segunda-feira, 9 de agosto de 2010

CANTARES ALENTEJANOS

   Eu sou devedor à terra; a terra me está devendo; a terra paga-me em vida; eu pago à terra morrendo
 

O Cante Alentejano 

Esta é uma das passagens do canto alentejano que revela a forma de sentir do povo da planície. Um povo que, apesar de muitas vezes ser forçado a sair para procurar melhores condições de vida, continua a preservar o seu amor pela terra. Para o fazer sentir e demonstrar, o povo usa a voz e canta a saudade, as alegrias e as tristezas. No fundo, são cenas simples do quotidiano que são retratadas na voz, no semblante carregado e no embalar. 

A origem deste tipo de poesia cantada em que a voz é o único instrumento, ainda não está esclarecida. Há quem a atribua à  escola de canto popular que os frades da Serra de Ossa fundaram, primeiro em Évora e depois em Serpa: e há simplesmente, quem considere que a origem dos cantos alentejanos está no tempo em que se faziam tarefas agrícolas na grande planície. A isto não é alheia a própria configuração da paisagem: aglomerados pequenos e distâncias grandes, ao longo das quais se ia cantando, até chegar ao campo de trabalho. Por outro lado, durante o resto do tempo, o homem alentejano vivia em comunidade. Uma ida até a taberna era sempre uma boa ocasião para conviver com os amigos. Isto passava-se antigamente e é o que acontece ainda hoje em algumas, já poucas, terras alentejanas. 

E não se pense que é só cantar e pronto. Se há coisa que um alentejano preza é o saber cantar como manda a regra. Para isso são sempre necessários três elementos: a primeira voz, que inicia o canto e a que se dá o nome de ponto": a segunda voz, a que se dá o nome de alto e que é composta por duas pessoas que cantam uma oitava acima e o conjunto dos baixos', que é composta por um grupo que pode ir de quinze a vinte e cinco elementos. As modas alentejanas podem ser classificadas em dois grupos; as "modas de baile que são cantadas na altura dos Santos Populares e Carnaval, e ao som das quais se chegaram a fazer bailes: e as 'modas terra de barro', assim denominadas porque tal como a terra de barro é difícil de trabalhar, também estas modas são difíceis de cantar. São as modas de que os grupos se orgulham e que fazem questão de cantar quando está alguém de outro grupo por perto. É que existe uma grande rivalidade entre os vários grupos de cantares. Mas dizem os envolvidos na matéria que é uma rivalidade sã, que passa pelo orgulho de cantar melhor do que os outros e que provavelmente, até tem sido um dos motivos pelo qual o canto alentejano ainda continua bem vivo.

Como principais cantos alentejanos surgem-nos 'Ao romper da bela aurora, A ribeira do sol posto e o Passarinho, este último interpretado de formas diferentes por diversos grupos, o primeiro é um hino à vida e às suas coisas simples, como o ciclo do pastor que se levanta quando nasce o sol. O segundo está relacionado com o mistério das coisas... e o cantar da cigarra durante o verão que vai marcando o compasso do trabalhar da charrua e todo o ciclo próprio das coisas que são filtradas pela sensibilidade do alentejano.

Nesta grande planície feita de distâncias e mistério, de beleza e contrariedades,de partidas e saudade o rio Guadiana marca uma fronteira entre dois mundos do canto: na margem esquerda canta-se de forma mais lenta e compassada e a rainha do canto e a localidade de Cuba; na margem direita canta-se deforma mais andada e ritmada e é Serpa a senhora das melodias. O traje típico do alentejano quando canta é o fato domingueiro; a camisa, o colete e as calças finas. Existe, no entanto, uma excepção, que é o caso do grupo etnográfico "ceifeiros de cuba. Estes, tal como o próprio nome indica, vestem o fato de trabalho; calças, colete e camisa de fazenda grossa, pois como diz a expressão popular 'o que guarda o frio, guarda o calor.' Usam também os ceifões para proteger as pernas, os alforges, a foice, os canudos de cara para proteger os dedos durante a ceifa e a corna das azeitonas. Esta é a farda típica de trabalho que eles vestem sempre que a actuação é programada. No entanto sempre que o número de homens que se juntam na taberna é suficiente para lançar o mote e cantar uma modinha, eles não esperam para se fardar. É preciso é que haja gente suficiente para tal, pois caso contrário, os outros não esperam para os mandar calar. Se estiverem presentes elementos de grupos diferentes, é sempre dada a prioridade ao grupo que tiver maior número de elementos presentes.

Hoje já não é fácil angariar jovens para se unirem uns aos outros e cantarem as modas típicas da sua terra. Grande parte deles vão fugindo para o litoral ou para o estrangeiro em busca de melhores dias e os que ficam preferem dedicar o seu tempo livre à música popular portuguesa, acompanhada de cavaquinho ou bandolim. Enquanto isso, os mais velhos vão tentando preservar o património que herdaram e que guardam com muito orgulho. E assim vão cantando até que a voz lhes doa.
Fonte: Semibreves

GENTE NOSSA

Esta é a minha gente!...
Gente que não engana,
Porque canta e sente
A cantiga alentejana!!!


POETA
 

5 comentários:

Anónimo disse...

A pureza do cantar alentejano num post muito bom. Alentejo és nossa terra...

Anónimo disse...

Que não se percam estes BELOS CANTARES!
Muito obrigada

Uma Alandroalense

xpto disse...

Há lá coisa mais bonita!
E depois de bem comido e bebido, não há nada como cantar alentejano.
oh rama oh que linda rama
oh rama da oliveira
o meu par é o mais lindo
Q´uanda aqui na roda inteira.

Um abraço
Chico

Camões disse...

Esta é a minha gente!...
Gente que não engana,
Porque canta e sente
A cantiga alentejana!!!

POETA

Anónimo disse...

BELÍSSIMA QUADRA AMIGO POETA, É ISSO MESMO QUE A GENTE SENTE!