segunda-feira, 21 de maio de 2018

SÁTIRA...

100  é Pouco
Sátira...

«100 É POUCO»

- Deixa-me cá ver
Quantos tenho no almoço…
Só 100?... não posso,
Vai sobrar muito comer.
Sei sempre como resolver
Estas situações…
Carlos?… arranjas uns milhões??
- Claro José, é só pedir…
Estou aqui pra servir
Os amigos glutões!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

SONNY ROLLINS - «Blue Room»
Poet'anarquista

Sonny Rollins
Saxofonista de Jazz Norte-Americano

OUTROS CONTOS

«A Virgem», conto poético por Alexander Pope.

«A Virgem»
Detalhe da Virgem dos Rochedos
Leonardo da Vinci

1155- «A VIRGEM»

Feliz é o destino da
inocente vestal!
Esquecendo o mundo,
e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma
mente sem lembrança.
Toda prece é ouvida,
toda graça se alcança.

Alexander Pope

sexta-feira, 18 de maio de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

DELFINS - «Solta os Prisioneiros»

Poet'anarquista

SOLTA OS PRISIONEIROS

Em busca da verdade correm viajantes
Livres por um fio
Em busca da verdade ficam prisioneiros...
Em busca do amor dormem os amantes
Juntos por um fio
Em busca do amor ficam prisioneiros

Soltem!
Soltem!
Libertem-nos!...

 Solta os prisioneiros
Solta os prisioneiros
Por todo o mundo
Há prisioneiros
Por todo o mundo

 Soltem!
Soltem!
Libertem-nos!...

Solta os prisioneiros
Solta os prisioneiros
Por todo o mundo
Há prisioneiros
Por todo o mundo

 Soltem!
Soltem!
Libertem-nos!...

Solta os prisioneiros
Solta os prisioneiros
Por todo o mundo
Há prisioneiros
Por todo o mundo

Delfins
Banda Portuguesa

SÁTIRA...

A Lapa
Sátira...

«A LAPA»

Sou uma lapa pegajosa
Agarrada a este rochedo…
Eu cá não tenho medo,
Gosto de gente perigosa!
Quanto mais asquerosa
Tanto melhor pra mim,
Vou ter um triste fim
Preso no xelindró…
Acreditem que meto dó,
Sou um canalha ruim!!

POETA

SÁTIRA...

Opinião Pública
Sátira...

«OPINIÃO PÚBLICA»

Pergunta ao comum cidadão:
- O que acha desta vaga…
Melhor dizendo, da praga
Que é a maldita corrupção?
- Uma vergonha tanto ladrão
A cair nesses engodos…?
- Eu cá prendia-os a todos
E cortava o mal p’la raiz…?
- Só neste pobre país…?
- Corrupção? Tenha modos!

POETA

quinta-feira, 17 de maio de 2018

OUTROS CONTOS

«O Outro Eu», por Mario Benedetti.

«O Outro Eu»
JPGalhardas

1154- «O OUTRO EU»

(A morte e outras surpresas, 1968)

Tratava-se de um rapaz comum: usava calças da moda, lia gibis, fazia barulho enquanto comia, cutucava o nariz com o dedo, roncava durante a soneca, se chamava Armando Corrente em tudo menos em uma coisa: tinha um Outro Eu.

O Outro Eu usava certa poesia no olhar, se apaixonava pelas actrizes, mentia cautelosamente, se emocionava com o entardecer. O rapaz se preocupava muito com seu Outro Eu e o fazia se sentir incomodado diante de seus amigos. Já o Outro Eu era melancólico e, por causa disso, Armando não podia ser tão vulgar quanto desejava.

Uma tarde Armando chegou cansado do trabalho, tirou os sapatos, moveu lentamente os dedos dos pés e ligou o rádio. Estava tocando Mozart, mas o rapaz dormiu. Quando acordou, o Outro Eu chorava desconsoladamente. Em um primeiro momento, o rapaz não soube o que fazer, mas depois se refez e conscientemente insultou o Outro Eu. Este não disse nada, mas na manhã seguinte já havia se matado.

No começo, a morte do Outro Eu foi um duro golpe para o pobre Armando, mas depois ele pensou que agora sim poderia ser inteiramente vulgar. Esse pensamento o reconfortou.

Levava apenas cinco dias de luto quando saiu pelas ruas com o propósito de exibir sua nova e completa vulgaridade. De longe viu que seus amigos se aproximavam. Isso o encheu de felicidade e o fez imediatamente explodir em risadas. Entretanto, quando passaram próximo dele, seus amigos não notaram sua presença. Para piorar, o rapaz pôde escutar que comentavam: ‘Pobre Armando. E pensar que parecia tão forte e saudável’.

O rapaz não teve outro remédio que parar de rir e, ao mesmo tempo, sentiu na altura do peito uma aflição que se parecia muito a nostalgia. Mas ele não pôde sentir uma autêntica melancolia, porque toda a melancolia tinha sido levada pelo Outro Eu.

Mario Benedetti

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

THE CORRS - «Erin Shore»

Poet'anarquista

The Corrs
Banda Irlandesa

OUTROS CONTOS

«Homens Maduros», por Zélia Gattai.

«Homens Maduros»
Frutos Maduros
Verão/ Giuseppe Arcimboldo

1153- «HOMENS MADUROS»

Há uma indisfarçável e sedutora beleza na personalidade de muitos Homens que hoje estão na idade madura. É claro que toda regra tem as suas exceções, e cada idade tem o seu próprio valor. Porém, com toda a consideração e respeito às demais idades, destacarei aqui uma classe de Homens que são companhias agradabilíssimas: Os que hoje são quarentões, cinquentões e sessentões. Percebe-se com uma certa facilidade, a sensibilidade de seus corações, a devoção que eles tem pelo que há de mais belo ‘O SENTIMENTO.’

