navegar (no mundo das ideias).

Os últimos anos são vividos em angústia. Os seus projectos intelectuais não se realizam plenamente, nem sequer parcialmente. Talvez os seus objectivos fossem à partida demasiado elevados... Certo é que esta falta de resultados concretos o deita a um desespero cada vez mais profundo. Foi um profeta que esperava a realização da sua profecia, mas que morreu sem ver sequer o principio da sua realização.

Fernando Pessoa morre a 30 de Novembro de 1935, de uma grave crise hepática induzida por anos de consumo de álcool, no hospital de S. Luís. Uma pequena procissão funerária levou o corpo a enterrar no Cemitério dos Prazeres. Em 1985, por ocasião do cinquentenário da sua morte, os seus restos mortais foram transladados para o Mosteiro dos Jerónimos em Belém. Em vida apenas publicou um livro em Português: o poema épico Mensagem, deixando um vasto espólio que ainda hoje não foi completamente analisado e publicado.

Poesia

FITO-ME FRENTE A FRENTE (II)

Fito-me frente a frente
E conheço quem sou.
Estou louco, é evidente,
Mas que louco é que estou ?

É por ser mais poeta
Que gente que sou louco ?

Ou é por ter completa
A noção de ser pouco ?


Não sei, mas sinto morto
O ser vivo que tenho.
Nasci como um aborto,
Salvo a hora e o tamanho.


Fernando Pessoa

NÃO DIGAS NADA!  

Não digas nada!

Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender - 
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
 
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz  
Não digas nada.

Fernando Pessoa

COMO É POR DENTRO OUTRA PESSOA

Como é por dentro outra pessoa

Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento. 

Nada sabemos da alma  
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa
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Poemas de Matias José : homenagem a "Como é por dentro outra pessoa" e ao grande poeta Fernando Pessoa.

A  Alma De Outra Pessoa

A alma de outra pessoa
Quem o poderá saber
Ou pensar?...
Como um som que ecoa
Repercutindo sem se ver…
Soa sempre sem parar!

A alma é um mundo escondido…
Um segredo bem guardado,
Sem nunca se conhecer.
Qual espelho partido…
Em mil pedaços quebrado,
E nada ali para se ver!

A única coisa que sabemos
Quando pensamos na alma
É dela nada sabermos!
Não saber se a temos…
Se ela nos acalma,
Ou mesmo a queremos!!!

Matias  José

A INCOMPARÁVEL LEVEZA DO SER

Já tinha escrito sobre esta beleza,
Assim Pessoa a enalteceu…
As palavras são com certeza
O melhor que Deus nos deu!

O tempo não me interessa
Na distância percorrida,
Qualquer coisa com pressa
Espera uma nova partida.

A incomparável leveza do ser
Entrou num coração;
Mais querer... é nada querer,
Que o resto urtigas são!!!

Matias  José


Ainda a propósito de Pessoa ... 

 Coisas Que Acontecem

"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram...mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis!"
                                                     
Fernando Pessoa


Matias José sobre "Coisas que acontecem"...


O Valor das Coisas:               

Está em tudo o que pomos
E como o fazemos...
Tudo quanto somos,
Ou tanto as queremos!

Tempo Que Duram:

Mais importante que o tempo
Que duram sem ter medida,
É o instante... O momento,
Fazendo parte dessa vida!   
                                                       

Intensidade:

Pode ser maior... Ou menor,
Intensa... Ou nem por isso;
Não há coisa melhor...
Intensidade é mesmo um vício!

Momento Inesquecível:

O momento inesquecível
Em que escrevo esta poesia;
De todos... O mais apetecível,
Cada dia... É seu dia!

Coisas Inexplicáveis:

Às vezes não consigo explicar
O que vai dentro de mim...
Se me quero libertar
Amarrado até ao fim?!

Pessoas Incomparáveis (II):

A incomparável leveza do ser
Entrou num coração!
Mais querer... É nada querer,
Que o resto urtigas são!