Eles são mais inteligentes, vividos, charmosos, eloquentes. Sabem o que falam, e sabem falar na hora certa. São cativantes, sabem fazer-se presentes, sem incomodar.

Sabem conquistar uma boa amizade. Em termos de relacionamentos, trocam a quantidade pela qualidade, visão aguçada sobre os valores da vida, sabem tratar uma mulher com respeito e carinho. São Homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver. Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.

Homens mais amadurecidos têm maior desenvoltura no trato com as mulheres, sabem reconhecer as suas qualidades, são mais espirituosos, discretos, compreensivos e mais educados.

A razão pela qual muitos Homens maduros possuem estas qualidades maravilhosas deve-se a vários fatores: a opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gostos individuais, etc... mas eu creio que em parte, há uma boa parcela de influência nos modos de viver de uma época, filmes e músicas ouvidas e curtidas deixaram boas recordações da sua juventude, um tempo não tão remoto, mas que com certeza, não volta mais. Viveram a sua mocidade (época que marca a vida de todos nós) em um dos melhores períodos do nosso tempo: Os anos 60/70. 

Considerados as ‘décadas de ouro’ da juventude, quando o romantismo foi vivido e cantado em verso e prosa.

A saudável influência de uma época, provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória, e que mudaram a vida de muitos. Uma época em que o melhor da festa era dançar agarradinho e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador, os domingos de sol eram só alegrias. Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Morris Albert, Jovem guarda e muitos outros que embalaram suas ‘Jovens tardes de domingo, quantas alegrias! Velhos tempos, belos dias.’ Foram e ainda são os Homens que mais souberam namorar: Namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho, olhos nos olhos tinham mais valor... 

A moda era amar ou sofrer de amor. Muitos viveram de amor... Outros morreram de amor... Estes Homens maduros de hoje, nunca foram Homens de Ou eles estavam a namorar pela certa, ou estavam na ‘fossa’, ou estavam sozinhos. Se eles ‘ficassem’, ficariam para sempre... ao trocar alianças com suas amadas. Junto com Benito de Paula, eles cantaram a ‘Mulher Brasileira, em primeiro lugar!’ A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam: ‘As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil, mais esplendor... A mão de Deus, abençoou, Mulher que nasce aqui, tem muito mais Amor... Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo... Ninguém segura a juventude do Brasil...’

A juventude passou, mas deixou ‘gravado’ neles, a forma mais sublime e romântica de viver. Hoje eles possuem uma ‘bagagem’ de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos. O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: Deixando os seus cabelos cor-de-prata, os movimentos mais suaves, a voz pausada, porém mais sonora, hoje eles são Homens que marcaram uma época.

Eu tenho a felicidade de ter alguns deles como amigos virtuais, mesmo não os vendo pessoalmente, percebo estas características através de suas palavras e gestos. Muitos deles hoje ‘dominam’ com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriou os sentimentos pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavras de amor. 

Nem lhes diminuiu a grande capacidade de amar, sentir e expressar seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia. Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias e sim os raros valores de suas personalidades. O importante é perceber que os seus corações permanecem jovens... São Homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de... 

PODER ADMIRÁ-LOS!

Zélia Gattai

SÁTIRA...

A Cavalaria
Sátira...

«A CAVALARIA»

- Bosta, é minha impressão
Ou a Festa já terminou?
- Martelo, parece que acabou
Esta pequena confusão…?
- Faço o rescaldo da situação:
Jogo à porta fechada
Com os jogadores na bancada…?
- Apoiado, Zorro Rodrigues!...
Assim duma vez extingues
A Festa mais esperada!!

POETA

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O AMOR

O Amor
O Amor/ Pintura de Rodolfo Barral

O AMOR

O amor veio de mansinho
P'la calada da noite...
Se tem alma que se afoite,
O amor não está sozinho.

Veio pé ante pezinho
Talvez por aqui pernoite...
Se tem alma que acoite,
O amor vem a caminho.

O amor é como o vinho...
Não gosta de quem açoite
Pró efeito ser limpinho.

O amor anda mortinho
Que de vez se não amoite,
E receber outro carinho.

Manuel Matias

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

KING CRIMSON - «A Scarcity of Miracle»

Poet'anarquista

UMA ESCASSEZ DE MILAGRES

Noite cai
Como a escuridão reaparece
A loucura e o medo
Ele está perto deles
A fé me leva a perguntar quem eu sou
Se não mito ou homem
Ao lado deles
Não diga o que você é, mas o onde
Você estava
Luz do dia você ainda é minha alma

Noite cai
O segredo prevalece
Pânico e dor ainda os contradiz
Pizzaro e os conquistadores
Detritos e metáforas
E a escassez de milagres
Eu encontrei

Valverde e as linhas da batalha

King Crimson
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Oh as Chaminés», conto poético por Nelly Sachs.

«Oh as Chaminés»
Tocador de Orgão/ Felix Nussbaum

O TEU CORPO EM FUMO PELO AR

E quando esta minha pele estiver desfeita
eu verei Deus sem a minha carne.

Job

1152- «OH AS CHAMINÉS»

Sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas
Quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu
Pelo ar —
Como limpa-chaminés uma estrela o recebeu
Que se fez negra
Ou era um raio de sol?

Oh as chaminés!
Vias da liberdade para o pó de Jeremias e de Job —
Quem vos inventou e compôs pedra sobre pedra
De fumo o caminho aos fugitivos?

Oh as moradas da morte,
De arranjo convidativo
Para o hospedeiro, outrora hóspede —
Ó dedos,
Pondo a soleira de entrada
Como uma faca entre vida e morte —

Ó vós chaminés,
Ó vós dedos,
E o corpo de Israel em fumo pelo ar!

Nelly Sachs

terça-feira, 15 de maio de 2018

OUTROS CONTOS

«A Lição do Camaleão», por Amadou Hampate Ba.

«A Lição do Camaleão»
Ilustração e Trabalho Gráfico de Felipe Gianni

1151- «A LIÇÃO DO CAMALEÃO»

Sigam a lição do camaleão! Ele é um grande professor. Se o observardes com atenção vereis…

Primeiro, quando se decide a avançar numa direcção, nunca olha para trás. Portanto, quando estabelecerdes um objectivo para a vossa vida, não deixeis que nada vos deixe afastar dele.

Depois, quando se movimenta, nunca vira a cabeça mas os seus olhos estão sempre olhando para cima e para baixo. O que quer dizer: Informai-vos! Não acrediteis que sois únicos sobre a Terra; há sempre uma situação e um ambiente à vossa volta.

Quando chega a qualquer lugar, o camaleão toma a cor do que o rodeia. Isso não é hipocrisia, é antes tolerância, e também o “saber viver”.

E que mais faz ainda o camaleão? Quando decide andar, primeiro balança uma das suas patas anteriores para ter a certeza de que as suas patas posteriores estão firmes e não o deixam cair. Só depois se movimenta em segurança. É o que se chama a prudência no caminhar!

Amadou Hampate Ba

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

MIKE OLDFIELD'S - «Return to Ommadawn»
Poet'anarquista

Mike Oldfield's
Guitarrista e Compositor Britânico

OUTROS CONTOS

«Os Instantes Superiores da Alma», conto poético por Emily Dickinson.

«Os Instantes Superiores da Alma»
Poema de Emily Dickinson

1150- «OS INSTANTES SUPERIORES DA ALMA»

Os instantes Superiores da Alma 
Acontecem-lhe - na solidão - 
Quando o amigo - e a ocasião Terrena 
Se retiram para muito longe - 

Ou quando - Ela Própria - subiu 
A um plano tão alto 
Para Reconhecer menos 
Do que a sua Omnipotência - 

Essa Abolição Mortal 
É rara - mas tão bela 
Como Aparição - sujeita 
A um Ar Absoluto - 

Revelação da Eternidade 
Aos seus favoritos - bem poucos - 
A Gigantesca substância 
Da Imortalidade. 

Emily Dickinson

segunda-feira, 14 de maio de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

TALKING HEADS - «The Lady Don´t Mind»

Poet'anarquista

A MOÇA NÃO SE IMPORTA

Da última vez que ela pulou da janela
Bem, ela só se virou e sorriu
Você pode achar que ela falaria algo
Mas você teria que esperar um pouco

Bem, a moça não se importa
Não, não, não, a moça não se importa
Ela apenas vira a cabeça e desaparece
Eu meio que gosto desse estilo

Como um pequeno barco que flutua no rio
Está flutuando através de uma névoa
Ela pára sempre que ela quer
Bem, lá vai ela de novo

Bem, não é nenhum problema
Não, não, nenhum problema
Bem, o que ela faz
Está tudo bem comigo e
Eu meio que gosto desse estilo

Vamos lá, eu vou pra cima e pra baixo
Eu gosto desse sentimento curioso, eu sei, eu vejo
É como fazer acreditar
Cubra seus ouvidos para poder ouvir o que estou dizendo
Não estou perdida mas não sei
Onde eu estou, tenho uma pergunta
Tudo bem, tudo bem
Isso é o que gostamos
Quem sabe, quem sabe
O que eu estou pensando?

Ela diz que o amor não é o que ela procura
E todo mundo sabe
Cada vez que ela olha no espelho
Ela deixa seus sentimentos à mostra

Bem, a moça não se importa
Não, não, não, a moça não se importa
Bem, o que ela diz está bom para mim
E eu meio que gosto desse estilo

Uh-oh, uh-oh, aqui vamos nós de novo
Eu não sei, eu não sei
O que eu estou dizendo
Ei cara, ei cara
Eu certamente não sinto o mesmo
Ela gosta de dizer o que está sentindo
Ei, eu tive uma grande surpresa?
Eu sei que você pensa assim
Vamos, vamos lá, ela diz qualquer coisa
Quem sabe quem sabe
O que ela está pensando

Oh-oh oh-oh
Oh-oh oh-oh
Oh-oh oh-oh

Talking Heads
Banda Britânica

OUTROS CONTOS

«Num certo sentido só falamos de nós», pequeno texto de Eduardo Lourenço.

«Num certo sentido só falamos de nós»
Pintura/ Guido Boletti

1149- «NUM CERTO SENTIDO SÓ FALAMOS DE NÓS»

«Num certo sentido só falamos de nós. Contudo, as nossas palavras essenciais falam sozinhas. Nós pronunciamo-las para nos falar. A plenitude frágil dessa autonomia uma palavra que é menos nossa do que nós somos dela guarda como o diamante a luz do ser que nos é acessível.

Como o diamante ela é o resultado da mais rara das vitórias sobre a noite, opacidade nossa e do mundo, vitória sempre precária pois sob a transparência é fácil descobrir o carvão transfigurado.