Matias José
        

HISTÓRIAS DESTE DIA

Aconteceu a 30 de Novembro...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS 2011

MuDA não apoia qualquer candidato a Presidente da República, deixando ao critério de todos quantos confiaram no movimento, total liberdade de escolha nas eleições presidenciais  do dia 23 de Janeiro de 2011.
Poet'anarquista
MuDA
Movimento Unidade Desenvolvimento de Alandroal

 ESCLARECIMENTO PÚBLICO

O Movimento Unidade e Desenvolvimento de Alandroal (MuDA), foi criado para constituir uma resposta válida e credível aos problemas e desafios que o concelho enfrenta.

O seu âmbito é, portanto, "local", e é nesse âmbito que foi validado pelo voto dos eleitores e que se tem vindo a afirmar como a tendência que mais facilmente coloca os interesses do concelho acima de todos os outros, congregando um conjunto de pessoas e vontades que melhor resposta podem dar aos desafios que o concelho enfrenta. Sendo certo que todos aqueles que partilhem destes princípios têm no Movimento um espaço para o demonstrarem a qualquer momento. Todos são bem-vindos quando se trata de arregaçar as mangas para lutar pelo concelho.

O Movimento foi criado fazendo assentar os seus princípios na pluralidade de opções e tendências, e acolheu de braços abertos apoiantes de todos os quadrantes políticos ou sem opção partidária.
Neste contexto, não faria sentido que este Movimento tomasse uma posição pública de apoio a um candidato, em particular nas próximas eleições presidenciais.

Assim, deixamos claro que:
1) O MuDA não apoia qualquer candidato a Presidente da República.
2) Os apoiantes do Movimento devem sentir-se totalmente livres para apoiar o candidato com que mais se identifiquem.
3) Nenhuma posição pública de qualquer apoiante vincula o Movimento de qualquer forma.

Enquanto Movimento, contamos trabalhar da melhor maneira possível com todos os candidatos com que viermos a contactar, assim como com aquele que vier a ser o próximo Presidente da República Portuguesa, na afirmação dos interesses do concelho.
Fonte: MuDA

HISTÓRIAS DESTE DIA

Aconteceu a 29 de Novembro...

sábado, 27 de novembro de 2010

OUTROS TEMPOS...

Diário de Notícias de 27-11-1994
Sob proposta da Secretaria de Estado do Turismo (SET), o governo português inicia um investimento de cerca de 700 000 contos num itenerário turístico e cultural nas área da arqueologia, implicando a valorização de 13 locais de interesse histórico no Alentejo. Abrange monumentos megalíticos da era romana e islâmica, nomeadamente Miróbriga (Santiago do Cacém), São Cucufate (Vidigueira), Anta Grande (Zambujeiro) e Cromeleque dos Almendres (Évora).
Fonte: O Leme 
MIRÓBRIGA- Santigo do Cacém
Ruínas de Cidade Romana

Ruínas Romanas de Miróbriga


As ruínas romanas de Miróbriga foram referenciadas desde o século XVI e encontram-se implantadas numa zona privilegiada, profícua em recursos agrícolas, marítimos e mineiros, pelo que este sítio arqueológico terá desempenhado um papel comercial de relativo destaque. Miróbriga foi habitada desde, pelo menos, a Idade do Ferro até ao século IV d. C.. 

Embora as estruturas habitacionais ainda permaneçam reduzidamente estudadas, sabe-se que se desenvolveram ao longo de calçadas e possuíam decorações com frescos. Circundando o forum desenvolve-se toda uma zona constituída por diversas construções como a cúria, a basílica e umas Termas. Dispõe de um Centro de Acolhimento e Interpretação.
Fonte: Guia da Cidade- Setúbal
SÃO CUCUFATE- Vidigueira
Ruínas de Vila Romana


Ruínas de São Cucufate


As ruínas romanas de Cucufate estão datadas do século I d. C., consideradas como um centro de exploração agrícola, que foi crescendo até ao século IV, onde poderá ter sido a residência do proprietário, com estruturas para transformação e armazenamento dos produtos agrícolas.


Após o declínio do Império Romano, este local continuou a ser habitado, até aos finais do século XVIII, como parece ter sido antes da ocupação romana, a julgar pelos vestígios encontrados durante as escavações arqueológicas, num continuo aproveitamento da riqueza destes solos e da abundância de água.