Essa palavra que é suprema nomeação sem a poder ser totalmente, que pede e suporta a metamorfose permanente que a tira da morte para a vida é um dos nomes da Poesia».

Eduardo Lourenço

sexta-feira, 11 de maio de 2018

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

ERIC BURDON & THE ANIMALS
«Tobacco Road»

Poet'anarquista

TOBACCO ROAD

Em Tobacco Road
Eu nasci
Num tronco
Meu pai morreu
Sim, meu pai ficou bêbado
Deixou-me aqui
Para morrer sozinho
No meio do Tobacco Road
Eu cresci, sim
Oxidado neste barraco
Tudo o que eu tinha era pendurado nas minhas costas
Deus sabe o quanto eu odiava
Este lugar chamado Tobacco Road
Com sua casa
A única vida que eu já sei, yeh
E o Senhor sabe que eu detestava
Tobacco Road
Yeh, Yeh, Yeh
Vou sair agora
Arranjem-me um emprego
Com a ajuda e a graça de Deus
Eu vou guardar o meu dinheiro
Ficar muito rico como eu conheço
Trazê-lo de volta para Tobacco Road
Trazer essa dinamite, yeh
Guindaste grande velho
Explodi-lo, derrubá-lo
Começar tudo de novo
Construa-me uma cidade
Tenha muito orgulho de mostrar
Manter o nome do Tobacco Road
Com sua casa
A única vida que eu já sei, yeh
E o Senhor sabe que eu detestava
Tobacco Road
Yeh, Yeh, Yeh
Vou sair agora
E me arranje um emprego, yeh
Com a ajuda e a graça de Deus
Eu vou guardar o meu dinheiro
Ficar muito rico como eu conheço
Trazê-lo de volta para Tobacco Road
Trazer essa dinamite, yeh
Grande guindaste velho
Explodi-lo, derrubá-lo
Começar tudo de novo
Construa-me uma cidade
Tenha muito orgulho de mostrar
Manter o nome de Tobacco Road
Com sua casa
A única vida que eu já sei, yeh
E o Senhor sabe que eu detestava
Tobacco Road
Yeh
Tobacco Road
Yeh, Yeh

Eric Burdon & The Animals
Banda Britânica

quinta-feira, 10 de maio de 2018

OUTROS CONTOS

«Não Creio Nesse Deus», conto poético por António Aleixo.

«Não Creio Nesse Deus»
Nu/ Marc Chagall

Assim, em palavras se põe a nu a hipocrisia...

1148- «NÃO CREIO NESSE DEUS»

I
Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II
Não vês que o teu bem-estar faz d’outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p’ra ti o céu e a terra…
— Não te achas egoísta ou exigente?

III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P’ra o homem conseguir o que deseja.

IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?…
P’ra esses é o céu; porque o inferno
É p’ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo

quarta-feira, 9 de maio de 2018

SÁTIRA...

Made In Portugal
Sátira...

«MADE IN PORTUGAL»

- Atão, Maria… como correu
O Festival da Eurovisão?...
Sem tempo prá diversão,
Conta lá o que aconteceu.
- A seu dono, o que é seu…
Como nós não há igual
A organizar festival!
- E quais foram os países
Com mais votos dos juízes?
- Eu cá inglês percebo mal…

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...
(9 de Maio de 1962, The Beatles firmam o seu primeiro contrato com a EMI)

THE BEATLES

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

The Beatles
Banda Britânica

PINTURA DO DIA...

Paisagem com Montanhas no Taiti
Paul Gauguin

Pintor Francês
Paul Gauguin


OUTROS CONTOS

«Poema», conto poético por Friedrich Schiller.

«Poema»
Pintura de Rafael Ramírez

1147- «POEMA»

Sonha e fala constantemente
todo homem, desse sonho ardente
que o faz lutar por atingir
um marco de ouro em seu porvir.
Seca e ressurge o mundo ao derredor:
o homem aguarda sempre um bem maior.

A esperança o desperta para a vida.
Envolve-o na adolescência florida,
ao moço atrai com brilho intenso.
O próprio ancião, nesse consenso,
ao baixar sobre seu caminho a treva,
à sepultura uma esperança leva.

Não é uma ilusão fugaz
com que se ofusca o néscio. Mas
o alto prenúncio, em nosso peito,
de que o destino humano é mais perfeito.
E essa voz interior, sincera,
não ilude – jamais – a alma que espera.

Friedrich Schiller

terça-feira, 8 de maio de 2018

OUTROS CONTOS

«O Rio que Corre», conto poético por Manuel Matias.

«O Rio que Corre»
7 de Maio, Ano da Graça de 2018

1146- «O RIO QUE CORRE»

Na tua rua o rio que corre
Ao sabor da chuva e vento...
Nunca se houve um lamento,
Nem mesmo quando morre.

Vai correndo de mansinho
Sempre ao jeito da corrente...
Nas margens aconchegadinho,
Sentindo o que só ele sente.

O rio que corre na rua
Como corrente de amigos,
De histórias e contos antigos
Tem a alma sempre nua.

Acredita que vai correr
Esse rio para o mar,
Por que olhando vais ver
Um brilho no teu olhar.

Rio!... docemente a sorrir
Nos olhos de uma criança,
A verdadeira esperança
Que um dia hás de sentir!!

Manuel Matias

SÁTIRA...

Sem Descâncio
Sátira...

«SEM DESCÂNCIO»

- Até tu, sua grande bruta
Me apunhalas no coração…
Ave César, levanto a mão,
Acabo de perder esta luta!
- Não sou tua prostituta…?
Muito menos sinto prazer
No que está a acontecer...
Deixa-te dessas lérias,
Acabaram-se-me as férias,
Por mim podes morrer!

POETA

segunda-feira, 7 de maio de 2018

SÁTIRA...

Festa e Homenagem
Sátira...

«FESTA E HOMENAGEM»

(Dedicatória ao cartunista)

Dia aziago, estou farto,
Chamaram-me filho da puta…?
Mas o que mais custa
É ter perdido o campeonato!
Acreditem ser muito chato
Ver o Porto festejar,
A festa não queria parar
Lá prós lados do Dragão…
Apagou-se o Lampião,
O Penta começa a tardar!

POETA

MÚSICAS DO MUNDO

E a música de hoje é...

TCHAIKOVSKY - «Swan Lake»

Poet'anarquista

Peter Tchaikovsky
Compositor Russo

OUTROS CONTOS

«A Pele do Bombo», por Aquilino Ribeiro.

«A Pele do Bombo»
Conto de Aquilino Ribeiro

1145- «A PELE DO BOMBO» 

Anos e anos a carretar leite, vila vai, vila vem, aborridos seus olhos de andar a rastos pela invariável fita do caminho, o cavalo do Cleto arriou. Era lento e preso da marcha, como se o arcabouço deprimido empreendesse fundir-­se no repouso aliciador da terra. 

Tinham­-lhe nascido alifates nos tendões e nas jogas, e com a gangrena das suas mataduras embebedavam-se as moscas de dez aldeias. À sobreposse, lá continuava a fazer a romaria cotidiana, saindo da loja com o cantar matutino dos galos, para volver quando os bois remoíam nos estábulos a erva dos pastos. 

Descansava então umas horas num sono quebrantado de pesadelos, em que havia guerras de cavalos e precipícios a atravessar com cargas descomunais. 

Os próprios jericos maviosos eram mais lestos do que ele. E, de vê-lo assim ronceiro, o dono não parava de o espertar com a chibata ou tirar-­lhe pela cadenilha bramando: 

–Arre! Não deixarás as rezas para a loja, excomungado!?

Uma manhã, afinal, que os cântaros cheios pediam besta de fôlego, deu com a carga no chão. 

O Cleto, ao ver o leite vertido, saltou nele às arrochadas. Bateu, bateu até lhe doer o braço e lascar o pau. Mas o cavalo, por mais esforços que fizesse, soltando roncos e escabujando, não conseguiu firmar­-se nos curvilhões. 

Puxou-o o Cleto pela cabeçada, pelo rabo, pelas orelhas: ele fincou os cascos, lavrou mais de uma vez o solo, e desfalecido, inerte, abateu para o lado, a dentuça em arreganho a filtrar uma baba sanguinolenta. Patinhando na terra empapaçada de leite, decidiu­ ­se o Cleto a desaparelhá-lo. Ao barulho daslatas, os pastores assomaram pelos barrocais, e gritou­-lhes: 

– Botai aqui a mão, rapazes! 

Acudiram daqui, dalém, com a gaita no surrão e a cacheira no ar; e uns pela rabadilha, outros pela samarra, puseram o cavalo em pé. O Cleto animou-o, e reajustando o aparelho e tampando os potes, tangeu-­o com brando jeito: 

– Anda lá ... anda, alminha do Senhor! 

Entesando-se, todas as energias crispadas no arranco, começou o cavalo a andar. Mas o seu passo era titubeante, aos torcilhões, tem­-te­ não ­caias. – Vai a ensaiar o sarambeque – disse um pastor. 

– Não bota à vila! – sentenciou outro em tom de reprimenda ao gracioso. 

O Cleto engalfinhou­-lhe os dedos pelas clinas a ampará­lo. Mas breve as pernas lhe fraquejaram, sacudidas de tremor, e ajoelhando com brusquidão desabou para a banda, desamparado, como se o estatelasse um raio. O Cleto sovou­o a pontapés, arrepelando-­se e chamando­-se um desinfeliz da sorte. 

– Vá por besta, tio Cleto! – aconselhou um dos rapazes. 

Tentou ainda pô-­lo em pé, ora à força de catanada, ou com vozes de incitamento. Mas o animal nem buliu, de olhos esgazeados, perdidos num horizonte de bruma. 

O Cleto deu-lhe um último trompaço na morca e, a praguejar, tirou-­lhe a carga. E tornou esbaforido à aldeia em cata duma jumenta, deixando-o rodeado de cães que, língua desembainhada, lambiam o leite do chão. 

Quando reapareceu com a azêmola, o cavalo estava sobre os joelhos, e mansamente roía os tojos do caminho. E, movido por um sentimento, não saberia dizer se de utilidade, se de dó, enxotou-­o na direcção do povo à pedrada. Trôpego e triste, espontando as urzes e os fetos novos, encaminhou-se o garrano para o estábulo, e essa noite dormiu­-a a sono solto. 

Manhã cedo, veio o Cleto e, sem dizer bus, tirou a albarda e potes do leite para a rua. De soslaio, o cavalo seguia-­lhe a manobra, à espera dos pontapés, que eram, de costume, o leva-­arriba. Mas, desta feita, o dono entrou e saiu sem lhe tocar. 

Afeito à volubilidade dos homens, não lhe causou o facto estranheza. Sabia que era fado seu marchar, e amenidades da ilusão desaconselhava-­lhas o velho instinto de malhadiço. E voluptuosamente foi-se deixando na cama, que nunca ela era tão doce como de manhãzinha, entre o sossego da noite a extinguir­-se e horas ásperas de caminho a tropicar. 