Mais recentemente instalou-se nas imediações das ruínas, a horta de S. Cucufate, que se pretende continue a dar vida a este local, a par dos atractivos culturais que esta estação arqueológica proporciona.
Fonte: Geocaching
ANTA GRANDE DO ZAMBUJEIRO- Valverde
Monumento Megalítico

Anta Grande do Zambujeiro 


A Anta Grande do Zambujeiro situa-se a cerca de 500 metros de Valverde, no bonito concelho de Évora, na imensa região Alentejana.
Este monumento megalítico classificado como Monumento Nacional constitui uma das maiores Antas da Europa, sendo mesmo a maior que se tem conhecimento em toda a Península Ibérica.

Esta é uma região ocupada pelo homem desde remotos períodos, existindo mesmo na zona diversos legados megalíticos de grande importância.

A Anta Grande do Zambujeiro foi descoberta em 1965, tendo-se mais tarde procedido ao seu estudo e investigação.
Seria utilizada pelas comunidades do Período Neolítico como local de enterramento e homenagem aos seus mortos, servindo provavelmente também de Santuário.

O conjunto tem 50 metros de diâmetro, compreendendo a câmara poligonal com 6 metros de altura e um corredor com cerca de 12 metros de comprimento e 2 metros de altura e 1,5 metros de largura, de acesso para o exterior.
O monumento encontrava-se coberto por uma gigantesca Mamoa com mais de 50 metros de diâmetro, tendo a escavação recuperado um importante espólio de objectos rituais, de adorno, vasos de cerâmica, lâminas e pontas de seta, entre muitos outros. 

Fonte: Guia da Cidade- Évora
CROMELEQUE DOS ALMENDRES- Évora
Recinto Megalítico

Cromeleque dos Almendres


O recinto megalítico dos Almendres, um dos maiores monumentos públicos da humanidade, constitui o maior conjunto de menires estruturados da Península Ibérica e é um dos mais importantes da Europa. Este monumento megalítico inicialmente era constituído por mais de uma centena de monólitos. 

A sua escavação permitiu a detecção de várias fases construtivas ao longo do período Neolítico (V e IV milénios a. C.), até alcançar aspecto semelhante ao hoje apresentado. São 92 menires com diferentes formas e dimensões, desde pequenos blocos rudemente afeiçoados, outros maiores que deram ao local o nome de Alto das Pedras Talhas. Formaram dois recintos erguidos em épocas distintas, geminados e orientados segundo as direcções equinociais. Uma dezena de monólitos está decorada exibindo relevos ou gravuras. Foi um monumento com funções religiosas e, provavelmente um primitivo observatório astronómico. O monumento está situado na Herdade dos Almendres, Évora
Fonte: Guia da Cidade- Évora

HISTÓRIAS DESTE DIA

Aconteceu a 27 de Novembro...

CARTOON versus QUADRA

Senhor, porque me abandonaste?
HenriCartoon

SENHOR, PORQUE ME ABANDONASTE?

Resposta do Senhor:

Jorge!... Jesus tu já não és!...
Benfica está pelas amarguras,
Levaste três tiros nos pés...
Judeus põem fim às diabruras!!

POETA

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

MÁRIO CEZARINY

Foi no dia 26 de Novembro de 2006 que faleceu Mário Cesariny de Vasconcelos, poeta e pintor, e uma das figuras mais notáveis da cultura portuguesa.
Poet'anarquista
Mário Cesariny
Poeta e Pintor
BIOGRAFIA

Mário Cesariny de Vasconcelos (Lisboa, 9 de Agosto de 1923 — Lisboa, 26 de Novembro de 2006) foi pintor e poeta, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.

Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu, por acaso, na Vila Edith, na Estrada da Damaia, em Benfica, onde os pais estavam a passar férias. Último filho (três irmãs mais velhas) de Viriato de Vasconcelos, natural de Tondela, e de Mercedes Cesariny Vasconcelos (de ascendência paterna corsa e materna espanhola), natural de Paris. O pai, com uma personalidade dominadora e pragmática, era empresário ourives, com loja e oficina na rua da Palma, na freguesia de Santa Justa, em plena baixa lisboeta.