Estava nesta grata lasseira, ouviu lá fora um zurro.Ouviu­se retumbar uma, duas vezes, perfeitamente zurro jactancioso e optimista de jumento estupidarrão e bem tratado. E, depois duns segundos de casuística, vencido mais que tudo pela curiosidade, ergueu-se e foi espreitar. 

O Cleto aparelhava o asno que de véspera o revezara na jornada para a vila, enquanto Joana lhe ia chegando à boca, meiguiceiramente, uma a uma, molhadinhas de trevo. 

– Grande paparreta! considerou para consigo, roído de inveja ante o glutão, de olhinho gozoso, semicerrado, a retraçar o que lhe davam. Mas aquilo era um autêntico esbulho! Aquele trevo pertencia-lhe, pois não pertencia!? E, saindo fora resolutamente, pregou uma dentada na burra, e apresentou o focinho à mão liberal de Joana. Mas o Cleto descarregou-lhe de mão aberta duas cutiladas nas orelhas, e ele voltou para a loja triste e odiando. 

Moinou à solta todo o santo dia, tosando as febras e giestas dos cômoros, no meio das boieirinhas que andavam ao cibato e não tinham medo dele. E à boca da noite recolheu à cavalariça contente e meio farto. 

Uma vez ainda experimentou o Cleto deitar-lhe a cilha; metade por manha, metade por fraqueza,deitou-se ao chão, e nem a poder de castigo ou de afagos se convenceu a seguir jornada. 

O dono dali em diante passou a largálo todas as manhãs à gandaia, e ele, ainda que sob o despeito de tamanho desprezo, sentiase conformado com a macaca. Livremente ia pastar pelos caminhos e ribanceiras das fontes, mas limitava-se a rondar em volta do povo, que lhe não consentiam os esparavões deitar mais longe. E ao bater das avemarias era certo na loja, folgado, regalado das ervinhas e incensos de Nosso Senhor, menos dorida a pele sobre os ossos. Uma tarde, os garotos correram­no à lapada e teve de dar uma carreira, botar além dos seus domínios, o que era uma violência para as suas pernas zambras e combalidas. 

Quando voltou ao povo, já as vacas badalejavam à manjedoira. 

A loja estava fechada e não se descobria vivalma. 

Depois de descrever umas voltas ao acaso, cismar no meio da rua, volveu à porta da estrebaria e ali quedou muito tempo, cabeça baixa, à espera. Afinal, como ninguém se mostrasse, soltou um relincho, primeiro, rápido e suplicante, a advertir, depois, espaçado e de queixa; por último, um nitrido prolongado e aflitivo que fez chorar na cocheira próxima a égua velha do Senhor Reitor. 

Relinchou, relinchou e, como não lhe valessem, cheio de angústia e de raiva, desatou a escarvar a terra. Ninguém veio. Com a mão esgadanhou à porta, trabucou. Debalde. Já o seu próprio desespero desfalecia quando se apercebeu duns vultos que avançavam. Pelo andar e a estatura reconheceu, de salto, o filho do Cleto e, enristando as orelhas, em voz baixa e agradecida orneou. Mas o velhaco jogou­lhe um pau à cabeça, e foi dormir ao relento, longe dali, transido de pavor e desgostoso com os homens. No dia seguinte, ao sol­pôr, avistou o dono que regressava da vila, escarrapanchado entre os potes e governava a asna pelo cabresto. E saiu-lhe ao encontro, ralado de queixas e de saudades que ele podia ler no desafogo que trasbordava dos seus olhos húmidos. O Cleto deitou­-se abaixo, porventura com receio de algum desatino. E muito cordial coçou­-o e bateu-lhe palmadinhas nas ancas, ao passo que murmurava palavras que não compreendia mas eram mais dolentes que o crepúsculo da tarde nas estradas desertas por longes terras. 

E, reconciliado com o leiteiro, foi até o desenfado de o choutar atrás da burrinha para casa. Nessa noite dormiu como um justo, satisfeito consigo e com o mundo. 

Os tempos foram passando e, porta franca, sangue mais leve, pelagem a rebentar com o Estio, o lázaro começou a rejuvenescer na vida de vagabundo. 

* * * 

Com besta de empréstimo, o Cleto chegava uns dias com o leite azedo, outros tarde e às más horas. Acabou por não haver alma que lhe dispensasse um sendeiro e o leite coalhou nas panelas. Na manhã seguinte, ainda havia estrelas, bateu-­lhe à porta um sujeito, com horsa possante pela rédea, a pedir o rol. Da soleira, estremunhado, o Cleto respingou: 

– Que está para aí a alanzoar, homem? Já lhe disse: está despedido da fábrica. Passe para cá o rol... 

O Cleto protestou; ia comprar o macho do defunto Isidro e o serviço ficava regularizado duma vez para sempre. 

O outro não lhe deu ouvidos e partiu sem a relação a levantar o leite. Chegado ao largo da fonte, puxou do chifre e três vezes buzinou. As mulheres acudiram com as vasilhas à cabeça; e como o Cleto lhes fizera perder um dia, tinha fama de trapaceiro e era um farroupilha, os potes partiram para a vila atestados. O Cleto, entrementes, deitou-­se a falar com o dono da fábrica, o Sr. José da Loba, homenzinho gordanchudo e tatibitate, mas rico e de muita influência eleitoral. Sua senhoria mandou dizer que a resolução era inabalável e deu­lhe umas calças velhas e uma espórtula em dinheiro. Quando o Cleto contou os mal­empregados passos, Joana disse: 

– Amanhã vou lá eu. 

Arreou-­se muito: saia de baeta justa na anca, chambre que era um jardim, chinelinha de verniz no pé, e limpa e escarolada foi. 

– O Sr. José da Loba não está – responderam-­lhe. 

Esbracejando, forçou as portas até chegar ao senhoraço: 

– Então a que vens, Joana ? 

–Ainda mo pergunta? Quero o meu marido nos leites, ouviu? 

– Mas como, rapariga, se ele não tem besta, traz tudo ao deus-­dará? Os fornecedores desertam, estás a ver, descoroçoados os melhores. Raro o dia em que o leite não venha escasso ou se não estrague parte, umas vezes porque chega tarde, outras, eu sei, porque os produtores perderam o respeito e fazem tibornada. Não, assim não pode continuar! 

– Já lhe disse. Se quer o serviço bem feito, empreste-­lhe dinheiro para comprar uma cavalgadura. Não faz favor nenhum. 

– Ora, tu és tola, por mais que me digam!... Mas ouve, mesmo que eu cedesse... ninguém mais lhe quer dar o leite... 

– Cantigas! O que eles são é uma corja de invejosos. Empreste-­lhe você dinheiro e verá. 

– Não, já te disse que não, mulher! Escusas de te matar! 

– Sim? Não o fará, mas diabos me levem se em voz alta não for dizer à Senhora D. Zézinha, a todo o mundo, que você é meu amigo. 

Agarrando­-a pelo braço, empurrou-­a tranquilamente para a porta: 

– Quem te pega? Vai, mulher, vai! 

Soltou-­se o pranto nos olhos de Joana: 

– Quando me cometeu eram sete falinhas doces... 

Em voz terna, acariciado da voluptuosidade das lágrimas, retorquiu: 

– Olha, Joana, eu nunca deixarei de te socorrer; mas lá quanto a readmitir o teu homem, tó ruça! Tenho perdido um dinheirão por causa dele; nem tu imaginas!

O sangue tingia as faces de Joana, apagando-­lhes as rugas de sete ninhadas de filhos. Além de que os seus olhos muito pretos eram sempre bonitos, com o choro veio-­lhe uma expressão nova, quase de donzela, que esbraseou o Loba. 

Passando-­lhe o braço em torno trabalhe. Em voz encatarroada, gemeu: 

– Vamos morrer de fome. 

– Doida... doidona... se soubesses o bem que te quero, não dizias disparates! 

E, encostando a cabeça à dela, beijocou-­a, deixou-­lhe pela nuca, pelas têmporas, uma baba fátua de caracol: 

– Joaninha, tu agora vais a casa da Borralha... hem? Já lá vou ter. 

– Não, hoje não. 

– Hoje, sim! 

– E admite o meu homem? 

– Vai, lá falaremos! 

Joana não perdeu cinco minutos à espera em casa da alcoveta. O Loba chegou a soprar, olhinhos a arder, como sempre que ela descia da Serra, fresca, a cheirar à erva das altitudes, carnes enxutas, apetitosa do seu ventre de vaca lasciva. 

Já tarde, o homem importante, limpando o suor, desdobrava uma nota de cinco mil réis no oleado do toalete. E à pressa, enjoado, despedia-­se: 

– Aqui tens; vai com Deus. Dize ao Anacleto que não o esqueço, mas lá quanto a voltar ao leite escusa de insistir. Adeuzinho! 

Em cima do catre, Joana empurrava para dentro do colete de cordões os odres lassos dos seios. Logo que o Loba saiu, precipitou­-se sobre o dinheiro e escondeu­-o entre o couro e a camisa, contente de poder comprar a sua fornada de pão e talvez uma saia nova de chita. 

Quando chegou à Serra, os gados em procissão entravam no povo. De alma simples e bonacheirona, o Cleto não se admirou ao dar­lhe a mulher conta do recado. Nem mesmo tomou o peso da liberalidade do ricaço, habituado a elas, e de moral amolecida. 

Quanto à despedida irrevogável, da fábrica, encolheu os ombros: 

– Pois que dizia eu?! 

* * * 

Naquela manhã não lhe abriram a porta. Como tivesse fome, depois de relinchar, relinchar até lhe doer a goela, pôs­-se a catar no estrume as paveias e a farfalha dos sargaços. O Cleto trabucava lá fora, e, sentindo-­lhe o manejo, idas e vindas, estava indignado e cheio de ferocidade. 

À tardinha, apareceu finalmente a meter-­lhe a cabeçada, e muito submisso, pelo rabeiro, deixou-­se conduzir atrás. Na rua, Joana deu-­lhe uma côdea de pão e, a passo vagaroso, tomaram os três o caminho do outeiro, onde cresciam escarapetos e outras plantas bravias, e as pegas, pela tarde, se enxergavam em sua saraivada farândola. Havia lá cisternas de minas abandonadas, corcovas do desmonte por entre o urgueiral e, porque sempre se temera de lugares solitários, em sua estranheza perguntava: 

– Que diabo vamos fazer para aqui? 

Joana caminhava ao lado de Cleto, de mão a apanhar a saia, para que não roçasse a lama. E ele lambeu-­lha, balda velha que ganhara ao distingui-­la da manápula bruta do Cleto. 

Desta feita a mão terna e blandiciosa, apenas trémula como nunca, acariciou­-lhe a estrela corrida que muito admirava em si quando se dessedentava nos poceiros. E afagos assim morosos e tristes mais o fizeram desconfiar. 