Depois da escola primária, o jovem Mário frequentou durante um ano o Liceu Gil Vicente, após o que o pai (que o queria ourives) o mudou para um curso de cinzelagem na Escola de Artes Decorativas António Arroio (onde conheceu Artur do Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco), que completou. Depois, como não lhe agradasse o trabalho de ourives, frequentou um curso de habilitação às Belas-Artes. Também estudou música, gratuitamente, com o compositor Fernando Lopes Graça. Cesariny era um talentoso pianista, mas o pai, enfurecido, proibiu-o de continuar esses estudos. Entretanto, no final da adolescência, Cesariny e os amigos frequentam várias tertúlias nos cafés de Lisboa e descobrem o neo-realismo e depois o surrealismo.

Em 1947, Cesariny viaja até Paris onde frequenta a Académie de la Grande Chaumière e conhece André Breton, cuja influência o leva a criar no mesmo ano o Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com figuras como António Pedro, José Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira, Moniz Pereira e Alexandre O´Neill. Este grupo surgiu como forma de protesto libertário contra o regime salazarista e contra o neo-realismo, dominado pelo Partido Comunista Português, de tendência estalinista. Mais tarde, funda o anti-grupo (dissidente)"Os Surrealistas" do qual fazem parte entre outros os seguintes autores António Maria Lisboa, Risques Pereira, Artur do Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Fernando José Francisco e Mário-Henrique Leiria.

Na década de 1950, Cesariny dedica-se à pintura, mas também, e sobretudo, à poesia, que escreve nos cafés. O seu editor é Luiz Pacheco, com quem mais tarde (nos anos 1970) se incompatibilizaria por completo. É também durante esse período que começa a ser incomodado e a ser vigiado pela Polícia Judiciária, por "suspeita de vadiagem", obrigado a humilhantes apresentações e interrogatórios regulares, devido à sua homossexualidade, que vivencia diariamente, de modo franco e destemido. Só a partir de 25 de Abril de 1974 deixará de ser perseguido e atormentado pela polícia.

Cesariny vivia com dificuldades financeiras, ajudado pela família. Apesar da excelência da sua escrita, esta não o sustentava financeiramente e Cesariny, a partir de meados dos anos 1960, acabaria por se dedicar por inteiro à pintura, como modo de subsistência.

A partir da década de 1980, a obra poética de Cesariny é reeditada pelo editor Manuel Hermínio Monteiro e redescoberta por uma nova geração de leitores.

Nos últimos anos da sua vida, Cesariny viveu com a sua irmã mais velha, Henriette (falecida em 2004). Ao contrário do que acontecia anteriormente, abriu-se aos meios de comunicação dando frequentes entrevistas e falando sobre a sua vida íntima. Em 2004, Miguel Gonçalves Mendes realizou o documentário Autografia, filme intenso e comovente onde Cesariny se expõe e revela de modo total.

Mário Cesariny morreu em 26 de Novembro de 2006, às 5h30, de cancro da próstata, de que sofria havia anos. Doou em vida o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda e, por testamento, deixou um milhão de euros à Casa Pia.

OBRA

Mário Cesariny adopta uma atitude estética de constante experimentação nas suas obras e pratica uma técnica de escrita e de (des)pintura amplamente divulgada entre os surrealistas. A sua poesia é animada por um sentido de contestação a comportamentos e princípios institucionalizados ou considerados normais nos campos do pensamento e dos costumes. Ao recorrer a processos tipicamente surrealistas (enumerações caóticas, utilização sistemática do sem-sentido ou do humor negro, formas paródicas, trocadilhos e outros jogos verbais, automatismo, etc.) alcança uma linguagem que sabe encontrar o equilíbrio entre o quotidiano e o insólito.  Introduz também a técnica designada “cadáver esquisito”, que consiste na construção de uma obra por três ou quatro pessoas, num trabalho em cadeia criativa em que cada um dá continuidade, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas parte do que este fez.

Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.

Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa.
Fonte: Wikipédia
MÁRIO CESARINY
Faz-me o favor...
 