A chuva lavara o céu e nele os perfumes das giestas e da vela-­luz pareciam andar boiando, não mais voláteis que nimbos brancos, matinais, à flor dum rio. E, trespassado da sensibilidade dos aromas, aspirou e arfou regaladamente, como nos atalhos quietos, quando as maias despejavam sobre ele cestadas de incenso. 

Mas ao passo que ia atrás dos amos, inebriado, sorvendo o ar, ruminava a sua filosofia suspicaz de vagabundo. 

Ao chegar a meio do cabeço, uma poldra passou a correr, veloz, narinas cheias de escuma e clinas ao vento. Corria como um raio, mal tocando a terra e roçando as urzes. E, na peugada, galopava o cavalo branco do moleiro, ridículo, com a carga na barriga, fumegando e arrifando. Homens, de cabeça ao léu e aos gritos corriam-­lhes no encalço. 

Naquele episódio fugitivo evocou o garrano a sua mocidade longínqua. E, apercebendo-­se do desejo impetuoso dos cavalos e da arisca e arrebatada luxúria das éguas, num relincho disse ao grotesco e heróico potro do moleiro: 

– Aí, aí, seu valente, a poldra está mortinha! 

E, em voz rápida, o outro respondeu: 

– Lá vamos, amigo, lá vamos! 

Chegou ao cimo do teso, pensativo e melancólico. Contra uma laja o filho do Cleto amolava um facalhão. E o garrano, que estava ressentido com ele, arreganhou os dentes, ameaçador. 

O rapaz, com um safanão que se perdeu no ar, sacudiu­-o. O Cleto prendeu-­o a um carvalhiço, depois do que lhe vendou os olhos com o lenço. E outra vez fez o seu reparo: 

– Mas que endróminas são estas?!

De repente sentiu um beliscão desagradável no pescoço e uma queimadura, estreita como chicotada, que lhe apanhava a garupa de lés a lés e se perdia por debaixo da pele. E pouco a pouco começou a achar­-se leve, leve como se um pé de vento fosse capaz de o rebalsar pelo espaço num galão vertiginoso. Ao mesmo tempo, por detrás do farrapo vermelho, os seus olhos pareciam ver com diversa claridade. Ali, lá em cima a poldra e o cavalo mordiam-­se num abraço rabioso. 

Também fora pimpão e chibante e a dentada com que ferrava as éguas pelo cachaço tão raivosa era de cio que elas abanavam como um canavial. Desabava sobre elas com a rapidez do nebri, e recordou-­se ... Uma vez rebentara a retranca para saltar na égua aluada dum passageiro que o provocava da argola da taberna com gemidos langorosos. Outra vez fugira para a serra mais a potra do mestre­ferrador e, com meio mundo atrás: 

– Aqui vai o rasto! rincharam além! arreta! aqueibá! – quando os pilharam, ela, e ele, saciados, ripavam placidamente a ervinha duma fonte. 

Na cernelha a torrente tépida lembrava um afago da mão de Joana, que nunca lhe fizera mal. E sentia-­se bem, inundado dum gozo desconhecido, quando lhe faleceram as forças e baqueou. Uma vez em terra, através da venda ofereceu-­se-­lhe um horizonte imprevisto, mais diáfano e arroxeado que certas púrpuras do poente para os lados do mar. Tinha vontade de dormir. Oh, como o chão era macio! Qualquer coisa parecido com asa ou o primeiro arrebol do dia roçava­-lhe a pelagem, suave, suavemente. Joana ergueu-­lhe o lenço dos olhos e por hábito novamente beijou a mão cujas meiguices vinham temperadas de tristeza. O ar, diante dele, era menos que um sopro que não basta para encher os bofes uma vez. Ao longe, para lá dos montes, avistou um corpo afogueado que descia. 

E vagamente interrogou­-se: 

– Será o Sol?

Depois, lembrado da poldra e do garanhão que galopavam para as núpcias ferozes, considerou: 

– É o amor dos cavalos. 

No horizonte, a grande rosa caiu arrastando o ar todo. E às escuras se engolfou no escuro nada. 

* * * 

O Cleto puxou-­lhe por uma perna e logo a seguir pespegou-­lhe um pontapé no bandulho a título piedoso de sondagem. À Joana que chorincava disse: 

– Chorar mas é por uma alma cristã, mulher! Andava a cair de podre. 

– Coitadinho, era um borrego de mansidade. Fartou­-se de andar connosco às cavaleiras e de nos ajudar a ganhar o pão! O José Cleto meteu­-lhe a faca ao tendão. E ela foi pensando nos bons tempos, que não tornam mais, quando, moça e bonita, requestada dos fidalgos, aparecia na vila montada para uma banda no seladoiro nédio do cavalo. 

– Já nem os ciganos lhe pegavam, estava a dar o cadilho – proferiu o Cleto enquanto lhe esticava o pernil para o Zé esfolar. 

– Se o deitamos à margem passava o seu mau quarto de hora com os lobos. Tenho coração, foi melhor assim, De resto, a pele sempre rende uns patacos vendida aos samarreiros ... 

– Já lhe disse! – obtemperou o filho. – A pele é para o bombo. 

– Qual bombo ou qual diabo?!... 

Sim, senhor, para o bombo! De cabra rebentam com duas maçanetadas e este ano a rusga vai à Lapa e queremos-­lhe zurrar. 

Ao ver o ventre imundo do cavalo, esfaqueado por mão inexperiente, Joana foi­-se dali cheia de nojo e anuviada. 

Aquilino Ribeiro