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
 
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
 
Tu és melhor -- muito melhor! -  
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

MÁRIO CESARINY
MÁRIO CESARINY

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

MÁRIO CESARINY





HISTÓRIAS DESTE DIA

Aconteceu a 26 de Novembro...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

POESIA BRASILEIRA

Cruz e Sousa, (Dante Negro ou ainda Cisne Negro como alcunhas), poeta brasileiro impulsionador do simbolismo e aniversariante neste dia 24 de Novembro de 2010, recordado em Amigos d'Arte com a publicação de foto-biografia, análise da obra e os sonetos "A Morte" e "Lésbia".
Poet'anarquista
João da Cruz e Sousa
Poeta Brasileiro Impulsionador do Simbolismo

BIOGRAFIA

João da Cruz e Sousa (Nossa Senhora do Desterro, 24 de novembro de 1861 — Estação do Sítio, 19 de março de 1898) foi um poeta brasileiro, alcunhado de Dante Negro e Cisne Negro. Foi um dos precursores do simbolismo no Brasil.
Filho dos negros alforriados Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, João da Cruz desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada do seu ex-senhor, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa - de quem adotou o nome de família, Sousa. A esposa de Guilherme Xavier de Sousa, Dona Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, não tinha filhos, e passou a proteger e cuidar da educação de João. Aprendeu francês, latim e grego, além de ter sido discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.
Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, no qual combateu a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna por ser negro. Em 1885 lançou o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, colaborando também com o jornal Folha Popular. Em fevereiro de 1893, publica Missal (prosa poética baudelairiana) e em agosto,Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem teve quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose, levando-a à loucura.
Faleceu a 19 de março de 1898 no município mineiro de Antônio Carlos, num povoado chamado Estação do Sítio, para onde fora transportado às pressas vencido pela tuberculose. Teve o seu corpo transportado para o Rio de Janeiro em um vagão destinado ao transporte de cavalos. Ao chegar, foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier pelos seus amigos, dentre eles José do Patrocínio, onde permaneceu até 2007, quando os seus restos mortais foram então acolhidos no Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa, no centro de Florianópolis.
Cruz e Sousa é um dos patronos da Academia Catarinense de Letras, representando a cadeira número 15.
ANÁLISE DA OBRA
Os seus poemas são marcados pela musicalidade (uso constante de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, às vezes pelo desespero, às vezes pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca. É certo que encontram-se inúmeras referências à cor branca, assim como à transparência, à translucidez, à nebulosidade e aos brilhos, e a muitas outras cores, todas sempre presentes em seus versos.
No aspecto de influências do simbolismo, nota-se uma amálgama que conflui águas do satanismo de Baudelaire ao espiritualismo (e dentro desse, ideias budistas e espíritas) ligados tanto a tendências estéticas vigentes como a fases na vida do autor.
Embora quase metade da população brasileira seja não-branca, poucos foram os escritores negros, mulatos ou indígenas. Cruz e Sousa, por exemplo, é acusado de ter-se omitido quanto a questões referentes à condição negra. Mesmo tendo sido filho de escravos e recebido a alcunha de "Cisne Negro", o poeta João da Cruz e Sousa não conseguiu escapar das acusações de indiferença pela causa abolicionista. A acusação, porém, não procede, pois, apesar de a poesia social não fazer parte do projeto poético do Simbolismo nem de seu projeto particular, o autor, em alguns poemas, retratou metaforicamente a condição do escravo. Cruz e Sousa militou, sim, contra a escravidão. Tanto da forma mais corriqueira, fundando jornais e proferindo palestras por exemplo, participando, curiosamente, da campanha anti-escravagista promovida pela sociedade carnavalesca Diabo a Quatro, quanto nos seus textos abolicionistas, demonstrando desgosto com a condução do movimento pela família imperial.
Quando Cruz e Sousa diz "brancura", é preciso recorrer aos mais altos significados desta palavra, muito além da cor em si.
Fonte: Wikipédia

LÉSBIA
Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Ri, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os letargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

-- Cruz e Sousa / Broquéis (1893).

A MORTE

Oh! que doce tristeza e que ternura
No olhar ansioso, aflito dos que morrem...
De que âncoras profundas se socorrem
Os que penetram nessa noite escura!

Da vida aos frios véus da sepultura
Vagos momentos trêmulos decorrem...
E dos olhos as lágrimas escorrem
Como faróis da humana Desventura.

Descem então aos golfos congelados
Os que na terra vagam suspirando,
Com os velhos corações tantalizados.

Tudo negro e sinistro vai rolando
Báratro abaixo, aos ecos soluçados
Do vendaval da Morte ondeando, uivando...

Cruz e Sousa